A tela, o vício e os lobos

Por Johnny Taliateli

02 de Nov de 2018

Vivemos a era do imediatismo, se essa afirmação já estava presente no cotidiano das pessoas até pouco tempo atrás graças ao fenômeno midiático, o que dizer agora de uma realidade em que qualquer pessoa tem disponível para si uma tela particular, que cabe na palma da mão?

 

Historiadores do tempo presente, caso do francês François Dosse, abordaram o efeito dado ao acontecimento por parte da grande mídia, que sempre deu um toque particular para aquilo que endossa um caráter excepcional. O telespectador assiste em sua TV o acontecimento em curso, juntamente à própria narrativa midiática que tenta decifrar o que se passa, em grande parte das vezes, com sentido dramático. Enquanto o historiador, mesmo o do tempo presente, toma um certo distanciamento temporal do objeto que analisa, o tempo real e imediato das mídias muda o ritmo de abordagem. É o fenômeno explicado na hora, e essa explicação, por sua vez, justamente por conta desse imediatismo, vem imbuída de uma grande carga de sentido por não considerar um processo anterior, o contexto, e focar mais especificamente no caráter disruptivo do acontecimento[1].

 

O grande exemplo pode ser extraído de um trabalho de Carol Gluck sobre o 11 de Setembro, no qual tenta mostrar como o acontecimento foi considerado no trâmite entre aquilo que era dito e mostrado na tela para os telespectadores. Não demorou para surgir uma narrativa heroica que reagia ao temor coletivo, fazia analogia com Pearl Harbor e sugeria que a América iria reagir e triunfar contra o Mal[2].

 

Vivemos um tempo de aceleração, em que tudo é muito rápido! Quiçá, esse imediatismo da informação. Essa velocidade com que a informação é jogada ao grande público afeta a percepção dos sentidos, justamente porque seu caráter imediato não considera todo um processo anterior. Se a porta-voz até pouco tempo atrás da informação dada na hora era a grande mídia, acontecia na tela da TV, podemos dizer que o papel se transferiu para algumas redes sociais, o que já não é segredo para ninguém. Existem agora vários estudos de especialistas em saúde mental que tentam dar conta desse novo quadro em que há um uso patológico dessas tecnologias, que evidenciam a dependência de redes virtuais[3]. Se há alguns anos era um problema que afetava, sobretudo, jovens, é possível notar que essa dependência se alastrou e afeta bastante também as pessoas mais velhas.

 

O modelo de negócio de redes sociais como o Facebook é esse, fazer com que as pessoas fiquem mais tempo conectadas. Por isso, mudam frequentemente seus algoritmos a partir da análise de dados dos seus usuários. O problema disso tudo? Os lobos!

Como veio à tona recentemente, uma alcateia estava de prontidão para fazer uso das inúmeras novas possibilidades do mundo digital. Por que não usar os dados de milhões de pessoas para influenciar seus comportamentos e vencer uma eleição? Segundo matéria do New York Times[4], noticiada em outros importantes veículos de imprensa, como o The Guardian[5], foi o que aconteceu nos EUA. A empresa Cambridge Analytica pertencente ao bilionário Robert Mercer e liderada pelo principal conselheiro de Trump à época das eleições, Steve Bannon, coletou informações privadas de milhões de perfis do Facebook. Isso permitiu que a Cambridge Analytica pudesse traçar o perfil desses eleitores de forma a direcioná-los para anúncios políticos personalizados e, claro, abusar das chamadas “fake news”. Os detalhes coletados incluíam a identidade dos usuários, redes de amigos e até curtidas. A empresa funcionava como uma consultoria política que combinava mineração de dados, intermediação e análise dos mesmos em conjunto com uma comunicação estratégica.

 

Na Grã-Bretanha, a Cambridge Analytica também tem sido investigada sob alegações de que fez trabalhos ilegais sobre o “Brexit”.

 

O escândalo foi tão sério que o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, foi chamado a depor no Senado americano em abril deste ano. Ele se desculpou por várias vezes ao longo do depoimento e prometeu fazer mais para proteger os dados dos usuários. Em relação ao Brasil, logo no início do ano, o CEO do Facebook prometeu combater as “fake news” no país, principalmente, por conta da chegada do período eleitoral. Um dos exemplos negativos elencados foi o da eleição presidencial dos EUA, em que uma avalanche de notícias falsas fora utilizada para influenciar o resultado do pleito. Uma das estratégias foi a de fazer uso do bombardeamento de notícias falsas para radicalizar mais a população.

 

As eleições presidenciais aqui no Brasil chegaram ao fim, o Facebook parece ter realmente tentado combater a desinformação, uma série de perfis foram excluídos da rede. O problema é de um lado a velocidade com a qual uma informação falsa se propaga por conta do compartilhamento e, por outro, a formação de grandes grupos públicos no Whatsapp que, pelo próprio lado técnico do app, por ter um sistema de criptografia, não permite uma intervenção efetiva para o combate da desinformação.

 

Estamos em um dos países que mais usam o app de mensagens no mundo. Isso fez com que algumas empresas procurassem a campanha de candidatos com uma lista de nomes e números de celulares obtidos pelas próprias agências para efetuarem disparos de mensagens em massa[6]. Além da prestação de serviço por parte de agências, existem programas capazes de coletar os números de telefone de milhares no Facebook, como revela reportagem da BBC. Os números são assim usados para criar grupos que recebem mensagens enviadas automaticamente. É um tipo de ferramenta facilmente encontrada na internet[7].

 

Com o app Whatsapp as pessoas agora podem usar e abusar do imediatismo para falar umas com as outras, tela a tela, sem precisar fazer uma discagem e sem nenhum problema com a distância entre elas. O grau de dependência dos brasileiros hoje em relação ao app é evidente, tanto que as operadoras de rede celular oferecem planos nos quais os pacotes incluem o Whatsapp ilimitado. Dentro desse território “sem lei” onde as pessoas compartilham desinformação, pornografia, mas também informação, música, negócios, novas tribos virtuais são formadas. Cadeias de correntes para compartilhar informação/desinformação são constantemente formadas. Logo, aquele problema no grupo de família com alguma notícia falsa de um parente seu comprando briga, veio de algum lugar, mas de onde? Fazer esse mapeamento no aplicativo não é possível e por isso, ele se tornou uma ferramenta ideal para potencializar a aversão das pessoas a algumas coisas.

 

O Whatsapp influenciou essas eleições? Claro que sim! Houve nessas últimas eleições uma máquina de produção de notícias falsas e “junk news” que operou a todo o vapor. Notícias de cunho altamente polarizador e que tinham o claro intuito de confundir. Quem não recebeu alguma notícia falsa? Quem não tem aquele parente que lhe veio com uma informação totalmente descabida tirada de um meme recebido no Whatsapp? Este que vos escreve implorava para que as pessoas checassem as informações recebidas. Várias delas já estavam “inalcançáveis”, chegavam até a acreditar numa “notícia” absurda de uma tal mamadeira erótica sendo distribuída em escolas.

 

Mas essa é a nova era, cada um tem sua tela. É através dela que a maior parte das pessoas agora se informam. Os lobos estavam atentos à ferramenta do momento. Pegaram um público inebriado com essa tecnologia e potencializaram o sentimento de revolta para fins políticos muito claros.

 

[1] DOSSE, François. Renascimento do acontecimento: um desafio para o historiador: entre Esfinge e Fênix. Tradução: Constancia Morel. São Paulo: Editora Unesp, 2013.

[2] GLUCK, Carol. 11 septembre. Guerre et télévision au XXI siècle. Annales HSS, n. 1, janeiro-fevereiro de 2003. Disponível em: https://www.cairn.info/revue-annales-2003-1-page-135.htm.

[3] Cf. http://www.unifesp.br/eventos-anteriores/item/2208-jovens-desenvolvem-dependencia-de-redes-virtuais

[4] Disponível em: https://www.nytimes.com/2018/03/17/us/politics/cambridge-analytica-trump-campaign.html

[5] Disponível em: https://www.theguardian.com/news/2018/mar/17/cambridge-analytica-facebook-influence-us-election

[6] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/documento-confirma-oferta-ilegal-de-mensagens-por-whatsapp-na-eleicao.shtml

[7] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45910249

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