1964: Nostalgia ilusória

Por Thiago Damasceno

31 de Mar de 2020

Nas palavras de Aristides Lobo, “o povo assistiu bestializado à proclamação da República”. Naquela ocasião, o republicano constatou a ausência da participação popular no ato político de 15 de novembro de 1889. Hoje, 131 anos depois, a participação popular na política é bem diferente. Está mais ampla. E hoje também não há mais bestializados, mas sim neobestializados.

Os neobestializados perambulam na linha tênue que fica entre a ignorância, a informação falsa e as intenções exclusivistas travestidas de amor pela pátria. Os neobestializados negam as ciências e o conhecimento acadêmico como um todo. Os neobestializados põem em risco nossas vidas quando defendem mais a economia do que a saúde de quem produz dinheiro, bens e serviços. Os neobestializados acham que uma arma na mão resolve tudo. Os neobestializados elegem mitos com pés de barro. Eles comemoram o Golpe Civil-Militar de 1964.

Executado na madrugada de 31 de março, o golpe tirou do poder o governo legalmente constituído do então presidente João Goulart. Falaremos sobre aquele contexto e o atual. Afinal de contas, nós historiadores olhamos para o passado a partir das ansiedades do presente.

Dentre essas ânsias, testemunhamos um número expressivo de manifestações em prol do retorno dos militares ao poder. Os neobestializados defendem que os militares salvaram o país da desordem, da destruição comunista e da corrupção entre 1964 e 1985. Eles têm fetiche em fardas e rituais militares, pois encaram tal setor como uma espécie de útero santo criador de messias e salvadores da pátria. Nada mais ilusório do que isso.

A censura às liberdades de expressão e as violentas repressões do regime militar produziram consideráveis números de mortos e desaparecidos. Essas mortes foram feitas em diferentes modalidades, como execuções sumárias e arbitrárias ou decorrentes de tortura, conflitos armados com agentes do Poder Público e suicídios na prisão. Devido aos vestígios que conseguiram chegar até nós e ao mascaramento de muitos óbitos, levantar esses dados precisos é tarefa complexa e difícil, mas não impossível. Vejamos alguns números a seguir cientes de que essa contagem é bem superior.

435 mortos e desaparecidos políticos entre 1946 e 1988 [dados do Relatório da Comissão Nacional da Verdade], mais de 357 vítimas confirmadas e 600 reivindicadas – camponeses, sindicalistas, líderes religiosos, advogados e ambientalistas – entre 1961 e 1988 [dados do jornal Folha de São Paulo] e mais de 1.100 indígenas da etnia Waimiri-Aitroari [dados do antropólogo José Porfírio de Carvalho].

A economia de fato foi modernizada, principalmente na área industrial, mas a um grande custo que pagamos após a redemocratização, com hiperinflação, uma enorme dívida externa e um grandioso aumento da desigualdade social. Em suma, não foi um crescimento econômico sólido e saudável, mas sim “para inglês ver”.

No período militar a corrupção corria solta devido a fatores como o fechamento do Congresso Nacional, a limitação de órgãos de investigação como Polícia Federal e Ministério Público e a censura à imprensa e à oposição política. Episódios como o Escândalo Lutfalla e o Caso Delfin são um exemplo disso.

Vemos então que a nostalgia dos neobestializados - que enxergam os 21 anos de regime militar como um paraíso perdido - é tão ilusória, estúpida e perversa quanto seus mitos com pés de barro. Nossa democracia, com seus 35 anos, tem muitos problemas, mas ainda assim é o melhor regime político que temos. Não podemos deixá-la cair perante revisionismos históricos baratos, negacionismos e discursos de “ditabrandas”. Não podemos deixá-la cair com os urros dos neobestializados. Não podemos deixá-la cair nas mãos de projetos racistas, misóginos e autoritários. Nossas liberdades e nossas vidas valem muito mais do que isso.

Leia o memorando da CIA sobre a autorização do Estado para execuções no regime militar durante o governo Geisel. Disponível online aqui

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