Publicado em 01 de Fevereiro de 2019

MADAME BOVARY – POR GUSTAVE FLAUBERT

Por Daniela A. Cavallari*

Um dos romances que devia ter lido na minha época de estudante e sempre me critiquei por não ter lido foi Madame Bovary, especialmente por ser tão aclamado no meio dos teóricos literários.

O interessante desses grandes clássicos é que as vezes são intimidadores, sempre prometemos ler, mas lá no fundo fica o “E se não for tão bom assim? ” Ou “E se eu não conseguir ver o que todos dizem ser tão óbvio? ”

Uma coisa boa dos clássicos é que apesar do tempo ter passado, a sociedade ter mudado, o conteúdo ainda ressoa conosco, e a história ainda se faz atual.

Acredito que o verdadeiro juiz de qualidade de uma obra é como ela sobrevive ao tempo. Madame Bovary é ao mesmo tempo um retrato da sociedade que o produziu, seus conceitos e preconceitos e nos mostra que apesar de acreditarmos que mudamos muito de lá para cá é possível dizer que somos essencialmente muito parecidos com a sociedade por ele retratada.

A revolução tecnológica que nos conecta e permite que divulguemos notícias em tempo real, que nos comuniquemos com o outro lado do mundo pode ter mudado algumas dinâmicas sociais, mas nossos anseios, desejos, medos continuam os mesmos, apenas trocaram de nome e ambiente.

Quando desnudamos a alma humana restam medo da solidão e da morte como algumas das forças motrizes da sociedade e por isso mesmo combustível para os melhores romances. Os grandes autores não jogam isso na nossa cara, eles tecem histórias que costuram realidade subjetiva e ficção. É assim que falam ao nosso subconsciente de suas próprias inquietações e propagam seus valores éticos. Não pense que um livro é isento de ideologia ou concepção de ética. Romances são filhos de momentos sócio históricos e podem muito bem, com diferentes níveis de sucesso, ser espelho da sociedade que os produz. Espelhos do inconsciente coletivo.

Bem, com todas essas coisas em mente eu finalmente li.

O que eu achei?

Eu esperava um romance cheio daquela aura mística que normalmente forçamos nos chamados clássicos, mas o que encontrei – na tradução que li – foi um romance fácil de ler. Não sou uma apaixonada pelo realismo, na verdade faço mais a linha do fantástico – mas realmente gostei muito de Madame Bovary justamente por sua crua simplicidade e a ausência de alguns elementos que me entediaram em outras obras ditas realistas.

Me lembrou meu primeiro contato com Honoré de Balzac, a história tem um começo relativamente lento, mas que se desenrola com a fluidez de uma câmera que vai se aproximando. No caso de Balzac a câmera começa pelas paisagens e depois para as pessoas, no romance de Flaubert sinto como se começasse dando um zoom no personagem Charles e depois se abrisse para o mundo.

Ele expande a visão à medida que lemos passando da infância para o primeiro casamento e finalmente para quando ele conhece Emma. A personagem tão aclamada não me parece melhor ou pior que qualquer mulher real. Isso que nos prende ao romance e faz seguir em frente na jornada dessa mulher sonhadora e eternamente insatisfeita. Assim como em O Morro dos Ventos Uivantes, sentimos que as personagens são tão tangíveis e possíveis que parece uma afronta não serem reais.

Madame Bovary não tem as grandes reviravoltas orgásticas dos romances de folhetim. Que Emma seja uma mulher mais bonita que a média, mais inteligente e até certo ponto refinada é um fato, mas ao invés de empregar suas qualidades de forma proveitosa ela acaba vagando de tédio em tédio. Primeiro fica entediada com o casamento por não ser maravilhoso como nos romances, depois com a casa e em seguida com o amante.

Enquanto a época coloca o casamento e concepção de filhos como ideal de felicidade para uma mulher, nada disso parece ser suficiente para Emma. Emma em alguns pontos lembra Tântalo, personagem da mitologia grega que foi condenado a ver abundância de água e comida sendo incapaz de comer e beber para que sentisse fome e sede eternos. Emma não é fisicamente privada de nada essencial, mas emocionalmente ela sente-se como o personagem grego. Eternamente faminta, mas por algo intangível e até mesmo fictício.

A eterna insatisfação de Emma está em sua constante fuga da realidade e na tentativa de trazer o romanesco para o mundo tangível.

Me pergunto quantas Emmas existiram e existem em todas as épocas. Deslumbradas com as vidas luxuosas que não são a sua, incapazes de enxergar que toda realidade tem suas alegrias e frustrações e que é impossível levar uma vida apenas de prazer.

Emma também pode ser comparada com Erisictão, condenado por Demeter a uma fome sem fim e nada que consumisse o saciava tendo gasto toda a fortuna em alimentos sem jamais ficar saciado, chegando a vender a própria filha para obter mais alimento até que um dia arruinado, sozinho e faminto, não teve outra saída senão comer a si mesmo. Emma, em sua fome sentimental de um romance ideal também devora a si mesma o que pode ser expresso pelo suicídio.

Para mim o melhor da leitura é o fato dela me obrigar a reflexão das atitudes de Emma perante ela mesma, a vida, o marido e os amantes.

Charles não parece um marido de sonhos, mas é notadamente um homem bom chegando a ser retratado como um tolo e apaixonado a ponto de ser cego em relação ao desamor da esposa ou mesmo a futilidade dela. Mas em uma sociedade em que homens e mulheres não conversam de fato que homem conhece realmente sua mulher? Na sociedade de hoje os homens são menos cegos com relação ao que está fora do seu pequeno mundo de desejos e satisfações pessoais? Nós mulheres estamos menos amarradas à ideais romanescos de relacionamento quando o cinema e as novelas ainda nos empurram modelos de relacionamentos baseados em clichês de amor ideal?

Madame Bovary parece alguém que tem nas mãos todas as oportunidades de ter uma vida feliz e as joga fora por buscar uma vida utópica em que as emoções estejam a flor da pele. Por isso seu primeiro amante foge e o segundo ao passar o ardor da paixão juvenil fica entediado. A busca por emoções a deixa cega ao fato de que só o próprio marido a ama incondicionalmente e que ele não ter arroubos românticos não diminui seus sentimentos nem os invalida.

Se a compararmos com os dias de hoje ela não é diferente de tantas mulheres que se matam em academias, clinicas de estética, etc. para alcançar um ideal de beleza surreal em busca de um romance no estilo “Uma linda mulher” ou “Proposta Indecente” e mais recentemente “50 tons de cinza”. Não se satisfazendo com relacionamentos reais e sempre buscando o príncipe encantado.

Ninguém vive com o coração aos saltos de paixão, nem festas são capazes de preencher o vazio da alma. Mas Emma deslumbrada coloca estas duas coisas em um pedestal ressentindo-se de não estar entre as nobres condessas – que considera menos do que ela própria em beleza e refinamento – e assim atira as pérolas da própria inteligência ao abismo.

É interessante que o marido valoriza mais a inteligência dela do que ela mesma. Ele reconhece os talentos que ela desperdiça um a um na busca hedonista.

* Daniela A. Cavallari é Bacharel em Literatura pela UFG, apaixonada por literatura, leitora compulsiva.

Referencial bibliográfico:

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. RJ: José Olympio, 1998.

FLAUBERT, Gustave.  Madame Bovary. Tradução  Enrico Corvisieri. São Paulo: Editora Nova Cultura Ltda, 2003, p. 414.

 

MADAME BOVARY. 1991. França. Direção: Claude Chabrol. Elenco: Isabelle Huppert, Jean-François Balmer, Christophe Malavoy, Jean Yanne.Gênero: Drama:136 minutos.

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