Bolsonaro, Ideologia e o Marxismo do Avesso

Por Wendryll Tavares

04 de Jan de 2019

No dia 28 de outubro de 2018, logo após o anúncio de sua vitória eleitoral, Jair Bolsonaro pronunciou o tradicional discurso de vitória. Entre as diversas frases proferidas por aquele que se tornaria o 38° presidente brasileiro, uma chamou minha atenção: “Libertaremos o Brasil e o Itamaraty das relações internacionais com viés ideológico a que foram submetidos nos últimos anos”[1]. Mais de dois meses depois da referida declaração, no dia 01 de janeiro de 2019, quando estava proferindo seu discurso de posse no Congresso, o Presidente Bolsonaro voltou a tocar no tema ideologia, ao dizer que: “O Brasil voltará a ser um país livre das amarras ideológicas”. Em outro trecho disse também que “precisamos criar um ciclo virtuoso para a economia que traga a confiança necessária para permitir abrir nossos mercados para o comércio internacional, estimulando a competição, a produtividade e a eficácia, sem o viés ideológico”[2]. Mais tarde, no Planalto, o presidente completou: “não podemos deixar que ideologias nefastas venham a dividir os brasileiros. Ideologias que destroem nossos valores e tradições, destroem nossas famílias, alicerce da nossa sociedade”[3].

 

Existe em todas essas frases (e em muitas outras) do novo chefe de Estado brasileiro a presença de uma certa definição de ideologia. É possível perceber, por exemplo, que Bolsonaro acredita que suas próprias concepções estão acima de qualquer ideologia. Ele diz ter a responsabilidade de libertar o país das amarras ideológicas e se diz capaz de fazer comércio seguindo algum viés ideológico. Ora, essas afirmações são extremamente contraditórias porque estão repletas de carga ideológica.

 

O termo ideologia surgiu no final do século XVIII e ganhou popularidade no século XIX, momento da história ocidental que liberalismo, comunismo, anarquismo e outras vertentes ideológicas começaram a ganhar destaque. De forma geral, segundo M. Stoppino, existem dois sentidos da palavra: o fraco e o forte. No primeiro, ideologia designa um conjunto de ideias e valores a guiarem os comportamentos políticos coletivos. No segundo sentido, a palavra é entendida como falsa consciência das relações de domínio, ou seja, a ideologia como uma crença falsa[4].

 

Se partirmos do sentido fraco de ideologia, não existe uma ideologia “verdadeira” e nem uma sociedade sem ideologias, já que não existe uma sociedade sem um ou mais conjuntos de ideias, crenças e valores disputando espaço e por isso é a definição mais utilizada na área de Ciências Humanas. O segundo sentido de ideologia, por outro lado, parte da ideia de que um determinado grupo social dominante de determinada época também domina o campo das ideias e o utiliza para perpetuar seu controle sobre o resto da sociedade. O primeiro grande expoente da ideologia em sentido forte foi justamente Karl Marx, que acusava o discurso burguês de ser ideológico porque ocultava a verdadeira realidade e interesses reais por trás de todo o processo de dominação. A ideologia para o filósofo alemão era uma visão invertida da realidade, que separava a estrutura da sociedade (plano econômico/material) da superestrutura (ideias políticas etc)[5].

 

Depois dessa introdução ao termo ideologia, uma primeira pergunta que emerge é: em que sentido Bolsonaro utiliza o termo ideologia? Ao dizer que vai libertar o Brasil das relações internacionais com viés ideológico ou que o Brasil precisa se livrar das amarras ideológicas, o presidente claramente está mobilizando a ideologia em seu sentido forte. Ele está dizendo que a ideologia é página virada, que seu governo não seguirá por nenhum caminho ideológico. Ora, o que existia antes era uma visão equivocada da realidade e que agora será corrigida. Isso mesmo, Bolsonaro usa uma definição de ideologia herdada de Karl Marx e de uma parte significativa de pensadores marxistas.

 

A segunda pergunta que surge é: Bolsonaro é um marxista? Não, aparentemente não. Não é preciso recordar certos ataques feitos por Bolsonaro ao marxismo, como aquele em que ele prometeu combater o “lixo marxista” nas escolas brasileiras[6]. A questão parece ser mais profunda e precisa ser estudada levando em conta o filósofo do momento no Brasil, Olavo de Carvalho.

 

Em uma recente análise dos livros O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras e O Mínimo que Você Precisa Saber para não Ser um Idiota de autoria de Olavo de Carvalho, João Pereira Coutinho argumenta que ambos os livros possuem uma tese comum, a de que “uma ‘tirania mundial’, um ‘poder onipresente e invisível’ tomou conta dos centros de poder —governos, universidades, mídia etc.— com o único propósito de realizar, na prática, o que Antonio Gramsci defendeu na teoria. Uma revolução marxista, nem mais, pelo sequestro das mentes e das almas”[7]. Na visão de Carvalho, existiria um complô internacional de uma elite globalista que afetaria todos os níveis da vida das pessoas. Coutinho mostra que a visão de mundo exposta por Carvalho se assemelha muito ao maniqueísmo marxista. Claro, um marxismo do avesso!

 

É fato notório que o próprio Olavo de Carvalho estudou durante muitos anos o pensamento marxista. Em um texto escrito no Jornal da Tarde publicado em 2003, o filósofo assim descrevia o marxismo: “Investigando durante décadas a natureza do marxismo, acabei concluindo que ele não é só uma teoria, uma ‘ideologia’ ou um movimento político. É uma ‘cultura’, no sentido antropológico, um universo inteiro de crenças, símbolos, valores, instituições, poderes formais e informais, regras de conduta, padrões de discurso, hábitos conscientes e inconscientes, etc. Por isso é autofundante e auto-referente, nada podendo compreender exceto nos seus próprios termos, não admitindo uma realidade para além do seu próprio horizonte nem um critério de veracidade acima dos seus próprios fins autoproclamados. Como toda cultura, ele tem na sua própria subsistência um valor que deve ser defendido a todo preço, muito acima das exigências da verdade ou da moralidade[…]. A constituição da sua identidade inclui dispositivos de autodefesa que impõem severos limites à crítica racional, apelando, quando ameaçada real ou imaginariamente, a desculpas mitológicas, ao auto-engano coletivo, à mentira pura e simples, a mecanismos de exclusão e liquidação dos inconvenientes e ao rito sacrificial do bode expiatório”[8]. Essa descrição feita por Olavo do marxismo cabe também ao construto teórico do próprio Carvalho (claro que em níveis diferentes) não só em seus escritos mas também em seus vídeos e cursos. A defesa de que o Nazismo era um movimento de esquerda[9] e a afirmação de que oitenta por cento dos formandos de universidades brasileiras são analfabetos funcionais[10] são dois exemplos dessa tendência do pensamento olavista. O Nazismo se desloca à esquerda porque nenhum movimento político à direita seria tão bárbaro e o fato das universidades brasileiras não aderirem ao pensamento olavista só prova como o analfabetismo é regra na educação superior brasileira.

 

Ora, é fato notório que durante o discurso de vitória de Bolsonaro, o mesmo citado no primeiro parágrafo, o livro O Mínimo que Você Precisa Saber para não Ser um Idiota era mostrado em uma posição de destaque sobre a mesa da casa do capitão da reserva (junto a outros livros, como a Constituição Federal, a Bíblia e Memórias da Segunda Guerra). Também é bastante notória a influência de Carvalho na escolha de ministros e secretários do novo governo. Essas constatações levam a conclusão de que o marxismo do avesso é algo que Bolsonaro também compartilha, já que ele é leitor de Olavo de Carvalho. O livro sobre a mesa que o presidente certamente leu, os diálogos para formar o ministério, a troca de elogios entre as duas figuras em diversas oportunidades são sinais de que Bolsonaro compartilha uma visão de mundo com Carvalho.

 

A maneira como o Presidente entende ideologia (de maneira muito semelhante ao marxismo clássico) é prova disso. Só que a ideologia aqui não é um “instrumento” da burguesia, como era para Marx. Ela está a serviço daqueles que querem destruir qualquer coisa em que Bolsonaro e seus seguidores acredite (pátria, Deus, heteronormatividade etc). Depois de mais de um século da chegada do marxismo ao poder na Rússia e no Leste Europeu (e quase trinta de seu fim como algo viável), é possível avaliar em retrospecto os terríveis enganos de determinado projeto teórico transformado em projeto político. Se certo marxismo “deu no que deu” na Rússia, o que o marxismo do avesso gerará no Brasil?

 

[1] https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/noticia/2018/10/28/integra-discurso-de-jair-bolsonaro-apos-vitoria-eleitoral.ghtml. Acesso em: 02/01/2019.

 

[2] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/01/leia-a-integra-do-discurso-de-bolsonaro-na-cerimonia-de-posse-no-congresso.shtml. Acesso em: 02/01/2019.

 

[3] https://veja.abril.com.br/politica/em-discurso-no-planalto-bolsonaro-fala-em-libertar-pais-do-socialismo/. Acesso em 03/01/2019.

 

[4] STOPPINO, M. Ideologia. In: BOBBIO, N. Dicionário de Política. https://www.amazon.com.br/Dicion%C3%A1rio-Pol%C3%ADtica-2-Volumes-Bolso/dp/8523003088?tag=goog0ef-20&smid=A1ZZFT5FULY4LN&ascsubtag=go_726685122_49363357406_242624078159_aud-519888259198:pla-482676248111_c_

 

[5] SILVA, K. V.; SILVA, M. H. Ideologia. In: ___. Dicionário de Conceitos Históricos. https://www.amazon.com.br/Dicion%C3%A1rio-conceitos-hist%C3%B3ricos-Kalina-Vanderlei-ebook/dp/B00AJRQ0UI

 

[6] https://veja.abril.com.br/brasil/bolsonaro-diz-que-vai-combater-lixo-marxista-nas-escolas/. Acesso em: 03/01/2019

 

[7] https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/12/olavo-de-carvalho-tem-espada-sarcastica-mas-faz-marxismo-do-avesso.shtml. Acesso em: 03/01/2019.

 

[8] http://www.olavodecarvalho.org/a-natureza-do-marxismo/. Acesso em 03/01/2019.

 

[9] https://www.youtube.com/watch?v=oODfzPLE_m4. Acesso em 02/01/2019.

 

[10] https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/nem-1-nem-80-a-real-taxa-de-analfabetismo-funcional-entre-universitarios-8eipsba6xmr44t7602oum3pq4/. Acesso em 03/01/2019.

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