A consciência do tempo e o tempo da história – Temporalidades I

Por Johnny Taliateli

07 de Nov de 2018

Tomei a liberdade de falar primeiramente em consciência do tempo por achar de suma importância trazer brevemente o modelo de reflexão sobre o assunto que fez Santo Agostinho (354 – 430), autor que apresentou uma concepção de tempo que é psicológica.

 

Uma ressalva é necessária para abordar o tempo em Agostinho. Sua preocupação em explicar o conceito está relacionada ao seu objetivo de compreender o que é a eternidade. Segundo ele, o tempo não existe na eternidade, lá nada passa, tudo é presente. Trata-se de uma explicação para a onipresença de Deus. Logo, não se pode falar em antes da criação, pois a própria ideia de instante/antes/depois seria absurda para explicar um lugar em que não há tempo. Deus reside na eternidade e nesta, existe um eterno “hoje”. Se Agostinho define assim a eternidade, o que é então o tempo para ele?

 

Defende que os tempos são três: “presente das coisas passadas, presente das presentes, presente das futuras”. Segundo ele é o que pode ver em sua mente, a lembrança, o agora e a esperança, um tríplice presente. O que passou já não existe mais, não é possível vê-lo, a não ser que faça isso em consciência através da memória. O que se premedita também não existe ainda porque é futuro. Se penso que vou comer pizza amanhã, estou criando uma expectativa para o dia seguinte, mas nessa lógica isso não tem existência, a não ser na minha mente.

 

Santo Agostinho enxerga o tempo como uma distensão da alma. É na consciência que o tempo se realiza através da expectativa, atenção e memória. É através da atenção que o ser humano opera assim a transição entre aquilo que se espera e a memória. Os tempos são medidos dessa forma pelo espírito, por isso, foi chamado de distentio animi[1].

 

E o que isso tem a ver com a história? Primeiro, o objeto de reflexão do historiador é o ser humano. Segundo, como dizia Marc Bloch, “a história é a ciência dos homens no tempo”[2], portanto, o tempo é e sempre deve ser produto de análise do historiador. Terceiro, é possível afirmar que aquilo que Santo Agostinho expôs é parte da condição humana, sua constatação demonstra que o homem se orienta no tempo através de sua consciência. Nela, ele opera experiência/memória e expectativa, passado e futuro. Como humanos, fazemos isso por sermos animais conscientes de nossa finitude. Existe um tempo natural que reflete em nosso corpo biológico, assim, sabemos que uma hora a morte irá chegar.

 

O filósofo Paul Ricoeur retoma as fórmulas de Santo Agostinho ao falar do trabalho do historiador pois, segundo ele, a este profissional é dado o poder de retornar a um momento qualquer do passado como sendo presente. Da mesma forma que nós, humanos de agora, é preciso colocar na balança do trabalho que aqueles sujeitos do passado eram capazes de iniciativa, retrospecção e prospecção, também orientavam o seu agir no tempo na condição de presente de seus passados e de seus futuros. Ao procurar reconstruir o passado, o historiador está sempre ressuscitando os mortos, mas mortos que foram vivos outrora, logo, sujeitos de ação[3].

 

O que seria então o tempo histórico? Uma das mais famosas tentativas de homogeneização explicativa para o problema é do historiador alemão Reinhart Koselleck. Para ele “experiência e expectativa são duas categorias adequadas para nos ocuparmos com o tempo histórico, pois elas entrelaçam passado e futuro”. Remetem à temporalidade humana.

 

Entretanto, é preciso dar um conteúdo espacial para essas categorias, é melhor falar em espaço de experiência, porque as experiências do passado formam um todo que envolve muitos estratos de tempo que estão simultaneamente presentes. Não é algo que pode ser mensurável de forma cronológica pois a cada momento esse aglomerado é formado de tudo aquilo que é possível recordar da própria vida ou da dos outros.

 

Em relação ao futuro é melhor falar em horizonte. Apesar de ser possível estabelecermos alguns prognósticos em nossa vida, há sempre um limite, pois, o futuro ainda não é, não pode ser experimentado de fato enquanto crio expectativas sobre ele com base na minha experiência, portanto, horizonte de expectativa.

 

Em resumo, é da tensão entre esses dois polos, experiência e expectativa, numa relação que não é estática, que surge o tempo histórico. A forma como o ser humano articula essas categorias ao longo da história é variável, o que faz com que o tempo histórico seja uma grandeza que sempre se modifica.

 

Para o autor, a modernidade deu uma dimensão totalmente nova para o horizonte de expectativa, o que caracterizaria uma nova percepção do tempo através do conceito de progresso. Com a ideia de progresso a expectativa é a de que o futuro será sempre melhor do que o passado. Na modernidade cada vez se distancia mais as expectativas das experiências anteriores. Esse modelo de tensão entre as categorias ganhou força na Idade Moderna porque as experiências anteriores não eram o suficiente para aqueles homens em um mundo que se transformava cada vez mais, tecnicamente. O futuro torna-se mais desafiador na medida que o ser humano experimenta o tempo como algo sempre inédito, o “novo tempo” moderno.

 

Seria então entre passado e futuro que se produziria algo como o tempo histórico, mas a relação entre eles altera-se de geração para geração[4].

 

 

 

Observação: As discussões sobre o que vem a ser o tempo histórico são múltiplas em nossa área, assim como se fala hoje em multiplicidade dos tempos históricos[5]. Este texto tem o intuito de informar. Por isso, coloquei o subtítulo “Temporalidades I”. O objetivo é trazer outras discussões sobre o assunto ao portal.

 

[1] SANTO AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 2000. Coleção Os Pensadores.

[2] BLOCH, Marc. Apologia da História ou o Ofício do Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

[3] RICOEUR, Paul. A memória, a História, o esquecimento. Campinas: Editora Unicamp, 2010.

[4] KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto, 2011, pp. 09-18; pp. 305-327.

[5] Recentemente o Prof. Dr. Marlon Salomon organizou uma obra escrita em conjunto com vários profissionais sobre o tema. Cf. SALOMON, Marlon (org.). Heterocronias – Estudos sobre a multiplicidade dos tempos históricos. Goiânia: Edições Ricochete, 2018.

whatsapp-logo-1.png

Comentários

Ogro nas redes

  • Perfil do Ogro Historiador
  • Instagram

2018 Ogro Historiador | Ao reproduzir qualquer conteúdo deste portal, faça referência ao autor do artigo e à página.