Vindos do inferno? A ameaça mongol na Idade Média

Por Johnny Taliateli

21 de Nov de 2018

Caos. Um reino devastado! Vindos do inferno? Ao menos metaforicamente na representação que alguns papas fizeram deles. Tanto Gregório IX, quanto Inocêncio IV chamaram os mongóis de tártaros e Tártaro é o conhecido inferno da mitologia grega. Demonizavam assim, esses “novos” inimigos dos cristãos que irrompiam as fronteiras orientais da Europa. E o reino devastado? A Hungria foi arrasada entre 1241-42 e o exército do rei Bela IV foi completamente derrotado na Batalha de Mohi.

 

Existe uma fonte muito peculiar sobre a devastação do reino húngaro, chama-se Lamento Doloroso, escrito pelo bispo de Várad, Mestre Roger. Peculiar porque o autor não fez uma descrição dos mongóis ou se preocupou com a história desse povo, mas simplesmente descreveu a invasão. O documento narrava dessa forma, as suas memórias. O bispo se preocupou em descrever algumas táticas de guerra do inimigo, por exemplo, contava que os mongóis fizeram fantoches e colocaram em cavalos com o objetivo de assustar os cristãos, que viam um número muito maior de soldados em campo do que efetivamente existia. Na principal batalha, a de Mohi, os inimigos tinham encontrado o selo do rei Bela. Mestre Roger relata como ele foi usado pelos mongóis que tinham escrito cartas falsas certificadas pelo selo, confundindo os húngaros e fazendo com que os cristãos não pudessem organizar bem a resistência. A fonte é única por funcionar como testemunho e pelo autor não usar dos estereótipos de outras fontes cristãs ao descrever seus inimigos[1].

 

Derrotado, o rei Bela IV fugiu em direção à fronteira com a Áustria. Tentou ali obter alguma ajuda, mas não teve sucesso. Enviou uma missão encabeçada pelo bispo de Vac ao papa Gregório IX. No entanto, a Igreja enfrentava uma série de problemas, em várias frentes, entre eles: no nordeste da Europa, suecos e os cavaleiros Teutônicos estavam respondendo a um apelo do papa de 1237 para empreenderem uma cruzada contra os russos ortodoxos; as forças cristãs sob o comando de Teobaldo de Navarra estavam entrincheiradas na costa Palestina; a Igreja travava séria luta com o imperador Frederico II do Sacro Império Romano Germânico e, Gregório IX, se esforçava desde 1239 para lançar uma cruzada contra seu inimigo político. Mesmo assim, o papa se via agora obrigado a convocar os fiéis para defender os redutos da Cristandade contra um novo inimigo que veio do Leste[2].

 

Em uma série de cartas, prometeu dar assistência ao rei da Hungria, ofereceu aos que tomassem a cruz contra os tártaros as mesmas indulgências que concedia aos que se dirigiam às Cruzadas na Terra Santa. Solicitava que os frades dominicanos e franciscanos o auxiliassem na tarefa de pregação da Cruzada para a defesa dos reinos da Europa Oriental[3]. O papa veio a falecer em 1241 e, devido ao conflito com Frederico II, a Igreja ficou vacante por dois anos, apenas em 1243 foi eleito um novo papa.

 

Durante esse período de ausência de um sumo pontífice, as queixas do reino húngaro não cessaram. Vários clérigos da Hungria, bem como representantes da nobreza, escreviam a Roma queixando-se da falta de apoio da Igreja Mãe[4]. Mas, pouco depois da devastação do reino, os mongóis receberam a notícia da morte do Grande Khan Ogodai. Uma assembleia foi convocada para a eleição do seu sucessor e, como tradição, todos os chefes militares foram chamados de volta. Batu, que tinha chefiado as campanhas no leste europeu regressou às estepes da Ásia em 1242[5].

 

Pouco se tem de antes da invasão

 

Muito mais do que apenas uma confederação de tribos nômades, o Império Mongol se alastrou rapidamente. Como uma de suas principais características, incorporava elementos dos povos conquistados. Segundo o que nos mostra Peter Jackson, dentre os primeiros povos submetidos ao domínio mongol, estavam os Khitai, que chegaram a reinar na Mongólia e na parte norte da China com a dinastia Liao, até serem derrubados pela dinastia Chin em 1125. Os uigures que também já foram senhores de um extenso domínio na estepe alguns séculos antes do advento mongol, tinham se sujeitados ao império Qara Khitai, fundado então por um fugitivo príncipe Liao. Em 1218, os mongóis sob o comando de Gengis Khan, tomaram esse império que reinou sobre grande parte da Ásia Central. O título do governante do império era Gur-khan, o que significava “governante do mundo”. A influência desses povos no império de Gengis Khan foi profunda, principalmente, por possuírem suas próprias tradições imperiais. Gengis Khan tomou emprestado deles suas práticas administrativas, tendo também adotado o alfabeto uigur que foi empregado em sua chancelaria.

 

De acordo com Jackson, existia na Mongólia uma tribo conhecida como tatars, era possível que Gengis Khan fosse de um ramo dela e depois tenha se apropriado do nome étnico Mangol. Autores muçulmanos empregaram o tatars como termo geral para os povos não-turcos da estepe oriental, o que pode explicar a adoção da palavra na Europa, onde o nome foi alterado para fazer um trocadilho com o inferno grego, tornando-se “tártaros”[6].

 

Desde antes da invasão da Hungria e muito antes da célebre viagem de Marco Polo, já existiam mercadores e outros ocidentais que viveram e trabalharam entre os mongóis. Estes contatos foram responsáveis por fornecerem muitas informações valiosas aos embaixadores enviados por príncipes ou depois, pelo próprio papa. Algumas vezes os mercadores são mencionados apenas de passagem em uma informação, em outras ocasiões são listados como testemunhas que podiam atestar a veracidade dos dados no relato escrito, assim como confirmar que o enviado realmente viajou à distante Ásia Central, Mongólia e China. Do mesmo modo que os comerciantes, alguns artesãos e outros cativos também serviram de fonte de informação aos diplomatas.

 

A primeira missão ao Oriente foi feita por quatro frades dominicanos. Nos primeiros anos da década de 1230, sua missão era procurar companheiros magiares (tribos húngaras que permaneceram no Oriente e não migraram para a bacia dos Cárpatos) na Grande Hungria, supostamente na região do Volga e dos montes Urais, para convertê-los ao cristianismo e ao mesmo tempo, aprender mais sobre a ameaça emergente que se reunia na estepe russa do Sul. Frei Ricardo conta que passaram três anos na primeira viagem e não tiveram sucesso, com exceção de um sacerdote chamado Otto que viajou disfarçado como um mercador. Ele reconheceu outros húngaros na viagem por sua fala e descobriu onde viviam. Voltou para a Hungria e depois de explicar a rota que tinha feito, morreu devido às dificuldades que enfrentou em sua viagem[7].

 

O príncipe Bela da Hungria patrocinou o segundo empreendimento, antes de ser coroado rei em setembro de 1235. Um frade chamado Juliano recebeu um mensageiro dos mongóis na região da Grande Hungria informando que eles tencionavam se lançar contra a Alemanha. Imediatamente, voltou pela rota mais curta viajando a cavalo através da Rússia e da Polônia para anunciar um ataque iminente no Ocidente cristão. Frei Juliano fez uma segunda viagem em 1237 sob ordens de Bela IV, para visitar os Húngaros perto do Volga, mas encontrou as terras destruídas pelos mongóis.

 

Juliano recebeu um ultimato mongol entregue pelo Duque de Suzdal (uma cidade russa). O imperador reclamava que o rei da Hungria nunca se apresentou ou enviara qualquer carta, ou mesmo um embaixador para sua corte. Afirmava que sabia que aquele rei era rico e poderoso, governava um grande reino, mas reforçava que mesmo o monarca sendo detentor de tal poder, sua apresentação era necessária. Ameaçava que o fato de ter castelos e cidades tornava difícil que o húngaro fugisse do exército mongol[8]. O resto da história, você ficou sabendo!

 

O novo papa e os mongóis

 

Inocêncio IV assumiu o pontificado em 1243 e não demorou a abordar o assunto. Em carta ao patriarca da Aquileia, comentava os rumores que escutava sobre os mongóis. Aproveitava para pedir aos fiéis da Alemanha para que apontassem as armas contra os “ministros de satã” chamados tártaros, adicionando um novo elemento à construção daquele inimigo, associando-os ao diabo tal como representado na religião cristã. A remissão dos pecados era mais uma vez oferecida para aqueles que fossem salvar a Hungria.

 

Não causa estranhamento que aquela ameaça ainda muito desconhecida dos europeus, foi uma das pautas discutidas no I Concílio de Lyon de 1245. Na convocação conciliar, na qual o papa expunha os assuntos a serem tratados, dizia que era preciso encontrar remédio contra os tártaros e outros céticos da fé e perseguidores de cristãos[9]. É nesse contexto, na necessidade de aprender mais sobre os inimigos que chegaram às fronteiras latinas, que a opção de Inocêncio IV foi a de enviar um embaixador ao Khanato mongol, com o intuito de conhecê-los e saber de suas intenções. O eleito para a missão foi o frade franciscano João de Pian del Carpine.

 

João viajou entre o império mongol durante um ano e quatro meses com um companheiro de Ordem e intérprete, o Frei Benedito da Polônia. Como fruto desse trabalho, escreveu a Historia Mongalorum, uma obra dividida em nove capítulos, dedicada a retratar algo da história dos mongóis, alguns de seus costumes, além de concentrar uma parte à sugestões de como os europeus deviam se preparar para a guerra em caso de novas invasões. Sabe qual a melhor parte? Essa obra está traduzida para o português[10].

 

É interessante saber que muito antes de Marco Polo, houve outros viajantes que partindo do Ocidente, foram conhecer aqueles povos com costumes diferentes do Oriente. Melhor ainda o fato de terem escrito relatos.

 

Por fim, deixo ao leitor a carta do imperador mongol Guiuc, transcrita no Relatório de Frei Benedito da Polônia. Foi traduzida ao português por Ildefonso Silveira.

 

A força de Deus, imperador de todos os homens, envia ao grande Papa esta carta, autêntica e verdadeira. Aconselhando-me sobre o modo de se estabelecer a paz entre nós e ti, Papa, e todos os cristãos, tu nos enviaste um embaixador conforme ouvimos dele e constava em tuas cartas. Portanto, se quiseres ter paz conosco, tu, Papa, e todos os reis e governantes, não tardes, de modo algum, a vir até nós para estabelecer a paz, e então ouvirás a nossa resposta e ao mesmo tempo conhecerás a nossa vontade.

No texto de tua carta, é dito que nós devemos ser batizados e nos tornar cristãos. A isso te respondemos com poucas palavras, que absolutamente não compreendemos por que deveríamos fazê-lo. Quanto ao outro ponto de que nos falavas na tua carta, isto é, de que te maravilhas de tanta matança de homens, sobretudo cristãos, em particular de poloneses, morávios e húngaros, respondemos do mesmo modo que também não entendemos isso. Todavia, para que não pareça que queremos deixar em silêncio o assunto, dizemos que se deve responder-te do seguinte modo: porque não obedeceram nem à palavra de Deus, nem à ordem de Gengis Khan e, reunindo grande conselho, mataram os embaixadores, por isso Deus ordenou que os aniquilássemos e os entregou em nossas mãos. De resto, se Deus não tivesse feito isso, que coisa teria podido um homem fazer a outro homem? Mas vós, homens do Ocidente, credes que só vós, cristãos, existis e desprezais os outros. Como podem saber a quem Deus concede a sua graça? Nós, porém, adorando a Deus, na força de Deus devastamos toda a terra do Oriente e do Ocidente. E, se essa força de Deus não existisse, que poderiam fazer os homens? Mas, se vós aceitais a paz e quereis entregar a nós vossas forças, tu, Papa, juntamente com os poderosos cristãos, não tardeis, de modo algum, a vir a mim para estabelecer a paz, e então saberemos que quereis paz conosco. Se, porém, não crerdes nesta missiva de Deus e nossa, e não escutardes o conselho de vir até nós, então saberemos com certeza que quereis ter guerra conosco. Depois disso, o que acontecerá não sabemos. Só Deus o sabe. Gengis Khan primeiro imperador, Ogodai segundo e Guiuc Khan, terceiro.

 

Fonte: Crônicas de Viagem: Franciscanos no Extremo Oriente antes de Marco Polo (1245-1330). Tradução e introdução por Ildefonso Silveira e Ary E. Pintarelli. Coleção Pensamento Franciscano, Vol. VII, Porto Alegre/Bragança Paulista, EDUSF/EDIPUCRS, 2005.

 

[1] KÁPOLNÁS, Óliver. Hungarian Sources on the Mongols. In: Journal of Mongolian Studies. The Korean Association for Mongol Studies, vol. 41, n. 5, 2015, pp. 69-88.

[2] JACKSON, Peter. The Crusade Against the Mongols (1241). In: The Journal of Ecclesiastical History, Vol. 42, n. 1, 1991, pp. 1-18.

[3] AUVRAY, Lucien. Les Registres de Grégoire IX: recueil des bulles de ce pape. Paris: Albert Fontemoing Éditeur, 1896-1955, Tomo III.

[4] JACKSON, op. cit.

[5] PALAZZO, Carmen Lícia. Relatos ocidentais sobre os khanatos mongóis: Pian di Carpine e Rubruck (Século XIII). In: Revista Signum, vol. 12, n. 2, 2011, pp. 123-138.

[6] JACKSON, op. cit.

[7] GUZMAN, Gregory G. European clerical envoys to the Mongols: Reports of Western merchants in Eastern Europe and Central Asia, 1231-1255. In: Journal of Medieval History, vol. 22, n. 1, 1996, pp. 53-67.

[8] KÁPOLNÁS, op. cit.

[9] BERGER, Élie. Les Registres d’Innocent IV: recueil des bulles de ce pape. Paris: Fontemoing & Cie Éditeurs, 1884-1921, Tomo I.

[10] JOÃO de Pian del Carpine. História dos Mongóis. Tradução e introdução por Ildefonso Silveira. In: Crônicas de Viagem: Franciscanos no Extremo Oriente antes de Marco Polo (1245-1330). Coleção Pensamento Franciscano, Vol. VII, Porto Alegre/Bragança Paulista, EDUSF/EDIPUCRS, 2005.

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