O 7 de setembro e o “complexo de vira-lata”

Por João Oliveira Ramos Neto

07 de Set de 2020

Certa vez, durante uma aula, um aluno me questionou: “professor, por que os presidentes dos Estados Unidos são tão competentes e os presidentes do Brasil são tão idiotas?”. Levei um susto ao constatar que a influência das produções cinematográficas hollywoodianas era maior do que eu supunha. Afinal, apesar de figuras como George W. Bush e Donald Trump, a imagem que aquele aluno tinha dos presidentes estadunidenses era aquela criada pelos filmes. Então, para respondê-lo, comecei abordando o chamado “complexo de vira-lata” que aflige o brasileiro. Afinal, se contabilizarmos só as décadas mais recentes, o Brasil já teve um presidente que construiu uma moderna capital em menos de cinco anos, um presidente que foi professor na Universidade de Stanford, e um presidente que nasceu no meio do agreste pernambucano e, sem estudo formal, terminou o mandato com aprovação acima de 80%. “Será que nossos presidentes são tão idiotas?” questionei de volta. Mas, o que tudo isso tem a ver com a data de 7 de setembro?

É que, todo ano, nessa data, surgem aquelas figuras midiáticas para debochar da história do Brasil. E, tomando o “complexo de vira-lata” quase como um pressuposto, aparecem em entrevistas evocando a figura de dom João VI como um rei falastrão, que só pensava em comer coxinha de frango, e uma proposta de desconstrução do quadro de Pedro Américo, “Independência ou Morte”, alegando que dom Pedro apenas havia parado às margens do rio Ipiranga por necessidades fisiológicas, não trajava vestes reais e montava um jumento, e não um cavalo.  Essa imagem caricata também é, muitas vezes, divulgada em cursinhos, que acreditam que precisam tornar tudo muito engraçado para cativar a audiência adolescente. Mas, dom João VI foi o único rei europeu que conseguiu enganar Napoleão. Enquanto a França perdia o Haiti, Fernando VII era deposto, e a dinastia de Bourbon na Espanha começava a perder suas colônias na América, a dinastia portuguesa de Bragança governou o Brasil até 1889. Em 1822, quando ocorreu o rompimento político entre as duas partes que compunham o Reino Unido, dom Pedro se tornou um imperador absolutista no Brasil, enquanto os reis europeus perdiam poder. Então, será que nossos heróis são tão idiotas, caricatos ou fracos, como muitas vezes são retratados pelos revisionistas?

Se, por um lado, temos aqueles que ridicularizam os monarcas do nosso passado, por outro lado, temos aqueles que exaltam e idealizam essa época como áurea, inclusive ao ponto de nascerem movimentos que desejam o retorno da monarquia como forma de governo. Essa nostalgia não é exclusiva do Brasil. Na Rússia também há, de tempos em tempos, movimentos saudosistas da época dos czares, ainda que fosse uma época em que a imensa maioria da população sobrevivia na miséria e morria de fome. É próprio da História que os períodos do passado sejam periodicamente revistos e é comum que em alguns momentos sejam desprezados e, em outros momentos, idealizados. A Idade Média, por exemplo, já foi desprezada como Idade das Trevas para os iluministas, e idealizada como época áurea para os homens do Romantismo. Por que isso acontece?

Responder essa pergunta é tarefa muito complexa para um texto de internet como este. Ela está dentro das questões da memória, pois trabalha com a criação do mito do herói nacional, levando em consideração o papel da História como formadora da noção de nacionalidade, criando imaginários e legitimando tradições inventadas. Porém, sem querer minimizar o debate, mas atento aos caracteres possíveis de um texto como este, podemos dizer que se trata de escolhas. Assim, naquela aula, eu terminei explicando para aquele aluno que todo herói nacional, por ser historicamente construído, também pode ser desconstruído.

Abraham Lincoln, lembrado nos Estados Unidos pelo fim da escravidão, tinha como projeto retirar os negros do seu país e mandá-los para outro lugar. Winston Churchill, lembrado pela vitória da Inglaterra na Segunda Guerra Mundial, foi responsável pela morte de mais de 3 milhões de indianos no genocídio de Bengala. Simón Bolívar, conhecido como “O Libertador” para venezuelanos e colombianos, se tornou ditador após conquistar a independência. Portanto, não é da História criar debates maniqueístas entre mocinhos e bandidos. Qualquer figura histórica, principalmente as políticas, sempre terá aspectos louváveis e aspectos desprezíveis. Porém, por que idealizar o das outras nações e ridicularizar os nossos? O que eu sempre digo para os meus alunos é que precisamos superar esse “complexo de vira-lata”. Se for para desconstruir um mito de um herói nacional, que façamos o mesmo para os dos demais países. E que o façamos quando o rigor metodológico da pesquisa histórica assim o exigir, e não motivados por um sentimento de inferioridade diante de outras nações.

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