Eu mereço meu sucesso? A questão da Meritocracia

Por Wendryll Tavares

17 de Nov de 2018

Frases do tipo “estou onde estou porque mereço” ou “tudo que conquistei foi com meus méritos” são recorrentes em diversos setores da sociedade brasileira. Tais elaborações fazem parte de um tipo de discurso que visa legitimar a ideia de meritocracia, esta entendida como uma configuração social em que as pessoas progridem econômico e socialmente por conta unicamente de suas habilidades e qualidades. Isso me parece muito sedutor para o mundo em que vivemos.

 

Bem, como nunca havia me interrogado a respeito da definição e surgimento da ideia de meritocracia, resolvi fazer uma busca rápida na internet. Imagine qual não foi minha surpresa quando descobri que o termo foi utilizado pela primeira vez no ano de 1958, quando da publicação de um livro chamado The Rise of the meritocracy, de autoria de Michael Young. Os detalhes interessantes são que o autor era um membro histórico do Partido Trabalhista inglês e o livro foi redigido como uma sátira ao sistema educacional inglês, baseado na seleção dos melhores alunos por meio de testes de inteligência[1]. O próprio Michael Young escreveu um texto no The Guardian apontando como a meritocracia era perigosa, já que poderia criar uma elite baseada em certos critérios que excluiriam o restante da sociedade no acesso a cargos políticos. Young chegou a comparar os gabinetes Blair (entre os anos 1990 e 2000) e Attlee (entre os anos 1940 e 1950), sendo o último responsável por nomear figuras como Ernest Bevin e Herbert Morrison (dois políticos com baixíssima educação formal)[2]. A questão colocada se centrava na possibilidade de que diversos extratos sociais pudessem acessar cargos públicos. A preocupação de Young estava na política e na crítica da definição de pouquíssimos critérios como meios de ascensão nela.

 

Acredito que você afirmará consigo mesmo: “mas esse era o significado lá em mil novecentos e bolinhas, hoje o significado é outro”. Concordo contigo. Por isso, eu gostaria de ir além e testar a validade da ideia de que as pessoas progridem econômica e socialmente por conta unicamente de suas habilidades e capacidades. Para tal, vou mobilizar dados de diversas fontes de informação e recorrer a diversos anacronismos. Entretanto, acho necessário o esforço para tentar problematizar a ideia de que uma pessoa é a única senhora de sua vida. Bem, vamos lá.

Segundo os dados do Population Research Bureau apresentados em março de 2018[3], que tomam os anos de 50.000 a.C. e 2017 d.C. como limites temporais, 108 470 690 115 pessoas haviam nascido na Terra até 2017. Isso mesmo, mais de 108 bilhões de pessoas nasceram em nosso planeta nos últimos 52 mil anos! Ora, será que todas essas pessoas tiveram condições de ter sucesso na vida e que só uma parte delas realmente conseguiu? Claro que não! Em primeiro lugar, porque seria preciso que você sobrevivesse aos seus primeiros dias neste planeta “arredio”. Segundo informações apresentadas pelo site da Organização das Nações Unidas, 2,6 milhões de recém-nascidos não sobrevivem ao seu primeiro mês de vida[4] no mundo contemporâneo. Se você nascer no Paquistão, sua chance de morrer como recém-nascido é uma em vinte e duas, já se você nascer no Japão é uma em mil cento e onze. Isso imaginando o mundo contemporâneo, em que existe a ideia de pré-natal, hospitais, obstetras etc. Não é mérito seu ter nascido onde e quando você nasceu!

 

Claro que ainda tem outras questões muito importantes. Imagine que você fosse um bebê judeu nascendo no território dominado pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial (estima-se que pelo menos 6 milhões de judeus foram mortos durante o conflito). Outra possibilidade seria você ter nascido no meio de um grande surto de alguma doença infecciosa, como a Peste Negra, que matou aproximadamente 25 milhões de pessoas (mais ou menos um terço da população europeia do século XIV)[5], ou a Gripe Espanhola, responsável pela morte de mais ou menos 50 milhões de pessoas[6]. As possibilidades de prosperar na vida ficariam bem reduzidas, não?

Apesar de existirem possibilidades de você não sobreviver nem aos primeiros dias de vida, vamos imaginar que você tenha vencido os duros primeiros anos de vida. Você bem poderia crescer em um grupo de caçadores e coletores que só comem quando encontram comida. Como você é muito pequeno, provavelmente dependeria daquilo que outros membros do grupo fornecessem. Muito meritocrático, não? Ou, por outro lado, você poderia crescer em uma cidade como Manchester da Revolução Industrial, em que crianças eram utilizadas para fazer a manutenção de máquinas em funcionamento. Aí sim, você dependeria de seu mérito para não perder um membro do seu corpo aos seis ou sete anos de vida. Existe também a “opção” de ser uma criança muçulmana durante a invasão dos cruzados sobre Jerusalém em 1099. Bem, é melhor não ir muito longe nesse caso, então pensemos na chance de você crescer no Iêmen dos dias contemporâneos, em que 60% dos habitantes sofrem com a fome severa[7] (no Brasil 2,5% da população passam fome[8]).

 

Claro que eu não poderia deixar de te lembrar de outras possibilidades horrendas. Suponha que você fosse um jovem de uma tribo germânica derrotada pelos romanos, ótimo, suas chances de se tornar um prisioneiro e depois um escravo eram enormes. Se fosse mulher, bem que poderia ser uma moça indígena crescendo dentro da civilização asteca ou inca no século XVI, quando da chegada e consequente conquista por parte dos espanhóis. Claro que além de escravizada, a opção de ser estuprada e contaminada com uma série de doenças (que seu sistema imunológico não estava nem perto de suportar) era bem alta.

 

Para ficarmos com um exemplo mais próximo geograficamente, você poderia ser uma índia na América Portuguesa do século XVII, quando grupos de bandeirantes adentravam o sertão em busca de metais preciosos, indígenas para apresar e quilombos para desbaratar. Imagine as desgraças que não pesariam sobre você, quando centenas de homens armados invadissem sua tribo. Claro, os infortúnios não pesavam somente sobre as mulheres indígenas, e posso citar projeções que mostram que entre 1500 e 2010, a população de índios no território brasileiro foi reduzida de 3 milhões para 818 mil indivíduos[9].

 

É evidente que não podemos esquecer a possibilidade de você por acaso ser um iorubá ou um “angolano” levado ao continente americano como escravo. Segundo estimativas, isso ocorreu com mais de 12 milhões de pessoas e o Brasil recebeu mais de cinco milhões desses indivíduos[10]. Sua expectativa de vida seria de 19 anos no Brasil do século XIX. Isso mesmo, 19 anos. Você poderia dar sorte e ser um escravo nos Estados Unidos, lá sua expectativa de vida subiria para 35 anos[11]. Se você fosse do sexo feminino e por acaso caísse em mãos de compradores em Portugal, seu valor seria mais alto porque seria comprada para serviço doméstico, uso sexual e também para fins de reprodução[12]. Isso mesmo, você poderia ser uma escrava doméstica, objeto de divertimento sexual do seu senhor e reprodutora de escravos. “Credo”, mas as mulheres do século XXI estão livres dessas amarras, correto?

 

Lembro-me que hoje ainda existe a recorrente obrigação de meninas se casarem, coisa muito antiga e que persiste no mundo contemporâneo. Segundo dados da Unicef, 15 milhões de meninas se casam todos os anos antes de completar 18 anos[13]. Consegue imaginar o sucesso que uma menina no Níger pode na vida depois de se casar e começar a procriar? Além do casamento forçado, é preciso recordar também de outras práticas, como a famigerada circuncisão feminina. Segundo dados da ONU, cerca de 200 milhões de mulheres vivem mutiladas genitalmente no mundo contemporâneo[14]. O mais perverso é que essas mutilações acontecem na infância. Nem preciso dizer que geralmente as sociedades que mutilam meninas e as obrigam a casar na infância são coincidentes em muitos casos. Mas por que essas meninas não vão estudar e saem dessa condição? Pergunte à Malala, a menina que levou um tiro na cabeça porque queria estudar[15].

 

Chegando à vida adulta, isso claro, depois que passou a existir a ideia de separação entre infância, adolescência e vida adulta, as chances de você enfrentar situações desafiadoras não seriam menores. Além das várias possibilidades já elencadas, você poderia ser um homem adulto vivendo na França revolucionária quando o alistamento obrigatório foi estabelecido e fosse obrigado a lutar no front contra soldados treinados. Você poderia viver em Ruanda no ano de 1994, quando teve início o genocídio que matou 800 mil pessoas[16]. Se você fosse um homem tutsi, sua chance de morrer era gigantesca, se você fosse uma mulher tutsi, além da morte, havia a chance de você se tornar uma escrava sexual antes de sua execução. Claro, o “cardápio” de genocídios é interminável: o armênio na Primeira Guerra Mundial, o congolês durante a dominação belga, o bósnio nos anos 1990 ou ainda outros já lembrados anteriormente, como o Holocausto. A possibilidade de morrer em guerras também é alta e abrange de guerras antigas (como as Guerras Greco-Persas e Púnicas) até conflitos contemporâneos (como os da Síria e no Iêmen).

 

Acho que depois desses poucos exemplos, pude pelo menos te dar uma ideia de como a história humana no ensina que somos determinados por uma série de fatores. Existem fatores históricos que determinam até mesmo a nossa morte antes que tenhamos condições de fazer qualquer coisa para evitá-la. É só imaginar as crianças espartanas “descartadas” por conta de “defeitos” físicos. Pensar em coisas como meritocracia e a consequente vitória do mais “capacitado” é muito complicado e me parece muito conveniente pensar assim quando você preenche os requisitos exigidos para prosperar em sua sociedade. O problema é que certos contextos em que algumas pessoas vivem é tão adverso que as chances de prosperar são mínimas. Eu conheço exemplos históricos diversos, mas podemos citar casos do Brasil contemporâneo em que eu e você vivemos para encerrar nossa conversa. Em uma sociedade como a nossa, que desvaloriza o trabalho braçal e valoriza o trabalho dos letrados (um juiz do STF ganhará 39 vezes o valor de um salário mínimo no próximo ano), existiam 11,8 milhões de analfabetos no final de 2017[17]. De que forma esses 11,8 milhões de pessoas concorrerão por oportunidades do mesmo jeito que eu e/ou você?

 

Questionar o discurso meritocrático é possuir o mínimo de humildade para conhecer a história humana. Eu e você só temos condições de conversar por meio deste site porque um número muito grande de pessoas se esforçaram para desenvolver a energia elétrica, os computadores, a Internet, o alfabeto, a educação formal (escola) etc. E mais, tivemos acesso a essas coisas que existem, já que tivemos chance de ir para a escola, comprar um computador e ter acesso à Internet. Claro que tudo isso que eu disse não significa que eu e você não tenhamos os nossos méritos. Afinal, em um mundo extremamente competitivo, somos obrigados a disputar espaço em variados ambientes, do mercado de trabalho à vida amorosa. A questão é que recebemos um mundo já pronto quando entramos nele e achar que você merece tudo por seus méritos é tão perigoso quanto pensar que certas pessoas que passam fome e frio merecem isso porque não têm as habilidades necessárias para sobreviver.

 

[1] https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/11/06/O-livro-que-criou-o-termo-%E2%80%98meritocracia%E2%80%99-%C3%A9-uma-distopia. Acesso em: 15 de novembro de 2018.

 

[2] https://www.theguardian.com/politics/2001/jun/29/comment. Acesso em: 15 de novembro de 2018.

 

[3] Não sou inocente de pensar que os dados são precisos e os próprios pesquisadores responsáveis pelo estudo apontam algumas deficiências da ideia de calcular os números totais da população humana durante toda a história. Contudo, essa tentativa é única pela sua pretensão. Os resultados da pesquisa podem ser visualizados no site do PRB. https://www.prb.org/howmanypeoplehaveeverlivedonearth/. Acesso em: 15 de novembro de 2018.

 

[4] https://news.un.org/en/story/2018/02/1003102. Acesso em: 15 de novembro de 2018.

 

[5] https://www.bbc.com/portuguese/geral-42697733. Acesso em: 15 de novembro de 2018.

 

[6] https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/10/141013_gripe_espanhola_licoes_ebola_fd. Acesso em: 15 de novembro de 2018.

 

[7] http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2018-01/em-8-paises-um-quarto-da-populacao-passa-fome-diz-onu. Acesso em: 15 de novembro de 2018.

 

[8] https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2018/09/11/no-brasil-fome-se-estabiliza-e-22-da-populacao-e-obesa-segundo-fao.ghtml. Acesso em: 15 de novembro de 2018.

 

[9] http://www.funai.gov.br/index.php/indios-no-brasil/quem-sao. Acesso em: 15 de novembro de 2018.

 

[10] http://www.slavevoyages.org/assessment/estimates. Acesso em: 15 de novembro de 2018.

 

[11] http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-33002008000100006. Acesso em: 15 de novembro de 2018.

 

[12] https://www.sabado.pt/vida/detalhe/os-senhores-vendiam-os-filhos-que-tinham-com-as-escravas. Acesso em 15 de novembro de 2018.

 

[13] https://g1.globo.com/mundo/noticia/casamento-infantil-atinge-20-mil-meninas-por-dia.ghtml. Acesso em 15 de novembro de 2018.

 

[14] https://oglobo.globo.com/sociedade/mutilacao-genital-afeta-200-milhoes-de-mulheres-no-mundo-diz-onu-22370603. Acesso em: 15 de novembro de 2018.

 

[15] https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2018/07/06/quem-e-malala-a-paquistanesa-que-tomou-um-tiro-porque-queria-estudar-e-agora-viaja-o-mundo.htm. Acesso em: 15 de novembro de 2018.

 

[16] https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/04/140407_ruanda_genocidio_ms. Acesso em: 15 de novembro de 2018.

 

[17] https://www.valor.com.br/brasil/5234641/ibge-brasil-tem-118-milhoes-de-analfabetos-metade-esta-no-nordeste. Acesso em: 15 de novembro de 2018.

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