Como foi conhecer Auschwitz

Por Sabrina Costa Braga

28 de Out de 2020

O complexo de campos que chamamos de Auschwitz é o maior símbolo da Shoah (Holocausto) e fica na cidade de Oświecim, na Polônia. Foram 12h de ônibus saindo de Berlim, cheguei na quinta e fiquei em um hotel bem em frente ao campo, o que achei meio estranho… A cidade está ao redor do campo e provavelmente sobrevive quase exclusivamente do campo. Para visitar Auschwitz, é preciso reservar antes no site oficial, pois a demanda é alta.


Escolhi baixa temporada (inverno) e peguei o primeiro horário (7:30) na tentativa de evitar muitos turistas. Eu escolhi a visita sem guia, então não precisei pagar nada pela entrada. No site recomendavam que primeiro o visitante passasse pelo museu, assistisse a um vídeo gravado no dia da libertação de Auschwitz e depois fosse visitar o campo. Quando cheguei, verificaram o meu ticket na entrada e logo em seguida eu já estava dentro do campo (Auschwitz I) de frente para o icônico portão com os dizeres Arbeit macht frei (o trabalho liberta) e pensei que eu tinha passado sem querer pelo museu. Acredito que eles prefiram que as pessoas façam a visita guiada, por isso não há muitas informações indicando o caminho para quem vai sozinho. Foi a primeira vez que vi neve de verdade na vida, algo que eu ansiava e isso fez com que inicialmente tudo aquilo parecesse muito irreal.


Demorei um pouco, mas descobri que o museu são os próprios barracões do campo. Cada um deles abriga uma exposição provavelmente montada e financiada por um país diferente e mostra os judeus de diferentes nacionalidades que foram enviados para Auschwitz. Algumas mostram histórias bem interessantes como a do “boxeador de Auschwitz”. Uma exposição temporária que me chamou a atenção foi a dedicada aos Sonderkommandos (os grupos de judeus obrigados a tirar as pessoas das câmaras de gás e levar para os crematórios) e apresentava trechos de entrevistas com esses sobreviventes, para os quais acredito que o trauma tenha sido o mais intenso possível e que, para mim, são o símbolo máximo da destruição do humano que o nazismo visou. Além de relatos dos gritos desesperados e em diferentes línguas que vinham das câmaras de gás e de como esses gritos cessavam aos poucos, esses judeus dos Sonderkommandos falaram sobre a impossibilidade de viver com o que tinham presenciado. Algumas das frases que me marcaram, que fotografei e traduzo agora são:

 

Auschwitz foi a tragédia da minha vida! As memórias continuam voltando e eu não posso fazer nada sobre isso. É impossível lutar contra elas. Elas voltam de novo e de novo e eu não posso parar;

 

Vida. Desde então eu nunca tive uma vida normal… Tudo me leva de volta ao campo. Tudo o que eu faço, tudo o que eu vejo, minha mente continua voltando para o mesmo lugar;

 

Eu não consigo dizer o quanto eu estou sofrendo. Eu vejo tudo o que aconteceu lá atrás. Há noites em que eu volto lá nos meus pensamentos, noites sem dormir.

 

Cada um desses trechos vinha acompanhado da foto de quem o proferiu e não eram depoimentos colhidos pouco tempo após a guerra, todas as fotos mostravam idosos que na década de 2010 ainda tinham o trauma tão vívido.


Outras exposições mostram as condições de vida e condições sanitárias com réplicas das camas e das latrinas. Um desses barracões já foi a “enfermaria” e ainda tem os escritos originais na porta do lugar onde Mengele (que morreu impune no Brasil) realizava experimentos em crianças. O barracão de número 11 tem um porão que já foi usado para tortura e onde foram realizados os primeiros testes com Zyklon B, o gás que posteriormente seria usado para exterminação em massa. Outro barracão apresenta o que nas placas eram chamados de provas dos crimes: milhares de sapatos, óculos, malas, utensílios domésticos, próteses e um amontoado de cabelos de mulheres que tinham a cabeça rapada quando chegavam. Nessa parte o mais difícil é ver como essas pessoas tinham esperança até o último momento, pois mesmo depois de serem confinadas em trens de carga, passarem sede e fome, ainda desciam com malas e outros pertences acreditando que em algum lugar ainda haveria vida.


Nas paredes de alguns desses barracões que abrigam o museu, há incontáveis fotos de prisioneiros e prisioneiras, todos com a roupa listrada e a cabeça raspada. É preciso ter atenção para olhar e ver alguma individualidade, é preciso sempre e incansavelmente fazer o exercício inverso dos nazistas e perceber que antes de serem um número tatuado e um corpo raquítico, cada uma dessas pessoas teve uma história. E não é fácil. O mesmo acontece quando olhamos aquele amontoado de sapatos, é preciso olhar bem para ver além do couro envelhecido e perceber no meio um sapato vermelho de mulher, um salto, uma sandália, ou um sapatinho colorido de criança. Visitar o campo é um esforço constante de perseguir a realidade, mas não se dessensibilizar.


A última parte da visita a esse primeiro campo é a câmara de gás. Nessa hora mais pessoas já tinham aparecido e, claro, o que mais as atraía era essa parte da visita. Apesar disso consegui passar alguns minutos sozinha na câmara e na sala ao lado que era também um pequeno forno crematório para os corpos. Acho que muita gente imagina uma estrutura imensa de morte, mas as câmaras eram na verdade relativamente pequenas e em cada uma delas as pessoas eram amontoadas de maneira que seria difícil se mexer lá dentro, assim caberiam várias e o funcionamento dependia do trabalho incessante dos Sonderkommandos. Essa câmara de gás era especialmente pequena, pois funcionou apenas até a construção de Auschwitz II, onde o mecanismo de extermínio foi aperfeiçoado. Na câmara é possível ver as paredes todas arranhadas. É raro ter a oportunidade de ver uma câmara de gás, já que foram as primeiras que os nazistas tentaram destruir ao fim da guerra. Não sei dizer o que senti nessa hora.


A segunda parte da visita é a Auschwitz II - Birkenau. Há um ônibus que leva as pessoas de um complexo a outro. Esse segundo é mais afastado da cidade e não tem museus e explicações tão detalhadas quanto no primeiro, apenas algumas placas. Em Birkenau é possível ver onde os trens chegavam para realizar a seleção de quem morreria e quem viveria, um cenário comum nos filmes. Esse campo é bem maior que o primeiro, as cercas de arame pelas quais já passou energia estão lá também. O pensamento de que se fosse comigo, eu teria me matado naquela cerca antes que deixasse de ser gente, passa pela cabeça o tempo todo. Ao mesmo tempo, esse pensamento me parece muito injusto, é mais como se eu julgasse do que admirasse os sobreviventes.


Em Birkenau há um vagão de trem de carga que carregava as pessoas para o campo. Os guias paravam em frente a esse vagão e contavam para seus grupos sobre as condições de viagem a que as pessoas eram submetidas antes de chegarem no campo. Como é muito extenso e estava muito frio, parecia mais vazio que Auschwitz I e assim andei por muito tempo entre os inúmeros barracões e torres de vigia. Cada grupo de barracões era destinado a um grupo de pessoas, sendo a maioria para judeus homens, mas também haviam barracões femininos e aqueles onde ficavam os ciganos que aparentemente não eram imediatamente separados de suas famílias. Há o prédio em que funcionava a “sauna”, onde as pessoas eram levadas para tomar banho depois de terem passado pela seleção e antes de seguirem para o trabalho forçado.

 

Mais ao fundo há um monumento construído em cima de onde a maioria das câmaras de gás funcionavam e está escrito em várias línguas:

 

Que esse lugar seja sempre um grito de desespero e um aviso à humanidade. Aqui os nazistas assassinaram aproximadamente um milhão e meio de homens, mulheres e crianças, a maioria judeus de diversos países da Europa.

 

Andando mais um pouco é possível ver as ruínas das demais câmaras de gás que foram destruídas pelos nazistas. Parei um pouco e fiquei olhando essas ruínas. Ao lado há uma mata e em frente a essa mata uma placa com uma foto apontando que era ali onde muitas pessoas passavam horas esperando antes de irem para as câmaras de gás. A foto mostra famílias inteiras com expressões muito assustadas. Acredito que esse tenha sido o pior momento da visita, pois foi possível reconhecer na foto exatamente a mesma disposição de árvores e ventava muito, a ponto de ser possível ouvir aquele barulho assustador que o vento pode fazer. É uma prosopopeia, mas fiquei pensando em tudo o que essas árvores já tinham presenciado e me senti muito mal. Nessa hora começou a nevar forte e comecei a andar em direção à saída. O campo é realmente grande e precisei andar muito até encontrar um lugar no qual pudesse me abrigar, que era um dos galpões de madeira com réplicas das camas onde os judeus dormiam. Essa era uma parte do campo destinada aos prisioneiros recém chegados que ainda não estavam inseridos na “disciplina” do campo. Fiz uma foto e saí logo. Como estava muito frio e eu já tinha andado muito, entrei em seguida em outro desses e esse era onde funcionavam as latrinas. Esses dois barracões eram exatamente iguais aos de tantos relatos de sobreviventes que eu havia lido. Talvez o mesmo onde dormiu Primo Levi. Apesar do frio, foi melhor sair e aí vi que era hora de ir embora, pois não é possível sentir alívio em Auschwitz.

 

* As fotos que tirei em minha visita a Auschwitz estão no meu Flickr:

 

www.flickr.com/photos/117742565@N05/albums/72157713329184581

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