As universidades e os universitários: a “perseguição ideológica” e o falso moralismo privatizador

Por Hugo Rincon

04 de Nov de 2018

"Estudante está na universidade só para fumar maconha e fazer suruba", afirmação do astrólogo Olavo de Carvalho em entrevista recente, guru intelectual da direita brasileira e do presidente eleito Jair Bolsonaro[1]. Já são quase dez anos que frequento a universidade, não como "estudante profissional", nas palavras do Bolsonaro Jr.[2], mas como alguém que optou por seguir a carreira acadêmica, fazendo mestrado e doutorado. Neste período, estudei História por um semestre na Universidade Estadual de Goiás - Anápolis (2009), fiz a graduação em História pela PUC Goiás (2010 - 2014), Mestrado pela UFG (2015 - 2017), mesma instituição em que curso atualmente o doutorado (2017 - ). Durante todos estes anos no mundo acadêmico, obviamente já presenciei colegas utilizando entorpecentes, participando de festas e demais eventos de lazer, mas que estão mais conectadas a fase de suas vidas, a juventude e início da vida adulta do que uma consequência da vida acadêmica.

 

Como se tem visto, especialmente nos últimos dias e em meio ao processo eleitoral, há um crescente ataque aos meios acadêmicos, especialmente as universidades públicas. Empresários, políticos, membros de instituições religiosas ligadas ao grupo vencedor das eleições, aliadas a bandeira do "escola sem partido", tem insistentemente combatido as universidades, acusando-as de um "antro de comunistas", lugar de doutrinação ideológica e de todas as práticas que atentem contra a moral. Daí, um indivíduo como Olavo de Carvalho, que nunca frequentou nenhuma instituição acadêmica, não tendo concluído o ensino fundamental, dizer que nas universidades brasileiras apenas se faz consumo de drogas e se realiza orgias. A intenção é clara: jogar a população contra o ensino superior público. A estratégia desses grupos é apelar para o campo da moral, visto que a maioria da população brasileira é contra a privatização e a favor da universidade pública gratuita[3].

 

A insistência na temática, é uma tentativa de manipular a opinião pública, principalmente dos segmentos mais religiosos e conservadores, afirmando ao contribuinte que seus impostos estão sendo gastos para alunos fazerem "farras" com recursos públicos, no lugar de produzir conhecimento e ciência. O que não procede, estudos apontam que 99% das pesquisas no país são realizadas pelas universidades, e destas, a maior parte nas instituições públicas, com financiamento governamental[4]. As bolsas de iniciação científica, dos programas de incentivo a docência, de mestrado, doutorado e pós-doutorado concedidas pela CAPES e pelo CNPq são os órgãos que fomentam e garantem a continuidade da produção científica no país. Há interesses obscuros por trás da privatização e o controle do ensino superior, pessoas e grupos de investidores ligados ao presidente eleito controlam grandes corporações e instituições de ensino superior privados, e estariam interessados desde o gerenciamento da universidade pública, a uma maior captação dos recursos públicos para o ensino superior privado[5].

 

É interessante observar a demonização das universidades e universitários no Brasil proferidas por pessoas como Olavo de Carvalho, radicado nos EUA, país em que a maioria das instituições superiores são privadas e as públicas cobram mensalidades que giram em torno de 20.000 dólares por ano. O falso moralismo ao tentar apontar o universitário brasileiro como esse ser desprovido de moral, e como se essas práticas fossem exclusivas do estudante brasileiro são tão absurdas, se considerarmos ainda que neste mesmo país em que vive o acusador, o seu ensino superior é propagado nas produções cinematográficas hollywoodianas, especialmente as do gênero "comédia besteirol", como lugares em que os jovens universitários aproveitam ao máximo a vida, em festas regadas a álcool, drogas e sexo, nas suas repúblicas, fraternidades e dentro dos campi universitários. Quem nunca assistiu American Pie (Universal Pictures, 1999) e similares?

 

A universidade desde o seu surgimento na Idade Média já era um lugar de questionamento da moral, de choque entre o comportamento universitário e dos moradores das cidades que sediavam as instituições, mesmo nascendo em meio ao seio da Igreja Católica. O historiador Jacques Verger em sua obra Cultura, ensino e sociedade no Ocidente[6] relata a expansão universitária pela Europa no século XIII. Em uma das instituições, instalada em uma pequena cidade do sul da França, ao mesmo tempo que os comerciantes se beneficiavam do crescimento econômico ocasionado pela migração de pessoas de outros países da Europa para frequentar a universidade na cidade, os moradores locais pressionavam políticos e governantes locais exigindo a expulsão das instituições e dos estudantes, que para eles, faziam muita bagunça e traziam destruições e a deturpação da moral e dos preceitos religiosos, com as suas bebedeiras e algazarras pela cidade e vilarejos próximos. Na mesma obra o autor narra acontecimentos semelhantes em Bolonha, em Paris, como em outras partes da França e da Itália no Baixo Medievo. A Universidade e toda a semântica carregada neste conceito, que implica universalismo e universalidade, a convivência de pessoas de todos os lugares, identidades, dos mais diversos pensamentos, desde a sua fundação, resulta na formação do pluralismo de ideias, e isso afronta a moral e os dogmas estabelecidos, seja na Idade Média, ou seja no Brasil de 2018.

 

A perseguição à universidade e às práticas dos jovens universitários no Brasil não é uma novidade. Deputada Federal eleita pelo PSL, Professora de Direito da USP e autora do processo de Impeachment da Presidente Dilma, Janaína Pascoal bradava recentemente em seu twitter que nas universidades encara-se com naturalidade o consumo de bebidas nas tais festas open bar. Na década passada a câmara dos vereadores de Goiânia e o então prefeito Iris Rezende, apoiados por grupos evangélicos, tentaram impor uma lei que restringia o consumo de bebidas alcoólicas nas proximidades de instituições educacionais, inclusive de ensino superior. Mais do que um absurdo, se considerarmos que os estudantes já são maiores de idade, e portanto, responsáveis legalmente pelas decisões. O Jornal Opção, acompanhando o movimento, chegou a publicar uma matéria chamando atenção para o fato de alunos da Universidade Federal de Goiás consumir bebidas alcoólicas no Campus. Pasmem! Jovens maiores de idade consumindo álcool! Umas das coisas mais legais que presenciei na minha estadia na cidade de Coimbra (Portugal) no ano passado foi descobrir que na Universidade, uma instituição criada pelo Rei D. Dinis (1279 - 1325) em 1290, pública, e uma das mais tradicionais do mundo, vende-se bebidas alcoólicas nas cantinas dentro dos prédios das faculdades. E parece-me, que ninguém cria maiores problemas por isso. Faz parte do dia-a-dia dos estudantes, dedicarem-se a vida acadêmica, aos estudos, a pesquisa, a produção de ciência e do conhecimento, mas também ao lazer e se divertir nos momentos de folga. Mesmo dentro do espaço acadêmico.

 

Evocar uma falsa moral em interesses obscuros parece ser uma tática do novo governo eleito, além de seus seguidores, financiadores e demais grupos que estão por trás de seus políticos compositores. A história nos mostra que essas táticas não são novas, e foram muitos difundidas ao longo dos tempos. Não deixa de ser preocupante a sua retórica objetivando a destruição da universidade pública em prol de interesses ideológicos e mercadológicos. Nos resta resistir, e nos mostrar, boêmios ou não, como produtores de conhecimento, a quem depende e dá bases ao futuro do país.

 

[1] https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/david-coimbra/noticia/2018/11/audio-estudante-esta-na-universidade-so-pra-fumar-maconha-e-fazer-suruba-diz-olavo-de-carvalho-cjnynhcs10aa801pilh4xrwd1.html

[2] Segundo o deputado Eduardo Bolsonaro, a privatização acabaria com os "estudantes profissionais". https://www.youtube.com/watch?v=5WBZegu5vOE

[3] Não apenas das universidades, mas a maioria dos brasileiros é contra a privatização das estatais: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/12/1945999-sete-em-cada-dez-brasileiros-sao-contra-as-privatizacoes.shtml

[4] https://www.investe.sp.gov.br/noticia/99-das-pesquisas-sao-feitas-pelas-universidades-publicas/

[5] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/10/especialistas-questionam-eficiencia-da-educacao-na-gestao-bolsonaro.shtml

https://oglobo.globo.com/brasil/irma-de-paulo-guedes-defende-migracao-do-ensino-superior-para-pasta-de-ciencia-tecnologia-23204313

[6] VERGER, Jacques. A expansão Universitária no século XIII. In: ______. Cultura, Ensino e Sociedade no Ocidente. Bauru - SP: Edusc, 2001, p. 211-242.

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