A Caravana e os Godos: o que o Império Romano pode ensinar a Trump

Por Wendryll Tavares

10 de Nov de 2018

O noticiário internacional dos últimos dias tem dado grande destaque ao tema das caravanas de migrantes da América Central em direção aos Estados Unidos. As seções de política internacional de alguns jornais brasileiros falam de, pelo menos, três caravanas formadas por hondurenhos, salvadorenhos, guatemaltecos etc[1]. As causas dessa migração passariam por questões como pobreza, ineficiência de políticas públicas e violência. Sobre este último ponto, só para termos uma ideia, Honduras é considerado o país com maior taxa de homicídios do mundo, El Salvador é o segundo e a Guatemala é o sexto, segundo dados da Organização Mundial de Saúde[2].

 

Diante da chegada iminente de milhares de pessoas ao território dos Estados Unidos da América, o Presidente Trump subiu os tons de seu discurso e de sua prática, no sentido de não permitir a entrada de “elementos indesejados” no território estadunidense. O presidente tentou criminalizar as caravanas e aumentou o número de tropas para proteger as fronteiras[3], ameaçando usar até mesmo a força, caso os (latino)-americanos insistam em entrar na “América”.

 

Essa não é a primeira e nem a última vez que assistimos problemas ocasionados por um grande número de humanos que desejam adentrar fronteiras estrangeiras. O século XX assistiu muito isso, assim como grande parte dos séculos anteriores, pelo menos desde quando existe a raça humana. Se quisermos, podemos recuar até mesmo aos embates entre o Homo Sapiens e o Homo Neanderthalensis por recursos e territórios, que tiveram influência no processo de extinção desta última espécie do planeta. Contudo, não iremos "tão longe" para mostrar como essa questão é delicada e vamos nos ater a um resumo de alguns eventos ocorridos no Império Romano do final do século IV depois de Cristo.

 

O cenário envolve uma série de incursões militares hunas advindas do continente asiático contra populações que viviam no atual leste europeu. Entre os povos atingidos estavam os alanos, que após algumas derrotas passaram a integrar futuras confederações unidas aos invasores contra outros povos, como os godos. Uma parte destes últimos, diante das crescentes derrotas para os hunos (inclusive a morte de líderes militares importantes), pediram ao Imperador Romano do Oriente, Valente, o direito de adentrar o Império Romano a partir do Rio Danúbio. No ano de 376 d.C., após o aceite imperial (entre outras coisas, o Imperador Valente precisava de soldados para lutar contra os persas), teve início a travessia goda. O grande problema é que uma série de eventos relacionados à truculência da recepção dos estrangeiros pelos soldados romanos, à corrupção dos oficiais que estavam à frente das tropas imperiais (oficiais como Lupicínio e Máximo vendiam cachorros para serem comidos e recebiam crianças como pagamento[4]) e à incompetência romana de impedir a entrada de armas, gerou uma rebelião goda em que participaram dezenas de milhares de pessoas. Essa rebelião acabou por provocar várias derrotas ao exército imperial nos anos que se seguiram, inclusive a célebre derrota de Adrianópolis de 378, quando o próprio Imperador Valente pereceu em campo de batalha. O próximo imperador, Teodósio, lutou algumas batalhas contra os godos até o ano de 382, quando negociações de paz foram concluídas e os godos foram assentados na Trácia. Muitos godos foram absorvidos pelo exército romano nos próximos anos e um deles, Alarico, deu início a uma revolta em 395. As ações de líder redundaram no famoso “Saque de Roma de 410”, quando os visigodos de Alarico saquearam a antiga capital imperial por dias, evento simbólico do processo de desagregação do Império Romano (ou de parte dele).

 

O que é possível aprender com esses episódios? O grande Império Romano, sinônimo de estabilidade por séculos, teve sérios problemas ao lidar com uma grande massa de migrantes. Claro, o Império Romano do século IV passava por muitos problemas econômicos, políticos e militares. Quando a esses problemas internos, juntou-se a questão da chegada de milhares de pessoas desesperadas e essas foram recebidas com truculência e desorganização, os problemas só aumentaram. Não seria essa uma lição importante para as sociedades contemporâneas? Os exemplos sírio, eritreu, rohingya, sudanês e venezuelano mostram que o desespero para sair de um lugar onde sua vida corre perigo não é localizado geograficamente, assim como o exemplo godo mostra que não é uma questão somente contemporânea. Apesar de sabermos que a História não é mais considerada a “Mestra da vida”, não seria possível aprender um pouco com o passado humano?

 

Leituras complementares:

 

Guerras Góticas de Roma (M. Kulikowski): https://www.amazon.com.br/Guerras-G%C3%B3ticas-Roma-Michael-Kulikowski/dp/8537004375

 

Histórias – Livro XXXI (Amiano Marcelino): http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Ammian/31*.html

 

The Fall of the Roman Empire (Peter Heather): https://www.amazon.com.br/Fall-Roman-Empire-History-Barbarians/dp/0195159543

 

Barbarian Migrations and the Roman West (Guy Halsall): https://www.amazon.com/Barbarian-Migrations-Roman-West-376/dp/0521435439/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1541858661&sr=8-1&keywords=barbarian+migrations

 

[1] https://www.bbc.com/portuguese/internacional-45947234.

https://www.terra.com.br/noticias/segunda-caravana-de-migrantes-ruma-para-os-eua,54a47fa559822b5a3d218da38c07d7e5rcp1krsk.html.

https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/10/novo-grupo-de-migrantes-deixa-el-salvador-a-caminho-dos-estados-unidos.shtml.

[2] http://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/255336/9789241565486-eng.pdf;jsessionid=685A3D858C31E020BE97659E01A0523D?sequence=1

[3] https://www.dn.pt/mundo/interior/trump-critica-mexico-por-nao-deter-caravanas-de-migrantes-com-destino-aos-eua-10114926.html

[4] As crianças seriam comercializadas como escravas. Assim narrou, por exemplo, Amiano Marcelino (Livro XXXI, 4, 11): http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Ammian/31*.html

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