A Crônica do Rei: memória e história

Por Johnny Taliateli

28 de Nov de 2018

Terminei de assistir a terceira temporada da série O Último Reino – disponível na Netflix – no decorrer dessa semana e um aspecto me chamou atenção numa conversa franca entre os dois personagens maiores da trama, o rei Alfredo e o protagonista Uhtred. Este último observava estupefato numa sala as páginas de uma crônica que estava a ser escrita, uma crônica dos feitos de Alfredo, rei a quem historicamente foi atribuído o epíteto de “O Grande”. Na trama fictícia, apesar do protagonista ter contribuído largamente para a construção do sonho de uma Inglaterra, o monarca deixava claro que o guerreiro não seria mencionado na narrativa, os grandes feitos deixados para a posteridade seriam os de Alfredo.

 

Gosto muito de romances, ainda mais dos históricos, mas confesso que por conta do trabalho acadêmico e outros afazeres, ainda não consegui me dedicar à leitura de todos os livros lançados da série “As Crônicas Saxônicas” de Bernard Cornwell, obras que a série procura retratar. Para ser honesto, li até então apenas o primeiro título e que dá nome à série, “O Último Reino”. Entretanto, já consumi outros trabalhos do autor como a famosa trilogia “As Crônicas de Artur”. Cornwell tem uma grande habilidade para narrar batalhas que eu sonhava ter e que um escritor famoso, o Martin, aquele da Guerra dos Tronos, não tem. Isso é um fato, e foi dito pelo próprio Martin. Mas, enfim, divagações à parte, voltemos ao tema que seria discutido.

 

A cena em questão, a conversa em tela entre Alfredo e Uhtred sobre a crônica me provocou um baita sorriso, pois me trouxe à memória o trabalho com algumas crônicas e algumas boas conversas com alguns amigos historiadores, uns que escrevem neste site por sinal.

 

Exemplos são bem-vindos e, portanto, faço um paralelo entre duas crônicas sobre os reis de Portugal da primeira dinastia (a de Borgonha), escritas por Rui de Pina. Rui foi cronista do reino português na época de D. Manuel, rei no tempo do “descobrimento” do Brasil pelos portugueses. Mas o cronista já vinha escrevendo as obras sobre os feitos dos reis de Portugal por ordem de D. João II, antes de se tornar cronista-mor.

 

Tomo para efeitos de comparação trechos das Crônicas de D. Dinis (1279 – 1325) e de D. Sancho II (1223 – 1248). Na de Dinis, como reproduzido no português da época, se diz:

 

Este, foy do começo de seu Reynado atèe o fim delle sempre em todos seus feytos muy excellente, e por seu bom nome conhecido, e estimado por tal antre todolos Reys do mundo, que teve em perfeyçam tres virtudes, ha saber verdade, justiça, e nobreza, pelo qual hos homens que has tem, como elle teve, claramente sam avidos de humanos, por divinos, e de mortais por immortais.

 

Até hoje se fala bastante de D. Dinis como um bom rei, monarca de bons epítetos, de lavrador a trovador. Toma-se agora um caso diferente, de um governante que foi deposto pelo papa e acusado de ser um rei inútil, o Sancho II:

 

[...] que sempre trouxe, mais de feyçam de Religioso, que de Rey, nem Cavaleyro, porque foy Principe, que do começo de sua vida atée que acabou em servir mais ha Deos, que àaver respeyto àas couzas, e pompas do mundo, em cujo coraçam nom ouve ha verdadeyra fortaleza que pera Rey era muy necessaria, mas ouve nelle sua pura simpreza, com que dezejou que seus Regno, e Vassalos fossem regidos por ley de natureza [...].

 

Podia selecionar mais um monte de exemplos, mas creio que é o suficiente para clarificar o ponto em que quero chegar. Se o projeto era escrever a crônica de cada um dos reis de Portugal até chegar naqueles que patrocinavam a obra, D. Joao II e D. Manuel, era preciso tentar explicar cada um dos antecessores, mesmo quem não havia muita coisa boa para contar. Logo, o rei deposto precisava ser desvendado, suas falhas podiam ser pedagógicas no sentido de mostrar aquilo que o monarca atual não devia seguir e, ao mesmo tempo, era preciso mostrar como a instituição monárquica continuou. Quem assumiu o trono no lugar de Sancho após uma violenta guerra civil e devido à ausência de herdeiros, foi seu irmão Afonso, pai de D. Dinis. Na falta de muitos documentos do reinado de Sancho, sobretudo de seus anos finais, e devido ao fato de que perdeu a guerra originada pela sua deposição, construiu-se sobre ele uma memória negativa. Como pode ser observado no fragmento cronístico acima, alguém fraco para a difícil tarefa de governar.

 

Em história, aprendemos sobre essas armadilhas propiciadas por algumas tipologias documentais que podem condicionar o olhar. Uma crônica antiga exalta a memória de alguns e deturpa a de outros. Exalta sobretudo a de quem a patrocina. Ao escrever sobre Sancho II em artigos acadêmicos, sei dos cuidados que tenho que ter com essas narrativas, principalmente, por serem mais tardias. Além do mais, pelo processo conturbado do seu afastamento do trono e a ascensão do seu irmão, cada vez mais se acredita que deve ter havido o apagamento de rastros. Entretanto, se há o esforço político para que alguém seja esquecido, tem sempre também a persistência de algumas evidências. É aí que reunimos muitas vezes os indícios para averiguar se houve danação da memória ou exaltação excessiva em outros casos.

 

Essas figuras de poder do passado (tal como algumas do presente) tinham a preocupação com a construção de sua própria memória, com a forma que seriam lembrados. Difícil algo causar tanto terror quanto as sombras do esquecimento. Em Roma, a damnatio memoriae era uma forma de desonra apavorante. Para ser mais incisivo, desde que o ser humano dominou a escrita, ele dá uma importância sobremaneira à preservação do nome. No caso desses reis medievais, procurava-se registrar o que seriam seus grandes feitos e evidenciar a continuidade da instituição monárquica.

 

Na narrativa bíblica, qualquer um que retomar o Gênesis vai ler no início que Deus criou o mundo a partir de sua palavra. Mandou que houvesse luz e ela surgiu. Palavra é poder, boa parte dos seres humanos querem ser detentores do monopólio da palavra. Afirmar e reafirmar que sua verdade é melhor do que a do outro. O que dizer então da política?

 

Trouxe alguns exemplos, mas se formos conversar sobre hoje, é possível afirmar que é parte da condição humana que sempre vai haver disputa sobre quem ou que partido tem a melhor proposta, o melhor projeto. Sempre vai haver briga para se ter o direito de dar a “palavra final”, como se finalizar algo, relegar ao esquecimento, fosse fácil. Sempre haverá o desejo de controlar a história e, por isso, historiadores, sociólogos, filósofos e alguns jornalistas são os primeiros a serem declarados inimigos em projetos de poder mais autoritários. Sempre vai ter um “outro” a ser banido como parte desse projeto de poder. A verdadeira tolice é acreditar que conseguirá controlar a memória que será produzida a seu respeito ao longo da história. Isso, só o futuro dirá.

 

Todos querem o monopólio da palavra, mas em política ou mesmo na vida, não se deve falar, de um lado ou de outro, em monopólio da verdade.

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