A crucificação de Jesus

Por João Neto

18 de Abr de 2019

É comum teatros representarem a condenação de Jesus na semana santa. Porém, muitas pessoas fazem confusão com o processo. Vamos explicá-lo para você neste texto.

 

Aos historiadores, peço perdão pelos anacronismos grosseiros que vou cometer aqui. Meu objetivo é fazer um leitor totalmente leigo entender o processo da crucificação de Jesus. Se você tiver problemas com fortes emoções, por favor, não continue a leitura. As comparações vão ferir os termos técnicos. E você, historiador profissional, não vai poder dizer que eu não avisei. Vamos lá!

 

Jesus era um judeu. Portanto, ele fazia parte do povo de Israel. Tecnicamente não podemos chamar Israel de nação naquela época, mas para você entender, é como se fosse um país. Pois bem, Jesus era de Israel, e ele nasceu na cidade de Belém, e cresceu na cidade de Nazaré. São cidades próximas de Jerusalém, que era a capital. Belém, Nazaré e Jerusalém faziam parte de uma província de Israel chamada Judeia. Aliás, é daí que vem o nome judeu. Hoje em dia, chama-se judeu ao que pratica a religião judaica. Naquela época, judeu era aquele oriundo da Judeia.

 

É mais ou menos assim: existia um país chamado Israel. E Israel tinha um estado chamado Judeia. Assim como você é goiano e brasileiro, Jesus era judeu e israelita. E, assim como você pode ser goiano, brasileiro e católico, Jesus era judeu, israelita e praticava a religião judaica.

 

Quando completou 30 anos, ele desenvolveu seu ministério em outra região, chamada Galileia, que ficava na província de Samaria. É como se ele tivesse saído do estado da Judeia e ido para o estado da Samaria. Eu avisei, historiador profissional! Ainda dá tempo de você parar de ler.

 

Quando Israel era independente, com a capital em Jerusalém, onde ficava o famoso templo, ele tinha suas próprias instituições e leis. A principal instituição era o Sinédrio, uma espécie de conselho, presidido por um sumo sacerdote. A lei era o decálogo, ou instruções atribuídas a Moisés, que compõem os cinco primeiros livros da Bíblia. Em comparações grosseiras novamente, o sinédrio seria o STF de Israel, e o Pentateuco seria a Constituição. Enquanto nosso STF tem 11 ministros, o sinédrio tinha 70 sacerdotes. E ao Sinédrio cabia interpretar e aplicar essa lei. E essa lei previa a pena de morte por apedrejamento para alguns casos.

 

Você pergunta: e quem eram os deputados, ou o poder legislativo? Bom, apesar de isso ser milhares de anos posterior na História, podemos – grosseiramente de novo – afirmar que o legislativo eram os levitas, uma classe de sacerdotes. Era desses levitas que saía tanto os sacerdotes que compunham o Sinédrio como que cuidavam do templo.

 

Quando Jesus nasceu e viveu, porém, Israel não era mais independente. Ele havia sido dominado pelo Império Romano. Inclusive, foram os romanos que passaram a chamar o lugar de Palestina, termo que usamos até hoje, mas que os judeus são contra. Os romanos não interviam na religiosidade do povo de Israel, desde que eles obedecessem ao imperador romano e pagassem os impostos.

 

Havia, portanto, uma sobreposição de autoridades: o judeu devia obedecer ao Sinédrio e, ao mesmo tempo, ao Império romano. Pagar o dízimo para o templo judaico e o imposto romano para os romanos. E como os romanos faziam a dominação? Eles não colocaram um interventor em Israel todo. Eles nomearam um governador para o que seria o estado da Judeia – Pilatos – e um governador para o estado da Samaria – Herodes.

 

O Sinédrio cuidava da parte que interessava aos judeus, principalmente do cumprimento da lei. Por exemplo, se alguém fosse pego em adultério, deveria ser condenado ao apedrejamento. Roma não intervia nisso. Agora, se alguém se rebelasse contra a autoridade do imperador romano, querendo que Israel ficasse independente – e isso acontecia sempre – aí Roma intervia, por meio de seus governadores, condenando-o à crucificação. Pilatos na Judeia e Herodes em Samaria. Entendeu? Isso mesmo: a pena de morte de Israel era o apedrejamento. E a pena de morte romana era a crucificação.

 

O que levou Jesus à morte foi o fato dele ter incomodado aos judeus, e não aos romanos. Jesus sempre deixou claro que seu reino não era deste mundo. Então, os romanos não se importavam. Primeiro que eles viam Jesus como um lunático. Segundo que israelita que dizia ser o messias era comum. Roma não levava a sério. Porém, à medida que Jesus foi ganhando mais seguidores e ficando contra as instituições judaicas, ele se tornou uma ameaça religiosa para o Sinédrio! As inovações religiosas de Jesus poderiam acabar com o poder dos sacerdotes. Por isso que, quem pediu a condenação de Jesus foi justamente o Sinédrio, na pessoa do sumo sacerdote, Caifás.

 

Caifás, porém, tenta fazer uma jogada e colocar Roma contra Jesus. Ele diz, então, para Pilatos, que Jesus se apresenta com rei dos judeus, dizendo que Jesus é, na verdade, uma ameaça política para o domínio romano. Pilatos sabia que não era isso e não queria se envolver naquela confusão. Então ele tem uma ideia, típica de político. Ele diz que Jesus fez toda a sua ação na Galileia, que era região da Samaria e que, por isso, ele tinha que ser julgado por Herodes. E manda Jesus para Herodes. Este, sendo outro político esperto, viu que era fria, e diz que Jesus é, de nascimento, da Judeia, e devolve para que Pilatos resolva.

 

Então Pilatos, sendo o político que era, mais uma vez decide jogar para o povo decidir. É a famosa frase: vocês querem que eu liberte Jesus ou Barrabás? E o povo grita Barrabás. Afinal, é fácil moldar a opinião pública, não é mesmo? Até hoje em dia você vai ver muitas pessoas dizendo que odeiam este ou aquele partido político sem saber explicar racionalmente o motivo de tal ódio. Naqueles dias, se você perguntasse porque as pessoas gritaram para libertar Barrabás, e não Jesus, elas também não saberiam explicar.

 

Então Pilatos lava as mãos, dizendo que foi o povo quem pediu. Como foi um processo romano, então Jesus foi crucificado. Mas tudo isso com anuência do Sinédrio, que era a parte mais interessada.

 

Daí pra frente você já sabe. Os discípulos dizem que Jesus ressuscitou. Naquele contexto, quem acreditou passou a ser chamado de cristão. E quem não acreditou, continuou sendo judeu – no sentido religioso – e está esperando até hoje a chegada do verdadeiro messias.

 

A História, enquanto ciência, não entra no mérito da questão espiritual, se Jesus ressuscitou, ou não. Isso é da fé de cada um. Fato é que a Bíblia é uma fonte histórica. Como tal, é analisada pelos historiadores profissionais de forma crítica, e não como verdade absoluta. E, independentemente dos detalhes dos relatos – excluindo discussões sobre a veracidade ou não dos relatos extraordinários – não dá para negar que, do ponto de vista da História, houve, naquele contexto, um [ou até mesmo, vários] homem chamado Jesus – Yeoshua em Hebraico – que abalou as estruturas políticas e religiosas de Israel no contexto da dominação romana.

 

Portanto, se você é cético e quer resgatar só a parte histórica, te indico a ler os livros de John Dominic Crossan, especialista mundial no assunto. Se, porém, você também acredita nos relatos e lições espirituais da Bíblia, te desejo uma feliz Páscoa!

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