20 de novembro: consciência de quê?

Por João Oliveira Ramos Neto

20 de Nov de 2020

Certa vez, ministrando aula de Brasil Colônia para uma turma de segundo ano do Ensino Médio, explicava que os padres jesuítas protegiam os índios, e essa foi uma das razões pela qual os portugueses decidiram importar africanos para trabalharem como escravos nas plantações de cana-de-açúcar. Um aluno, então, me interrompeu e perguntou: “professor, por que os jesuítas protegeram os índios, mas não protegeram os africanos?”. Excelente pergunta, respondi. E, então, expliquei: havia uma teologia que explicava que os negros africanos eram amaldiçoados por Deus. Essa teologia explicava que eles tinham essa condição por serem descendentes de Caim, e descendentes de Cam, dois personagens malditos na Bíblia. Quando terminei a explicação, um aluno disse: “professor, eu ouvi meu pastor dizer isso semana passada na minha igreja”. Então, assustei. Constatei que aquele pensamento não estava restrito ao século XVI. Por incrível que pareça, ele vigora ainda hoje, em pleno século XXI. Então, ali, naquele momento, tive um estalo e entendi, na prática, porque existe o dia da consciência negra!

O dia da consciência negra existe, entre outros motivos, porque discursos que oprimem os negros na nossa sociedade ainda existem, e persistem. O dia da consciência negra existe porque, ao invés de ignorar essa realidade, é preciso trazê-la à reflexão e, assim, desconstruir os discursos opressores. Depois daquela pergunta, começamos um debate sobre o tema. A primeira pergunta que lancei foi: por que só se demoniza o que é negro e africano? Afinal, por exemplo, o discurso predominante na sociedade atual é aquele que apresenta os deuses da mitologia africana, os quais compõem religiões como o Candomblé, como demônios. Mas, por que os deuses da mitologia nórdica, como o deus viking Thor, ao contrário, viram filmes hollywoodianos de heróis? Por que a mitologia europeia é retratada como heróica e a mitologia africana é retratada como demoníaca?

A segunda pergunta foi sobre a interpretação da Bíblia. Assim como você pode fazer uma leitura bíblica que coloca negros africanos como amaldiçoados, você pode fazer uma leitura bíblica libertadora. E foi isso que o pastor Martin Luther King Júnior fez nos Estados Unidos da América. Ao invés de pregar sermões opressores e alienantes, pregou sermões que inspiraram a comunidade negra a lutar por seus direitos. Há mais de meio século, ainda que com outras palavras, ele já pregava do púlpito da igreja que pastoreava que vidas negras importam. A Bíblia, em si mesma, não é racista. Depende da hermenêutica que se faz dos seus textos.

Com esses exemplos acima nós lembramos que os discursos que oprimem os negros não são naturais. Eles foram social e culturalmente construídos, em um determinado momento, por grupos e pessoas que tinham como objetivo exercer domínio sobre os africanos e seus descendentes. Então, o dia 20 de novembro é uma data que convida a ter consciência disso, consciência da necessidade de desconstrução desses discursos. A consciência de que nenhum discurso que diminui ou menospreza as vidas e as culturas negras pode prevalecer em nossa sociedade.

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