As Avós da Praça de Maio:
memórias de um pesadelo latino-americano

Neide Célia Ferreira Barros

30 de Ago de 2021

Dia 30 de agosto é uma data internacional resguardada para se rememorar as vítimas de desaparecimentos forçados. E é impossível ser historiadora e não lembrar imediatamente das vítimas da Ditadura Civil Militar brasileira. Porém, no dia de hoje quero pensar em outra perspectiva, mas que de certa forma também compõe uma ponta desta nossa tragédia latino-americana. Quero falar das crianças desaparecidas da Ditadura Argentina e a luta incessante de suas avós para recuperá-las.

Um ditado brasileiro afirma que “avó é mãe com açúcar” por este parentesco remeter comumente a carinho, cuidado e memórias extremamente afetuosas. Mas assim como amor, a palavra “avó” nos lembra também de mulheres na terceira idade e nos faz pensar sobre limitações físicas e fragilidade típicas desta fase da vida. Talvez por isso este título de “Avós” para militantes dos Direitos Humanos nos chame tanto atenção e nos sensibilize de imediato. Afinal, quem são as “Avós da Praça de Maio” e o que elas nos contam sobre a violência de Estado?

Ao longo da sua história republicana a Argentina, assim como o Brasil, sofreu inúmeros golpes em sua democracia. Nos anos 1960, em meio ao contexto da Guerra Fria, esses golpes se tornaram ainda mais frequentes e intensos. Podemos pensar nessa década através de dois períodos ditatoriais principais que se mantiveram no poder por períodos extensos. O primeiro de 1966 até 1973 e o segundo de 1976 até 1983. No meio desses períodos houve três anos de governo constitucional (1973-1976) sob o comando de Juan Domingo Perón e sua esposa Maria Estela (Isabelita) Perón, deposta em 1976 pelas forças conservadoras do país.

Desde o começo da década de 1960 já havia sequestros e desaparecimentos de pessoas consideradas inimigas políticas do regime, e nem mesmo durante o curto governo democrático esses crimes cessaram, pois continuavam sendo cometidos clandestinamente pela ultradireita – como, por exemplo, a Aliança Anticomunista Argentina – no intuito de refrear ideais considerados por eles como perigosos ao país.  Após a retomada do regime ditatorial em 1976 esses raptos se intensificaram. Pessoas passaram a ser abordadas e presas em seus trabalhos, residências e até mesmo no meio da rua, na frente da população civil. Após presas, eram levadas a centros de torturas, chamados pela pesquisadora Pilar Calveira como “campos de concentração”.

Adriana de Paula nos lembra que o objetivo desse projeto de desaparecimento de inimigos políticos era fazer uma limpeza social eliminando o pensamento destoante do regime implantado e assim “eliminar os ‘irrecuperáveis’” (2014, p. 19-20) através da repressão, que significava inicialmente a tortura e, posteriormente, o assassinato. Havia no país pelo menos 340 centros de repressão especializados em violar cidadãos considerados inadequados ao governo. Neles, o preso passava a ser torturado e identificado apenas por um número, o que dificultava a busca dos familiares que iam à procura do ente aprisionado.

Diante do avanço da violência institucional e da falta de possibilidades de resgate dos desaparecidos, organizações civis de interessados passaram a criar corpos de resistência. Ainda em 1976 formou-se o “Grupo de Familiares de Desaparecidos e Presos por Razões Políticas”, que tinha como fim criar mecanismos para localizar e tentar libertar os parentes aprisionados.  Porém, apesar de objetivos em comum, havia discordâncias entre os envolvidos sobre os métodos e as ações a serem adotadas e isso causou rachas dentro da associação. E desses dissidentes surgiu um grupo específico de mães que deu origem à “Abuelas de la plaza de Mayo”.

A ligação com a praça veio de uma ideia de Azucena Villaflor Di Vicentine, que sugeriu que mães de desaparecidos se reunissem em protestos na Praça de Maio, principal praça do centro de Buenos Aires, e lá clamassem por respostas do paradeiro de seus filhos e filhas.

Na primeira reunião, em abril de 1977, apenas 14 mulheres compareceram. Porém, Azucena não desistiu e reelaborou sua estratégia de divulgação, que conseguiu atingir maior eficácia e em poucos meses tornou o movimento maior e as reuniões na praça frequentes. À medida que o movimento crescia, passou a chamar a atenção dos transeuntes habituais do centro da cidade e começou também a incomodar as autoridades, que naquele contexto de exceção, proibiam qualquer tipo de reunião que contestasse o governo. Para disfarçar suas reuniões, as mães fingiam passear e circulavam pelo centro da praça, ritual que é repetido até os dias de hoje nos encontros.

“Falar dos filhos, tentar reconstituir o momento do desaparecimento e descrever os caminhos por onde elas passaram na busca de informações compunham os fragmentos semelhantes das histórias contadas por essas mulheres. Era por meio desses pontos em comum que a solidariedade e a integração grupal foram sendo traçadas. Apesar das diferenças de personalidade, profissões e origens, ser mãe e ter um filho desaparecido criaram o elo entre elas e deram uma identidade única ao grupo” (DE PAULA, 2014, p. 54).

 

No desenrolar desses encontros percebeu-se que elas não tinham perdido apenas parentes adultos, mas muitos de suas filhas e noras estavam grávidas ao serem presas, ou tinham bebês e crianças muito pequenas em sua companhia no momento da prisão. Logo notou-se que, além da perda de filhos e filhas, havia um grande número de netos apreendidos pelo governo ditatorial. Desde então essas mulheres passaram a lutar pelo direito de saber o que aconteceu a seus filhos e filhas, enterrar seus mortos, muitas vezes escondidos em covas clandestinas e, o mais importante, resgatar seus netos que nasceram em cativeiro e foram entregues a outras famílias. Daí o nome que as tornou famosas em todo o mundo: Avós. 

 

Para entender melhor esse contexto precisamos lembrar que muitas das mulheres presas pela ditadura estavam grávidas ou tinham filhos muito pequenos, e essas crianças foram retirados de seus pais biológicos – mortos pelo Estado ditatorial – e dadas à adoção. Muitas vezes eram entregues a importantes políticos e pessoas consideradas “aliadas” do regime estabelecido, pois se tinha o objetivo de criar uma geração longe dos valores comunistas, que passava também pelo apagamento da identidade e da memória daquelas crianças, filhas de subversivos.

Em entrevista ao jornal El País, em 2017, a presidenta do “Abuelas”, Rosa Tarlovsky, lembrou que no começo era difícil estabelecer um número preciso de crianças desaparecidas, pois não se sabia se as gravidezes das militantes presas tinham chegado ao fim devido à tortura ou se a criança tinha sobrevivido nos campos de concentração. Porém, com o fim da ditadura em 1983 e com o auxílio de comissões de apuração dos crimes do período, conseguiu-se chegar a um número mais preciso. Foram cerca de 500 crianças roubadas e entregues a outras famílias, algumas conscientes do contexto, outras não.

Vale lembrar também que muitas das avós foram perseguidas e até mesmo presas, porém, isso não as intimidou ou refreou o movimento que sobreviveu para além da Ditadura e este ano completou 45 anos.  

Das crianças sequestradas, 130 voltaram ao convívio da família biológica e tiveram suas identidades reestabelecidas. O último, Javier Mijalchuk, tem atualmente 42 anos e soube que foi sequestrado aos 4 meses de idade da casa de sua mãe, uma universitária militante que foi morta nos porões da ditadura.

Atualmente, as avós contam com um banco genético que armazena o DNA de todas e que permanecerá ativo até 2050, no intuito de que sejam reestabelecidos laços familiares e identidades mesmo após suas mortes e de seus netos, numa busca de garantir a memória roubada de sua descendência.

Estima-se que alguns netos foram localizados, mas após tantos anos se recusaram a colaborar e se reintegrar em suas famílias biológicas, uma vez que isso implicaria em um grande trauma de ruptura com as famílias adotivas – com as quais cresceram – podendo imputar inclusive questões criminais sobre esses pais de criação.

Hoje nesta data, que pede uma reflexão sobre a violência institucional, celebramos a coragem e a luta dessas mulheres. Porém, nem por isso deixamos de entender que os danos dessas ações da Ditadura Argentina são irreparáveis e profundamente traumáticos, e ressoam até o presente, mostrando que talvez jamais sejam sanáveis tanto às famílias que perderam seus filhos e netos, tanto a esses netos que tiveram suas identidades roubadas ou fragmentadas para sempre. Isso nos mostra que são imensos e múltiplos os perigos e as violências de um Estado ditatorial, que toca desde questões físicas até esferas psicológicas e simbólicas que não se pode mensurar.

Referências

CALVEIRO, Pilar.  Poder e desaparecimento: os campos de concentração da Argentina. São Paulo: Boitempo, 2013.

DE PAULA, Adriana. Pensar a democracia: o movimento feminino pela anistia e as Mães da Praça de Maio (1977-1985). 

Disponível aqui

 

Filmes

A História Oficial (1985) – Disponível na Netflix.

500 – Os Bebês roubados pela ditadura – Disponível no Videocamp. 

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