Cultura e Crença na Idade Média sob a “Antropologia Medieval” de Jean-Claude Schmitt

Por Hugo Rincon

29 de Nov de 2018

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean-Claude Schmitt é professor da École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris). O medievalista é conhecido no Brasil por ser o herdeiro intelectual de Jacques Le Goff, ou seja, da quarta geração da Escola dos Annales. Schmitt tem uma vasta publicação no campo da História Medieval, e podemos elencar duas publicadas no Brasil, Os vivos e os mortos na sociedade medieval (Companhia das Letras, 1999) e O corpo das imagens: ensaios sobre a cultura visual da Idade Média (Edusc, 2007).

 

 

A obra “O corpo, os ritos, os sonhos, o tempo: ensaios de antropologia medieval” (Editora Vozes, 2014) do renomado medievalista francês Jean-Claude Schmitt é um livro essencial para os estudos culturais da sociedade do Ocidente Medieval. Os ensaios publicados neste livro têm como intenção “provocar” os historiadores a buscar novas abordagens e olhares para a pesquisa histórica, desvelando objetos que parecem ocultos e assim formular novas problematizações à documentação. Seus questionamentos sobre o sistema dominante na relação entre a tradição folclórica e a cultura erudita marcam a profundidade de sua obra. Schmitt nos ensina que na sociedade medieval houve muito mais do que o simples domínio ideológico do cristianismo e da Igreja, e que a subversão e a resistência estavam sempre presentes e em conflitos de representação. A sua metodologia se aproxima da proposta de seu colega dos Annales, Roger Chartier, quando este diz que o historiador deve se atentar aos sistemas simbólicos de lutas de representações, que deveríamos fazer uma história cultural do social.

 

Schmitt nos aponta três questões centrais de como poderíamos analisar a Idade Média sob a perspectiva do que ele entende por uma "Antropologia Medieval": O primeiro problema refere-se ao conceito de religião aplicado ao medievo, o historiador deveria denunciar as fronteiras entre a “história religiosa” e a possibilidade de refletir sobre o período em termos de “religião”. Um segundo problema consiste em ampliar a pesquisa para o questionamento antropológico e comparativo dos conceitos utilizados pelos historiadores em relação ao período. O terceiro, sugere uma metodologia que possa quebrar esse modelo em “dois níveis” que privilegia a cultura eclesiástica em relação a seu domínio sobre a “cultura popular”. A principal proposta do historiador francês consiste em compreender as disputas no campo da representação que resultam nos "sistemas simbólicos de crenças" manifestados nas fontes medievais como resultado da relação ambivalente entre a Cultura Erudita (eclesiástica) e a Cultura Folclórica (popular) e, principalmente, como as tensões entre estas marcaram a sociedade do Ocidente Medieval.

 

Um dos principais problemas nos estudos do medievo referem-se ao conceito de “religião” aplicado a Idade Média. Sabe-se que o conceito moderno de religião é recente, datando do Iluminismo, e se tornou objeto de uma reflexão crítica e desmistificadora. Portanto, seria apropriado aplicar este conceito ao período medieval? Schmitt sugere que os historiadores devem ficar atentos aos conceitos e sua semântica, lembrar que estes também têm uma história. A solução seria priorizar as relações que dão lugares e funções aos conteúdos na estrutura dos pensamentos e ações dos homens. Mais ainda, utilizemos como referência a noção de “sistemas simbólicos de crença”, para entendermos as relações dos homens com o sagrado e com o sobrenatural na Idade Média.

 

Ritos e mitos constituem um importante papel na formação dos sistemas simbólicos de crença na Idade Média. Estes dois objetos de análise aqui se relacionam com as transformações culturais entre a sociedade greco-romana e a cristandade medieval, entre permanências e descontinuidades: o que a Igreja absorveu (ressignificou) e rejeitou (condenou) em relação aos ritos, mitos e a concepção de sagrado da antiguidade clássica. Sabemos a importância social da ritualização no cristianismo medieval, o ritual ressaltava e sacralizava as grandes divisões da humanidade, representava a dinâmica do funcionamento social e este não implica apenas os grupos sociais, mas os atores singulares. Assim, os rituais muito comuns na sociedade romana foram herdados também pela Igreja, que deu a eles novos sentidos. Em relação aos mitos, permaneceu também uma forte influência desta herança. É uma prática comum às sociedades ao longo da história desenvolver mitos na tentativa de explicação de suas origens.

 

O diferencial do cristianismo medieval foi a incessante busca de uma explicação lógica (racionalização) do mito cristão. Essa tentativa intelectual de clérigos de encontrar explicações lógicas para os mitos, de clara influência da filosofia grega (com Platão e a crítica ao mito, principalmente), é chamada por Schmitt de “Razão Teleológica”. Os cristãos definiram sua religião em oposição ao mito, que se referiria a uma negativização do paganismo greco-romano. A “mitologia cristã” teria sua base em três tradições: o Antigo Testamento, a Mitologia Greco-romana e a tradição Indo-europeia. A relação ambivalente entre a absorção e condenação das práticas culturais “populares” também hierarquizou as narrativas consideradas falsas (não cristãs) que foram tratadas como mitos, lendas e contos.

 

Sabemos que a Igreja tinha um papel central na definição deste sistema de crenças, que se dividia em dois pilares: Credere (fazer crédito) e Fides (fé – fidelidade). A crença no medievo estava relacionada a uma concepção de contratualismo: da relação do fiel com Deus, da barganha à relação feudo-vassálica, servo – senhor. Outro ponto importante é o universalismo do cristianismo que carrega duas implicações: uma instituição forte e centralizadora (a Igreja) e a conversão/expansão da fé cristã. O sistema controlado pela Igreja teve resistências envolvidas com práticas culturais condenadas pela instituição, como as superstições, as “falsas crenças” relacionadas à figura do diabo, as heresias e demais relações com o sobrenatural (especialmente a relação do homem com os mortos).

 

A descrença não era um problema para os clérigos (a ausência de fé era vista como “loucura”). A maior adversidade enfrentada pela Igreja era o combate às “falsas crenças”. A sua principal ferramenta era o ensino do credo. Os clérigos definiam dois tipos de fé: a “fé explícita” e a “fé implícita”. A Igreja e seus representantes estariam ligados à primeira, detentores do domínio do credo e deveriam repassá-lo de forma suficiente aos leigos, representados pela segunda. A “pedagogia do credo” tinha como objetivo evitar o afastamento dos cristãos da “boa fé”, livrá-los dos perigos das práticas heréticas e das crenças supersticiosas do folclore. Nesta relação, aumentou-se o combate às práticas heréticas e a centralização da Igreja (especialmente na Baixa Idade Média). A figura do diabo ganhou força com a “demonologização” da cultura folclórica, assim, a Igreja o utilizou como meio pedagógico, ainda que de forma ambígua: Devia-se crer nele como enganador, mas também como modelo do que não se crer.

 

A tradição folclórica teve um papel importante nas tensões entre a cultura popular e erudita no sistema de crença da Idade Média. A concepção de história da “religião popular” emprega alguns problemas, principalmente a que esta normatiza a religião das massas aos moldes do cristianismo e da Igreja, assim, leva-se em conta apenas o papel dominante, menosprezando a cultura folclórica, como se esta fosse apenas reminiscências do paganismo. Sobre a relação dos historiadores e as problematizações quanto à figura do diabo e a “religião popular”, conforme Schmitt:

 

"Alguns historiadores da “religião popular” veriam nisso uma forma pervertida da religião oficial. Vejo muito mais um traço característico do funcionamento da cultura folclórica, no contato com a cultura dominante e no nível preciso em que a Igreja escolhera estabelecê-la; o de uma “santa ignorância” que mal atenuava o mínimo de crença “explícita” necessário à salvação dos mais “simples” e fora exatamente definido com a preocupação de exorcizar ao mesmo tempo o perigo da heresia popular, promovendo a devotio dos leigos, e o da magia, dando a estes últimos rudimentos de cognotio" (SCHMITT, 2014: 113).

 

Desta forma, partindo de uma concepção de antropologia histórica, os historiadores devem questionar a existência de uma “cultura popular”, compreendendo-a como um sistema autônomo distinto da cultura dominante. É preciso analisar as relações sociais, construindo modelos que valorizem os polos de oposição e as tensões, os desafios ideológicos de determinada sociedade na sua história ou em determinado momento desta. Portanto, os historiadores devem priorizar as polaridades e circulações culturais dentro de uma dinâmica, recusando ideias preconcebidas de unidade cultural. Na tensão entre cultura dominante e cultura subversiva, entre Igreja e Tradição Folclórica, podemos entender os processos relacionados às práticas e representações que envolviam o sistema de crenças na Idade Média. Desta reflexão, nas palavras de Schmitt, traça-nos um horizonte de expectativa, esboçam eixos, balizam um campo de pesquisa, e não esgotam o assunto. Para os medievalistas, suas contribuições teóricas e metodológicas, com certeza, esboçam um grande ponto de partida.

 

*** Texto baseado em uma resenha nossa sobre a obra "O corpo, os ritos, os sonhos: ensaios de antropologia medieval" de Jean-Claude Schmitt publicada em 2016 na Revista Plurais da Universidade Estadual de Goiás.

AZEVEDO, H. R. Entre a cultura eclesiástica e a folclórica: a antropologia medieval de Jean-Claude Schmitt. Revista Plurais - Virtual, v. 6, p. 199-205, 2016.

 

Textos de Referência:

 

CHARTIER, Roger. A história cultural entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1987.

 

LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente Medieval. São Paulo: EDUSC, 2005.

______.; SCHMITT, Jean-Claude (Orgs.). Dicionário Analítico do Ocidente Medieval. São Paulo: Unesp, 2017.

______. O imaginário medieval. Lisboa: Estampa. 1994.

______. O maravilhoso e o quotidiano no Ocidente Medieval. Lisboa: Edições 70, 1985.

 

SCHMITT, Jean-Claude. O corpo, os ritos, os sonhos: ensaios de antropologia medieval. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.

______. O Corpo das Imagens - Ensaios sobre cultura visual na Idade Média. Bauru, SP: Edusc: 2007.

______. Os vivos e os mortos na sociedade medieval. São Paulo: Companhia das Letras. 1999.

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