Fofocas, Boatos e Fake News: usos políticos

Por Wendryll Tavares

08 de Jun de 2019

Ninguém há de negar que o ser humano é, sem sombra de dúvidas, um animal social. Ora, é sabido que para que as sociedades existam se faz necessário um mínimo de cooperação dos diferentes indivíduos que juntos formam uma coletividade. A pergunta que emerge é: que tipo de coisa congrega pessoas? Yuval Noah Harari, por exemplo, diz em seu livro Sapiens: uma breve história da humanidade que a criação de ficções coletivas (as chamadas realidades imaginadas) são relevantes para se entender a formação de grandes grupos de cooperação. No entanto, Harari cita rapidamente a existência da fofoca (e fala até mesmo de “teoria da fofoca”) nos primórdios da história do Homo Sapiens, quando era muito importante para os indivíduos saberem “quem em seu bando odeia quem, quem está dormindo com quem, quem é honesto e quem é trapaceiro” (HARARI, 2016 p. 31). Isso serviria para selecionar melhor os membros do bando e excluir aqueles membros que quebrassem as regras de convívio. Naquele contexto, fofoca poderia ser entendida como a produção de informações sobre a vida de terceiros sem uma comprovação empírica aceita como verdadeira por todo o grupo.

 

É claro que as informações sobre os membros do bando não eram sempre comprováveis empiricamente. Isso quer dizer que às vezes um sujeito ou outro era segregado por coisas que não havia feito, mas claro, sua segregação provavelmente era interessante para alguém. Com o passar do tempo, os indivíduos começaram a perceber (pelo menos inconscientemente) que esse mecanismo possuía efetividade e a fofoca passou a ganhar contornos políticos.

 

A formação de sociedades complexas fez com que esse tipo de informação e suas consequências se complexificassem também. Se antes a fofoca envolvia reputações individuais, com a formação de cidades, reinos e impérios, os boatos passaram a envolver indivíduos e grupos muito importantes para o funcionamento dessas estruturas sociais. Por uma questão empírica, considero aqui a fofoca um fenômeno restrito a grupos menores enquanto os boatos atingem grupos maiores. O boato seria um “mercado clandestino de informações”, onde haveria a explicação de “fatos não verificados sobre uma questão de interesse público” (BELCHIOR: 2018, p.13). Até aí, fofoca e boato são basicamente iguais, no entanto, é preciso dizer que com o boato existe um encaixe da informação tendenciosa a uma expectativa social em grupos sociais maiores (uma cidade ou um reino, por exemplo). Existem pessoas (no coletivo) dispostas a aceitar como verdade aquele boato.

 

À guisa de exemplo, cito alguns casos envolvendo o político e militar Julio César, que durante sua vida foi vítima de inumeráveis boatos. Suetônio narra, por exemplo, que era corrente entre seus inimigos o apelido de “Rainha da Bitínia” ou “Prostituta da Bitínia” endereçado a Júlio, por conta de seu suposto envolvimento com o Rei Nicomedes. Outro caso bem famoso é aquele que envolveu a suposta traição de sua segunda esposa, Pompeia, com Clódio durante uma cerimônia religiosa na casa de César (SANTOS; BELCHIOR; 2017). Ora, o que se sabe é que em ambos os casos houve um uso enorme dos boatos por parte dos inimigos políticos de Júlio César. A cidade de Roma vivia uma grande turbulência desde a disputa de Mário e Sila, Populares e Optimates estavam em disputa encarniçada pelo poder e a chance de corromper a imagem do principal nome dos Populares era de grande interesse. De afeminado a homem traído, o nome de César era difamado ou defendido segundo a afiliação política. Claro, o casamento de César não resistiu aos rumores (existe o termo latino), já que “à mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. César acabou assassinado em 44 a.C e os boatos circularam de maneira a afetar seus sucessores políticos.

 

Durante a Idade Média e início da Idade Moderna, numerosos boatos corriam os salões reais, igrejas e tabernas. Para a história de Portugal e Brasil, o caso do Rei Sebastião I é bem emblemático. Morto em combate contra os mouros em 1578, o boato da volta do rei passou a circular em diferentes momentos. Para se ter uma ideia, os boatos em torno de Dom Sebastião geraram o surgimento do Sebastianismo, que esteve presente nas pregações de figuras como Antônio Conselheiro, líder de Arraial de Canudos, algo que aconteceu no Brasil do século XIX, ou seja, trezentos anos após o “desaparecimento” de D. Sebastião.

 

É possível encontrar outras dezenas de boatos que tiveram grande impacto na sucessão dos acontecimentos brasileiros. Um caso muito recordado é o da Revolta da Vacina, ocorrida em 1904 na cidade do Rio de Janeiro. Independentemente das diversas outras explicações sociais, econômicas e políticas apresentadas pela historiografia consagrada ao tema, havia ali a existência de boatos, como por exemplo, o de que as pessoas que se vacinassem poderiam ficar com feições bovinas (link). Claro, o boato em si não geraria e nem gerou uma revolta de tamanha magnitude, mas ele correspondia a certos desejos políticos contra os governos de Rodrigo Alves e Pereira Passos. A evocação do medo para fins políticos partidários é outra marca interessante da revolta. Note-se que não se fala aqui de pessoas que agiram espalhando rumores para suscitar o medo da população contra as ações do governo (e é provável que tenham existido), mas sim de como a população estava receptiva a tais boatos. Ou seja, há um encontro entre uma informação tendenciosa e uma expectativa social.

 

Após essa breve e ao mesmo tempo longuíssima viagem, chegamos ao mundo contemporâneo. À fofoca e ao boato se soma agora a “fake news”, ou seja, a notícia falsa. Diferente dos boatos e das fofocas, as notícias falsas se caracterizam como “conteúdo deliberadamente falso que mimetiza notícia e é distribuído em rede social [ou na Internet em geral] com o intuito de gerar benefício” (link). Diferente dos mecanismos informais de transmissão da fofoca e do boato, as notícias falsas se revestem de uma carapaça de informação materialmente comprovável. Se para caracterizar um boato fossem necessárias a junção de informação tendenciosa e a expectativa social, uma notícia falsa agrega expectativa social à informação tendenciosa travestida de informação isenta.

 

Os exemplos do uso de boatos e notícias falsas com fins políticos abundaram nos últimos anos. Nas últimas eleições estadunidenses, por exemplo, o boato de que Hillary Clinton comandava uma rede de pedofilia em pizzaria (#pizzagate) fez com que as poderosas instituições daquele país se desdobrassem para conter a circulação da notícia falsa sem sucesso (link). Foi nos Estados Unidos também que a expressão “fake news” ganhou projeção, já que Donald Trump (o atual Presidente) a utilizou para qualificar certas reportagens e (por analogia) os veículos de comunicação que apresentavam notícias negativas sobre seu governo (e algumas realmente possuíam fragilidades jornalísticas).

 

Isso não parou por lá e nem começou lá, como o caso do Brexit demonstra bem. Na Inglaterra a coisa pode ter sido ainda mais complexa em decorrência da grande existência de tabloides na terra da Rainha. Notas de euro que provocam impotência (The Sun), corgis banidos pela União Europeia (Daily Mail) e União Europeia quer acabar com exames britânicos (Sunday Express) são só alguns exemplos dos absurdos jornalísticos occoridos ali (link). A coisa tem apresentado tal grau de complexidade na Europa que já existem denúncias contra uma “fábrica de mentiras” russa, responsável por disseminar boatos e notícias falsas pela internet (link).

 

No Brasil (ah, o Brasil!) a coisa não tem sido diferente. Do confisco das cadernetas de poupança até mamadeiras eróticas em creches, tem sido disseminado por meio das redes sociais todos os tipos de boatos e notícias falsas possíveis. A coisa chegou a tal ponto que um candidato (que viria a ser eleito) denunciou no maior telejornal do país a distribuição de um “kit gay” nas escolas brasileiras (link), o que se provou uma completa mentira (link, link). Além desse caso surreal, tivemos outros de notícias falsas e boatos eleitorais: a defesa da existência da Ursal, um cantor que afirmou ter sido torturado por um candidato a Vice-Presidência que nem sequer era militar quando das torturas e teve até divulgação de falso vídeo íntimo de candidato a governador (link).

 

O que impressionou não foi a divulgação desse tipo de informação, mas sim como ela ganhou aderência. Muita gente se surpreendeu com o fato das pessoas acreditarem em tais absurdos. Ora, ao pensar assim essas pessoas esquecem o mecanismo de funcionamento do boato e da notícia falsa (e também da fofoca). O que interessa em último caso não é a correspondência da informação com a realidade, mas sim como aquela informação responde à expectativa social dos receptores. A qualidade da notícia é medida pelo grau de correspondência dela com aquilo que eu penso. Se converge, aceito e compartilho, caso contrário apago ou deslegitimo.

 

Trocando em miúdos, se mais boatos e/ou notícias falsas conseguiram atingir mais a reputação de político “A” em comparação a político “B” é porque havia de fato uma maior base social que se inclinava contra o político “A”. Ou seja, as pessoas “criavam” e compartilhavam boatos e notícias falsas contra “A” porque, muito provavelmente, existia um sentimento prévio de repulsa a ele que foi desenvolvido a partir da divulgação de notícias sem base material real. Mas ao dizer isso não se corre o risco de negligenciar uma grande assimetria nos investimentos de campanha para a geração de boatos e notícias falsas sobre adversários? Sim, o risco existe, todavia ele é necessário para quem quer levar a discussão sobre a escolha dos governantes para outros níveis além do econômico. Em último grau, tudo isso leva à discussão sobre Pós-Verdade, algo que não será feito agora.

 

MATERIAL COMPLEMENTAR

 

BELCHIOR, Y. K. Iam victum fama non visi Caesaris agmen (Luc. Phars.2, 600): os boatos nas guerras civis entre Pompeu e César (54-48 a.C.): http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-30102018-161156/pt-br.php

 

CARVALHO, J. M. Os bestializados: O Rio de Janeiro e a República que não foi: https://www.amazon.com.br/Os-bestializados-Rio-Janeiro-Rep%C3%BAblica-ebook/dp/B07N8JVCTJ/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&keywords=BESTIALIZADOS&qid=1559999679&s=gateway&sr=8-1

 

COELHO, A. L. S. BOATOS E OPINIÃO PÚBLICA: COMO INFLUENCIAM NA AVALIAÇÃO DOS GOVERNANTES E DE SEUS GOVERNOS? periodicos.ufes.br/UFESUPEM/article/download/18038/12208

 

FILHO, O. F. O que é falso sobre fake news: http://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/146576

 

HARARI, Y. N. Sapiens: uma breve história da humanidade :https://www.amazon.com.br/Sapiens-Uma-Breve-Hist%C3%B3ria-Humanidade/dp/8525432180/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&keywords=SAPIENS&qid=1559999468&s=gateway&sr=8-1

 

OLIVEIRA, J. C. M. de. BOATOS, CRISES E OPORTUNIDADES POLÍTICAS NA ANTIGUIDADE TARDIA: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-

 

90742016000100301&script=sci_abstract&tlng=pt

 

https://portal.fiocruz.br/noticia/revolta-da-vacina

 

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2017/12/12/fake-news-nao-e-erro-

 

e-proposital-diz-diretor-de-conteudo-do-uol.htm?cmpid=copiaecola

 

https://veja.abril.com.br/mundo/hillary-comanda-rede-de-prostituicao-em-pizzaria-tudo-mentira/

 

https://poligrafo.sapo.pt/internacional/artigos/como-as-fake-news-conduziram-os-britanicos-ao-chumbo-do-brexit

 

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/02/24/internacional/1519505033_056776.html

 

https://www.youtube.com/watch?v=J12K7_kmz4s

 

https://g1.globo.com/fato-ou-fake/noticia/2018/10/16/e-fake-que-haddad-criou-kit-gay-para-criancas-de-seis-anos.ghtml

 

https://www.huffpostbrasil.com/2018/10/24/kit-gay-a-verdade-sobre-o-programa-alvo-de-criticas-e-fake-news-de-bolsonaro_a_23565210/

 

https://aosfatos.org/noticias/checamos-declaracoes-de-bolsonaro-no-jornal-nacional-e-na-globonews/

 

https://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2018-10-29/10-fake-news-das-eleicoes.html

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