A Operação Fita Amarela

Por João Neto

16 de Dez de 2018

Várias informações já foram divulgadas sobre os ataques de 11 de setembro de 2001, quando 19 terroristas da Al-Qaeda sequestraram quatro aviões comerciais e jogaram dois deles nas torres gêmeas do World Trade Center. Uma informação pouco divulgada no Brasil, porém, é a respeito da Operação Fita Amarela [Yellow Ribbon Operation], realizada logo em seguida aos ataques, no Canadá. Faço uma apresentação introdutória dela aqui para aqueles que, como eu, são amantes, não só da História, como também, da aviação.

 

Existe uma cidade no Canadá chamada Gander, que significa ganso em inglês. Ela fica em uma ilha chamada Newfoundland [Terra Nova], onde neva oito meses por ano. Lá, em 1936, foi construído um aeroporto internacional [YQX], inaugurado em 1938, bem no início da aviação comercial. Lembrando que todo aeroporto do Canadá tem o código IATA começando com Y.

 

O motivo da construção do aeroporto, porém, não foi a cidade em si, que conta com 10 mil habitantes, mas sim, a sua localização estratégica, pois é o ponto da América mais próximo da Europa [Gander fica a 3.189 km de Shannon, na Irlanda], está no caminho das principais linhas aéreas do Atlântico Norte [NAT-OTS], a West Bound Tracks [da Europa para a América do Norte] e East Bound Tracks [da América do Norte para a Europa] e é lá também que fica o controle do tráfego aéreo dessa região. Quando um avião não tem autonomia suficiente para cruzar o oceano Atlântico, é em Gander que ele faz uma escala para abastecer. E, é claro, é lá que os aviões fazem pouso de emergência, quando necessário. A importância disso fica maior quando destacamos que o Atlântico Norte é o espaço aéreo mais movimentado do mundo, com aproximadamente 1.500 voos por dia.

 

E foi no dia 11 de setembro de 2001 que aconteceu a maior emergência conhecida pelo aeroporto de Gander. Com o fechamento do espaço aéreo dos Estados Unidos após os ataques, foi para lá que os aviões que estavam chegando da Europa foram desviados. 39 aviões transatlânticos pousaram no aeroporto de Gander, com aproximadamente 7.000 passageiros. Imagine você: 7.000 passageiros desembarcando forçadamente em uma cidade de 10.000 habitantes. Quase 1 passageiro para cada habitante. A Operação Fita Amarela foi justamente a mobilização que a cidade sofreu para receber todo esse pessoal. Afinal, foi uma medida de segurança dos órgãos canadenses redirecionar os aviões para uma ilha pouco habitada do Atlântico do que para seus principais aeroportos. Inclusive, também, para proteger a capital, Ottawa.

 

Talvez você pense que operação semelhante poderia acontecer facilmente em qualquer aeroporto do Brasil. Não é bem assim. Quando se diz que um aeroporto é internacional, como o de Goiânia, não significa necessariamente que ele faz voos internacionais, mas que ele tem capacidade técnica para, se necessário, comportar um avião com essas características. Isso porque, um avião internacional geralmente é maior do que um avião de voos domésticos, pois ele precisa de mais combustível para atravessar um oceano voando. Sendo assim, ele precisa de uma pista maior, tanto para decolar, quanto para pousar. Mesmo estando em uma cidade de 10 mil habitantes, o aeroporto de Gander foi projetado exatamente para pousar aviões desse porte. Os aeroportos pequenos do interior do Brasil não têm capacidade para isso.

 

A Operação Fita Amarela acomodou 7 mil pessoas em uma cidade de 10 mil habitantes até que os aviões fossem autorizados a decolarem para os Estados Unidos, para concluírem a viagem, algo que só aconteceu uma semana depois. Entre as sete mil pessoas hospedadas, estavam personalidades de destaque, como a prefeita da importante cidade de Frankfurt. Já pensou? Você está vivendo sua vida normalmente em uma pacata cidade do interior quando, de repente, é chamado para hospedar a prefeita de uma das maiores cidades da Europa em sua casa!

 

Os moradores da cidade abrigaram passageiros desconhecidos em suas casas. Ônibus escolares foram deslocados para transporte. Centenas de voluntários cozinharam durante dias para milhares de pessoas. Inclusive comida especial para religiosos com interdições alimentares.

 

Com certeza essa é uma experiência que os moradores de Gander vão demorar muito para esquecer. Em reconhecimento a tanta generosidade, um Airbus 340-300, da empresa alemã Lufthansa, foi nomeado Gander. Muitos passageiros, agradecidos, criaram fundos de investimento para estudo das crianças da cidade. A operação Fita Amarela virou uma série de televisão canadense, a Diverted [desviados], e é tema de um musical da Broadway, a Come from Away [vindos de longe], que se tornará um filme em 2019. Infelizmente a série e o musical não estão disponibilizados em português.

 

Ok, talvez você esteja se questionando o motivo do nome, Operação Fita Amarela. E, talvez, você pensou que foi porque é a cor das faixas de segurança usadas pelas equipes de salvamento em desastres. Não. Na cultura canadense, remete ao período em que as mulheres usaram fitas amarelas na esperança de que seus filhos e maridos retornassem da Primeira Guerra Mundial [1914-1918]. Durante a Segunda Guerra [1939-1945], ela foi relembrada, sendo usada como compromisso dos soldados canadenses com o seu país e com os aliados. Dessa forma, em 11 de setembro de 2001, as autoridades canadenses escolheram esse nome para representar o compromisso de amizade do Canadá com os Estados Unidos de dar aos passageiros estadunidenses em rota comida, abrigo e saúde, até que eles pudessem completar a viagem.

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