Artigo de Opinião

BBB, manipulação midiática e ingenuidade coletiva

Por Thiago Damasceno

24 de Fev de 2021

Não assisto ao Big Brother Brasil edição nº 21 por uma questão de gosto. Apesar disso, acompanho posts, comentários e memes produzidos sobre a atração e refletirei aqui sobre a repercussão do programa nesses espaços virtuais.

Quando penso em BBB, a primeira coisa que me vem à mente é a polaridade sobre o assunto. Essa polarização é expressa nos seguintes discursos majoritários sobre o tema: “Não vejo BBB porque é um entretenimento idiota e alienanteversusO BBB merece ser visto e discutido porque traz à tona ideias e questões sociais relevantes”. Acontece que os dois polos estão corretos e um não anula o outro, mas essas duas visões não resumem toda a problemática do programa.

Além do mais, gostar ou não de BBB, analisá-lo ou não, não torna alguém superior ou inferior a ninguém, pois essas atitudes são questões de gosto. As pessoas têm o direito a assistir ao entretenimento televisivo que quiserem, bem como têm o direito de criticar e analisar qualquer espetáculo da televisão. Esses dois posicionamentos em si não são problemas.

Mas por que acho que nesse angu tem mais caroço?  

Percebi que as pessoas levam muito a sério um desses pontos de vista (em detrimento do outro) e que também se esquecem que o BBB, por ser uma atração televisiva, é um programa roteirizado. Há quem discorde dessa opinião? Sim, mas podemos supor que é praticamente impossível uma emissora de TV – ainda mais uma tradicional como a Globo – organizar um programa que deixe correrem soltas as convivências dentro de uma casa repleta de câmeras. Também há depoimentos – em sites, redes sociais e em outros programas de TV - de ex-integrantes denunciando o caráter roteirizado e armado do programa (link).

Voltemos então às repercussões do BBB nas redes e o que vejo como o maior problema: o esquecimento de que o Big Brother Brasil é um programa bem planejado, roteirizado e manipulativo. Acompanhem meu raciocínio...

O BBB é um entretenimento alienante? Sim, pois apesar de discutir temas sociais relevantes como machismo, etnia e protagonismo feminino, acaba desviando nossa atenção de outras temáticas igualmente relevantes, como o desastre que é o atual governo federal - e tudo que é feito nos jogos institucionais para mantê-lo no poder - e o enorme número de mortos devido à pandemia da COVID-19. Nesse sentido, o BBB aliena, pois nos torna alheios e distantes de assuntos políticos e econômicos digamos... mais urgentes, como os dois problemas citados acima e o aumento do custo de vida.

Sei que é complicado falar em “problemas mais urgentes” sabendo do tanto de tribulações que enfrentamos neste país, mas para tentar explicar melhor, quero dizer que a xenofobia vista no programa, por exemplo, enquanto acontecimento televisivo, não me perturba tanto quanto o aumento dos preços no supermercado e uma doença mortal à minha volta. Em suma, o BBB aliena porque o país está sendo destruído à nossa volta e, enquanto isso, muitos estão em frente à TV. Simples assim.

O BBB é um entretenimento que merece ser discutido? Sem dúvidas. Um dos motivos para isso está na questão da xenofobia. Nesse aspecto, cabe também pensar sobre a influência da televisão como instrumento de comunicação de massa. Apesar do crescimento vertiginoso das redes sociais e do YouTube, a TV não morreu. Quando comparada à Internet, sofre vez ou outra na questão de audiência e preferência, mas ainda está firme e forte, sempre se modificando ou se adaptando para conseguir engajamento social. O destaque que o BBB tem nas redes sociais exemplifica isso.  

Esclarecidos esses pontos, o problema maior que vejo no BBB está na manipulação midiática e no que vou chamar de “ingenuidade coletiva”. O problema está em não desconfiar da atração, em pensar que o Big Brother Brasil é um programa espontâneo, natural, que flui apenas segundo os tons dos contatos e relacionamentos genuínos que são feitos dentro da casa. Ledo engano. Sendo um produto televisivo, acredito que ele seja roteirizado e planejado nos mínimos detalhes, tornando-se bastante manipulativo. Como todo produto de mídia, ele tem um script cuja base é o conflito.

Reparem que interessa colocar na casa o máximo de pessoas com posicionamentos diferentes para que haja mais conflitos do que diálogos construtivos, e as disputas é que interessam mais ao grande público, afinal de contas, não teria graça um programa onde todos concordassem com tudo, assim como não seria nada atraente assistir a um filme sobre a rotina repetitiva de algum trabalhador, por exemplo. Os conflitos nos atraem. Os problemas que nascem – e suas possíveis soluções – nos atraem, bem como polêmicas e escândalos.  

Mas um programa roteirizado e que tende à manipulação é um problema em si? Não necessariamente, pois nos entretemos também com filmes, séries e outros tipos de atrações roteirizadas. Porém, entendemos o caráter ficcional dessas obras. Ninguém acha que um filme, por exemplo, é 100% real. Entretanto, percebo que o mesmo raciocínio não acontece em relação ao BBB, pois a maioria das pessoas se deixam levar pela ingenuidade e pela aparência de verdade do programa, permitindo que sejam enganadas.

Devemos lembrar que os brothers e sisters da casa são adultos plenos de suas faculdades mentais e que assinaram contrato com a Globo para expor suas imagens dentre demais benefícios financeiros, incluindo aparições em outros programas após suas saídas da casa. Deve haver uma dose de espontaneidade no BBB? Sim, mas creio que isso é uma parte mínima do programa. Nesse jogo de contrato e exposição parece que os participantes aderem mais ao pensamento “Falem bem ou falem mal, mas falem de mim”. Tudo ali é regido visando o conflito e, claro, polêmicas que possam gerar a maior audiência possível. Sabemos bem que a televisão brasileira não tem escrúpulos quando o objetivo é a melhor forma de se conseguir audiência, basta ver as atrações de gostos questionáveis que são comuns nos programas de auditório há anos.

Em relação ao time do “O BBB merece ser visto e discutido”, a maioria dos seus membros são ligados a pensamentos e setores políticos de esquerda. A repercussão de discursos e atos dos participantes da casa relacionados a pautas de esquerda é grande nos perfis de personalidades públicas desse lado político. Todavia, essas mesmas personalidades também vêm demonstrando um grande teor de ingenuidade, pois parece que se esquecem de que a emissora responsável pelo programa é a Rede Globo, canal que não tem um histórico compatível com pautas de esquerda.

Roberto Marinho (1904-2003), proprietário do Grupo Globo entre 1925 e 2003, escreveu um editorial em 7 de outubro de 1984 a favor da Ditadura Militar, descrita por ele não como um golpe à democracia, mas como “Revolução de 1964”. É sabido que a emissora foi porta-voz desse trágico regime. Porém, também preciso citar que em 31 de agosto de 2013 o jornal o Globo publicou outro editorial, mas dessa vez alegando que foi um erro apoiar a ditadura (link).

Contudo, essa retratação teve conveniências e objetivos políticos. Naquela ocasião, vivíamos a euforia complicada das famosas “manifestações de junho”, contexto em que não era interessante defender ditadura nenhuma. Também há o fato de a emissora ter se retratado vinte e oito anos depois do golpe militar a despeito das descobertas de todas as barbaridades feitas por esse regime desde então (link). Logo, essa retratação chegou mais do que tarde demais...

Não bastasse isso, o jornalismo da Globo há anos realiza uma campanha contra políticas de cunho social aliadas à esquerda. Essas críticas, no mínimo indiretamente, influenciaram e influenciam em um maior apoio popular a alguns setores da direita. Novamente, mais um caso de manipulação midiática lenta, segura e gradual...

Sendo assim, fico impressionado com a ingenuidade coletiva em relação ao BBB quando seus expectadores pensam que um programa televisivo desse estilo tenha alguma preocupação com responsabilidade social ou pautas de esquerda. Sem contar o fato de que, enquanto produto cultural, o BBB reflete muitos temas de sua época, como militância de esquerda, participantes LGBTQI+, etc. Todos esses temas dão audiência e, principalmente, servem como produtos, ou seja, são vendidos. E nessa venda, claro, os lucros/repercussões/audiência vêm em primeiro lugar. Não é porque esses temas são abordados pelo programa que eles são abordados da maneira correta!

Essa venda de temas culturais levanta a seguinte questão: sendo um espetáculo roteirizado, o que o BBB pensa em transmitir a partir das falas e ações dos brothers e das sisters? O que o programa “dá a entender”? Que tipo de perfil social ele pretende humanizar ou estereotipar? Como a atração colabora para criar representações sociais ou fortalecer estereótipos? O BBB realmente se preocupa com as pautas humanitárias levantadas pela esquerda?

Outra pergunta que me vem à mente: O BBB causa mais alienação ou é um sintoma?

As duas coisas, mas acredito que o programa tem mais caráter de sintoma. A ordem vigente capitalista vive não só de pão, mas também de circo. Nesse sentido, a aversão ao BBB é compreensível, mas o programa não foi o primeiro e nem será o último produto alienante. Ele é um sintoma de uma sociedade alienada que dá relevância a futilidades e que, muitas vezes, destaca excessivamente certos aspectos da atração e releva outros, deixando de lado certas complexidades do BBB e se esquecendo que o reality show é um verdadeiro circo armado.

Você querendo se entreter com o Big Brother Brasil ou não, analisá-lo ou não, lembre-se que ele é um programa de TV muito bem pensado e produzido segundo os interesses de quem o financia e divulga. É uma atração televisiva com aparência de verdade genuína.

#opinião  #Brasil  #Atualidades

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