Editorial

Publicado em 28 de Dezembro de 2018

O Ano Novo

“Adeus ano velho, feliz ano novo!” O ano é uma das tentativas dos seres humanos de domesticar o tempo, como atesta a existência de calendários. Medimos o tempo para controlar o universo em torno de nós. O fazemos desde os nossos ancestrais primitivos, no entanto, não com o mesmo grau de sofisticação alcançado no mundo moderno. A medida do tempo é também um elemento de poder. Basta lembrar como o calendário é utilizado para comemorar heróis e datas que pontuam bem a nossa condição presente. Lembramos certos eventos históricos e esquecemos outros tantos para estabelecer marcos temporais. Por outro lado, o ano é a própria medida do nosso tempo de vida. Quanto mais ele passa, mais nos aproximamos de seu fim, pois temos consciência, devido à própria ordem da natureza, de nossa finitude.

 

A ideia de que o novo ano é período de renovação é um tanto mais antiga, muito mais do que nossa fabricação do calendário. Ela está ligada ao tempo em que nossos ancestrais passaram a lidar com a atividade da agricultura, o que demandou que o ser humano buscasse entender os ritmos cósmicos devido ao próprio ciclo da vida vegetal. Assim, tal como acontece com a colheita, o universo à nossa volta deveria se renovar a cada ano e os mecanismos simbólicos ajudavam a medir esse ciclo. Em analogia à vida vegetal, o ritmo cósmico era concebido como o ciclo entre nascimento, morte e renascimento. A busca por entender as estrelas e a trajetória do sol para dominar as técnicas da agricultura levou nossos ancestrais a divinizar o céu. Esse processo levou o ser humano a se entregar a rituais que marcavam a passagem de um ciclo a outro.

 

O próprio Cristianismo se apropriou dessa ideia cíclica relacionada à agricultura. Cristo teria dito, antecipando sua paixão que “se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto” (Jo, 12:24). Da Páscoa, portanto, define-se os outros tempos litúrgicos e sua função específica: o 1º período do Tempo Comum, destinado ao exercício da fé, seguido do Tempo do Advento, destinado à preparação para o Natal, Tempo de renovação, nascimento e esperança, seguido pelo 2º período do Tempo Comum, e em seguida o da Quaresma, destinado à meditação e preparação para o Tempo da Páscoa (no Catolicismo romano também chamado de Oitavas da Páscoa) que o segue. O Ano Novo, no calendário litúrgico, portanto, é o primeiro domingo do Advento, de modo que a Páscoa ocupe o centro das celebrações eclesiásticas.

 

Claro, assim como tudo que é histórico, a demarcação do ano novo também se dá de forma diferente em diversas culturas. Os mesopotâmicos, primeiros povos a comemorarem a mudança de ano, tinham o início da primavera (no hemisfério norte) como o momento de mudança de ciclo. No mundo islâmico, a mudança de ano segue o calendário lunar, o que faz com que o primeiro dia do ano muçulmano seja sempre diferente. Este ano (2018 no calendário gregoriano), por exemplo, teve início o ano 1440 do calendário islâmico em 12 de setembro (o final do ano será em 31 de agosto de 2019). Os chineses também possuem um tipo de calendário que tem o seu início sempre alterado (estamos no ano 4716 do calendário chinês).

 

Se ficarmos apenas no que hoje chamamos Ocidente, a data do ano novo também se alterou. A definição de janeiro como marco do início de um ano se deu somente em 153 a.C.(ano do consulado de Tito Ânio Lusco e Quinto Fúlvio Nobilior)  em Roma, por conta da necessidade de dar posse ao cônsules e de se arregimentar exércitos para lutar contra os celtíberos. O calendário juliano, posto em vigor no ano de 46 a.C. (ano do consulado de Júlio César e Lépido), consolidou a nova tendência de se comemorar a passagem de ano em primeiro de janeiro e não nas calendas de Março. O calendário juliano foi adotado em várias regiões da Europa até o século XVI e nos países cristãos ortodoxos vigorou até o século XX. A título de exemplo, a Revolução Russa de Outubro de 1917 ocorreu em outubro segundo o calendário juliano, já que no calendário gregoriano ela teria acontecido em novembro. A grande mudança ocidental do calendário se deu com a introdução do Calendário Gregoriano em 1582, que foi paulatinamente adotado por boa parte da Europa e pelas regiões colonizadas por ela. Esse é o modelo adotado até hoje nos países ocidentais com raros momentos de exceção, como aquele do calendário instituído durante o período republicano da Revolução Francesa no final do século XVIII.

 

Para além da separação em anos e meses, é possível observar a questão da construção simbólica da organização do tempo em unidades menores e que tratam da regulação das ações cotidianas dos seres humanos. Comemora-se a chegada da sexta-feira (ainda que a pessoa trabalhe sábado de manhã) e a noite do domingo (no momento em que a música de abertura do Fantástico começa, ou se ouve o sonoro “Olá, tudo bem?” do Paulo Henrique Amorim), em geral, carrega em si uma ideia de “segunda-feira precoce”. O domingo, entretanto, é o primeiro dia da semana. Dia que aparece em vermelho nas “folhinhas” e reservado ao Senhor, pelo menos para o mundo influenciado pela cultura cristã ocidental. Domingo de missa, é o principal dia do exercício da espiritualidade cristã, mesmo depois da criação das religiões protestantes (à exceção de determinados grupos religiosos específicos) no século XVI.

 

A transformação do domingo neste dia especial ocorreu no Concílio de Niceia de 325 d.C., que também fixou a solenidade da Páscoa na primeira lua cheia da primavera (no hemisfério Norte, que ocorre em 21 de março). Esse evento, a Páscoa, superou o descanso divino depois da criação (Gn, 2:1-3). O sábado foi o dia criado para o descanso, mas foi substituído pelo domingo, reservado à contemplação e ao culto à divindade. O ciclo semanal que se encerra no sábado é focado no domingo e é uma representação da própria vida de Cristo. A quintessência da Páscoa demonstra a maior preocupação no imaginário cristão, focado no tríduo: vida-paixão-ressurreição (que também eram os mistérios do Santo Rosário até a inserção feita por João Paulo II: gozosos, dolorosos, gloriosos).

 

Enfim, apesar de acharmos que nós, os homens e mulheres do século XXI, estamos apartados da natureza e das velhas tradições, quando olhamos a própria organização do tempo, percebemos que estamos diante de uma construção que mistura várias camadas da história humana. Nosso calendário é linear e parte do nascimento de Jesus Cristo como marco inicial (ano 1 d.C.), no entanto, os dias, semanas, meses e estações do ano são regidos por eventos cósmicos cíclicos: movimentos de rotação e translação, fases da lua etc. Ora, em último grau, somos uma mistura daquilo que há de mais primitivo e de mais “civilizado”. Somos ogros que falam, escrevem, inventam coisas, mas que dependem daquilo que a natureza ao redor pode nos oferecer. Feliz Ano Novo!

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