113 Anos da Imigração Japonesa no Brasil

Por Gustavo Oliveira B. dos Santos*

17 de Jun de 2021

18 de junho de 1908. Após uma longa viagem o navio Kasato-Maru chega ao porto de Santos. Foram 51 dias deslizando em águas profundas e revoltas, onde o navio carregou consigo os sonhos, esperanças, medos e incertezas de famílias que se lançaram à aventura nunca fácil da transumância. Vindo do Japão, o gigante de aço – outrora um navio russo espoliado após a vitória do Japão na Guerra Russo-Japonesa (1905) – acabaria por se tornar um símbolo da fecunda relação diplomática com o Brasil.

Ambos os países passavam por transformações sociais significativas naquela primeira década do século XX. Enquanto lá o capitalismo japonês se consolidava amplamente sob a égide do espírito de esforço e sacrifício (palavras tão utilizadas pelos Estados quando apelam para a população), aqui a República tentava se firmar em pernas ainda frágeis. A vitória sobre gigantesca Rússia havia acentuado ainda mais o lugar do Japão na geopolítica internacional e pavimentado o caminho que o faria colocar-se como líder imperialista na Ásia nas décadas seguintes. A acelerada industrialização do país após a Revolução Meiji (1868) impulsionava seu crescimento econômico dento dos moldes capitalistas levando o governo a adotar o incentivo à emigração como estratégia para o problema do aumento populacional e do espaço agrícola.

Já aqui no Brasil as experiências relativamente positivas com as imigrações italiana e alemã anos antes já haviam demonstrado as vantagens que um acordo de imigração poderia trazer. Assim foi assinado em 1895 o Tratado de Amizade, Comércio e Navegação entre o Brasil e o Japão.Já aqui no Brasil as experiências relativamente positivas com as imigrações italiana e alemã anos antes já haviam demonstrado as vantagens que um acordo de imigração poderia trazer. Assim foi assinado em 1895 o Tratado de Amizade, Comércio e Navegação entre o Brasil e o Japão.

Vistos de longe poderíamos considerar Brasil e Japão como opostos complementares: um marcado pelo tamanho continental e pela grande abundância de terras e outro com uma forte insularidade e problemas de espaço. De certa forma foi um acordo considerado bastante vantajoso para ambas as partes.

Já nessa viagem inaugural das relações imigratórias entre Brasil e Japão o Kasato-Maru trouxe 165 famílias. A maioria desembarcou no porto de Santos – São Paulo onde foram encaminhadas para o trabalho nas lavouras de café do estado. Outra parte dos imigrantes tiveram como destino o Paraná.  Na memória e no imaginário acerca dos movimentos de transumância geralmente predominam imagens de corajosos imigrantes que enfrentaram as dificuldades da adaptação e que prosperam através do trabalho e de grande esforço, trazendo uma sublimação posterior aos obstáculos iniciais. Na prática, e para além de qualquer visão romântica, os imigrantes (fossem eles italianos, alemães ou japoneses) acabaram por se deparar com condições de trabalho péssimas e com traços herdados da escravidão recém ilegalizada.

Enquanto novas famílias de imigrantes se instalavam em Tomé-Açu no Pará, eclodia nos Estados Unidos a terrível Crise de 1929. A recessão se espalhou mundo a fora e no Brasil atingiu especialmente os cafeicultores paulistas. Sem alternativas muitas famílias italianas e japonesas abandonaram a lavoura de café para tentar a vida na cidade de São Paulo. E a chegada de novas famílias nipônicas ao Brasil não cessou. Entre os anos de 1930 e 1934 o número dos imigrantes japoneses e seus descendentes saltou de 116.502 para 173.500.

No caso dos imigrantes japoneses além das dificuldades experimentados por outros grupos como a necessidade de aprender o idioma e os costumes locais, havia ainda o intenso desejo por preservar sua cultura. Esse aspecto torna-se particularmente dramático quando se trata de um povo acostumado a uma mestiçagem cultural relativamente baixa e que sustentava como podia ideias de uma pureza cultural nacional. Os colonos traziam consigo a centralidade em torno da família e as concepções de uchi e soto para designar os de “dentro” e “fora” de um núcleo ou grupo. Essas concepções podem ser aplicadas tanto à família quanto a uma determinada comunidade ou colônia.

Assim diferenciações entre os próprios imigrantes foram transportadas para o Brasil. A exemplo da diferenciação entre imigrantes de Okinawa e do chamado Japão Continental. De uma história distinta do Japão Continental o Arquipélago de Okinawa (outrora reino independente de Ryukyu) foi anexado à moderna Nação Japonesa com o estabelecimento da Era Meiji (1868). Considerados diferentes sob muitos aspectos, os uchinanchu (okinawanos) vieram com os demais japoneses e trouxeram para o Brasil sua cultura e modo de vida. Considerados por eles mesmos como mais abertos e comunicativos, os uchinanchu formaram uma significativa colônia no Brasil e se adaptaram bem à cultura local e ao clima quente – uma vez que nas Ilhas Ryukyu predomina um clima análogo ao tropical.

Por sua vez outro fator que dificultou ainda mais a interação entre os outros colonos japoneses e brasileiros era o desejo de voltar ao Japão.

Para muitas famílias a estada no Brasil deveria ser temporária e o desejo de retornar ao Japão assim como as perseguições durante o Estado Novo (1937 – 1945), especialmente no contexto da Segunda Guerra Mundial, representaram um elemento particularmente dramático da sua história. 

Nesse período, com a entrada do Brasil a favor dos Aliados, muitas famílias de imigrantes japoneses foram proibidas de falar seu idioma sob o risco de serem acusadas de espionagem ou conspiração. Tanto no campo quanto na cidade os casos de xenofobia contra esses imigrantes não foram poucos e sua memória dolorosa permaneceu viva.

Mas enquanto o Brasil cultivava e propagava a imagem de um país receptivo, amistoso e acolhedor em relação à imigração (imagem que ganhou força no pós-guerra e que predomina no imaginário quase como um anexo do “homem cordial”) filhos e netos desses imigrantes japoneses consolidavam ainda mais a inserção da cultura japonesa no Brasil. Seja por meio da gastronomia, religiosidade (como a inserção do budismo que vem se tornando popular no Brasil) ou artes marciais, a cultura japonesa se faz presente e forte. Além das comunidades de Tomé-Açu no Pará, Londrina, Assaí e Curitiba no Paraná, o Bairro da Liberdade na cidade de São Paulo é marcado como um grande centro da cultura japonesa e asiática no Brasil.

Inicialmente ocupado por outros imigrantes, o bairro recebeu as várias famílias que abandonavam os cafezais do interior paulista. Os quartos alugados nas pensões e grandes casas de outros imigrantes abrigaram essas famílias na capital paulista. Com o passar das décadas e massiva presença dos nikkei (japoneses residentes ou nascidos no exterior), o Bairro da Liberdade se consolidou como um símbolo das relações culturais entre Brasil e Japão e hoje abriga também as colônias chinesa, coreana e taiwanesa.

 

Com a forte ascensão econômica do Japão no pós-II Guerra, principalmente ligada à indústria de robótica e alta tecnologia, vimos o surgimento do fenômeno decasségui (dekasegi). Filhos, netos e bisnetos dos imigrantes japoneses no Brasil, os decasséguis são os que fizeram o caminho oposto, deixando o Brasil para trabalhar no Japão. Fenômeno particularmente forte na década de 1980 e 1990, os decasséguis brasileiros acabam por representar mais um ponto dessa aliança. Se por um lado a maior colônia japonesa fora do Japão está no Brasil, por outro o maior número de estrangeiros residentes no Japão são brasileiros.

Diante do fenômeno decasségui e de estratégias políticas da época o Centenário da Imigração Japonesa no Brasil foi amplamente comemorado em 2008, ano em que se completou cem anos da chegada do navio Kasato-Maru no Porto de Santos. Nessa ocasião a colônia nikkei no Brasil recebeu a célebre visita do então príncipe-herdeiro do Japão, Naruhito. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Agora, passados 113 anos da chegada do Kasato-Maru, e mesmo com uma pífia e constrangedora política externa brasileira, as relações culturais entre Brasil e Japão continuam fortes e dinâmicas. J-rock, mangás e animês continuam atraentes no Brasil e aproximam brasileiros ao Japão e à Ásia de um modo geral. Às portas da polêmica Olimpíada de Tóquio e em meio a críticas acerca da sua realização durante a pandemia de COVID-19, o Brasil se prepara para voltar seus olhos mais uma vez ao Japão.

 

Enquanto isso a enorme carcaça do Kasato-Maru repousa no mar da Rússia. Como uma espécie de karma – conceito tão caro aos budistas – o gigante de aço espoliado na vitória dos japoneses sobre os russos em 1905 acabou por encontrar seu fim nas bombas soviéticas durante a Segunda Guerra Mundial. É hoje uma lembrança registrada nas fotos da aventura desses imigrantes pelo ultramar. Ao mesmo tempo que se faz necessária a preservação da memória sobre um fenômeno tão complexo e rico como a imigração japonesa para o Brasil a necessidade de um olhar sobre o futuro também se aplica. Conseguiremos no futuro, brasileiros e japoneses, aceitar melhor o “outro” e o “diferente”?

*Gustavo Oliveira B. Dos Santos: Mestre em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG); Pesquisador de História do Japão e de Okinawa; Pesquisador do Centro de Estudos Asiáticos da Universidade Federal Fluminense (CEA-UFF); Professor de História na rede particular de Aparecida de Goiânia-Go; Faixa preta e professor de Karate Shotokan; Faixa Preta em Karate Uechi Ryu.

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Dois torii em São José dos Campos – SP
Esses portais colocados frente a frente acabam por remeter a duas portas abertas, uma frente a outra. A transumância entre Japão e Brasil talvez seja equivalente a isso: dois portais infinitamente abertos um ao outro.

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