Publicado em 08 de Dezembro de 2018

OGRAS TAMBÉM FAZEM HISTÓRIA

Por Danielle Silva Moreira dos Santos*

A formação acadêmica de pessoas que frequentem um curso de história prevê, especialmente nas aulas de teoria e metodologias, uma intensa carga de leitura das obras de pesquisadores que colaboraram com a instituição e consolidação do conhecimento histórico desde o século XIX. Entretanto, não são todos os/as estudantes que conseguem perceber que os historiadores famosos do século XIX e início do XX tiveram dificuldade em “farejar” outra carne que não fosse carne masculina[1]. A imensa maioria dos personagens, enredos e eventos narrados por renomados historiadores, até meados do século XX, parecem contemplar apenas a si e aos seus.

Os avanços historiográficos do século XX foram determinantes para que surgisse o interesse pela “outra metade do gênero humano”. Afinal, o que faziam as mulheres enquanto os homens “construíam a nação”? Os Annales romperam com as visões históricas centradas em questões políticas, típicas do positivismo e do historicismo, aproximaram a história de outras ciências humanas e trouxeram perspectivas sociais e econômicas que revolucionaram a maneira de se fazer história, mas ainda assim, os intelectuais dos Annales não tomaram as diferenças entre os sexos como uma categoria de análise em suas pesquisas.

A História Cultural foi responsável pelas inovações que faltavam para que as mulheres fossem, enfim, reconhecidas como objeto de estudo histórico. Nesse sentido, desde 1960 o terreno para o surgimento de uma história voltada para atuação das mulheres, estava preparado. Entretanto, seria demasiado simples e insuficiente restringir o advento desse novo campo de estudo, apenas às renovações teóricas e metodológicas, sem considerar especificamente o contexto de intensa movimentação social e política que marcou a década de 1960.

Nestes anos, nos países Ocidentais, as mulheres passaram a ingressar reiteradamente nas universidades, rompendo, paulatinamente com os discursos que, por séculos, as afastaram do conhecimento científico e acadêmico. Discursos médicos, jurídicos e religiosos que enfatizavam uma incompatibilidade da suposta “natureza feminina” com qualquer trabalho desenvolvido fora do ambiente familiar e doméstico.

O movimento feminista que se organizou sistematicamente, a partir do final do século XIX, chegou como uma imensa “onda” aos Estados Unidos em 1970, prometendo arrasar todos aqueles saberes (não só o saber histórico) que perpetuavam o silêncio das mulheres. Nas ruas as mulheres protestavam e discutiam sobre maternidade, concepção, sexualidade, racismo, violência e nas universidades por todo país cresciam os women’s studies. O ano de 1975 foi celebrado como ano internacional das mulheres pela ONU, que também declarou o período de 1976 e 1985 como a década das mulheres. Da América, essas propostas invadiram também a Europa, ajudando a repensar o lugar da mulher na sociedade e na história. Vieram também para o Brasil, apesar do contexto de cerceamento das liberdades individuais e dos direitos políticos.

Foi nesse cenário que várias historiadoras e historiadores começaram a considerar as desigualdades entre homens e mulheres ao longo do tempo, como ponto de partida em suas reflexões, criando, inclusive, conceitos e ferramentas teóricas específicas para isto, como o conceito de gênero, que acabou sendo articulado a outras categorias, como classe e raça, por pesquisadores e pesquisadoras interessadas em aprofundar os estudos sobre as opressões estruturais e as relações de poder que compõem a sociedade. Com a emergência e articulação desses conceitos e categorias os estudos, que antes permaneceram centrados nas mulheres de forma essencialista e universalista, buscaram enfatizar especificamente alguns grupos de mulheres, como negras e indígenas, e se estenderam também a outras minorias como homossexuais.

Com o desenvolvimento desse campo de estudos fez-se necessário também dar devida atenção a todas as fontes históricas, não apenas aos documentos escritos e oficiais, que por muito tempo foram consagrados como as únicas fontes aceitas para a produção de um conhecimento legítimo sobre o passado. Atualmente, um/uma historiadora das mulheres e das relações de gênero, busca suas personagens nas fotografias, pinturas, diários íntimos, cartas, roupas, nos jornais, revistas, folhetos, produções literárias, músicas, boletins médicos, processos criminais e judiciais etc.

Dessa forma, é interessante resaltar que foi justamente o acesso à educação e consequentemente a entrada das mulheres no ensino superior que possibilitou que elas se tornassem não apenas pesquisadoras, mas também objetos de estudo. Nesse sentido, as autoras puderam refletir e escrever sobre tudo aquilo que havia sido, por muitos anos, negligenciado pela história produzida exclusivamente na perspectiva masculina. Não podemos deixar de citar que esse campo de estudo precisou se impor dentro dos centros acadêmicos, frente a enorme resistência de parte dos pesquisadores mais catedráticos e conservadores.

A história é um conhecimento cujo processo de produção não se desvencilha da escrita e da leitura, sendo ambas imprescindíveis para a (re)construção do passado. Mas quando nos propomos a refletir sobre o acesso à leitura e a escrita, e ao conhecimento de modo geral, percebemos que os caminhos trilhados por homens e mulheres foram distintos. Desde a antiguidade filósofos acreditavam na inferioridade intelectual da mulher e até séculos mais tarde, entre os iluministas, a educação era considerada algo desnecessário para as mulheres. A princípio a defesa da educação era apenas uma maneira de conscientizar as mulheres a respeito dos papéis que lhes eram socialmente atribuídos como naturais e sagrados e assim garantir o pleno exercício de seus deveres maternais e matrimoniais, ou seja, a instrução não necessariamente tinha o objetivo de formação intelectual ou emancipação[2].

Ainda assim, o domínio das letras foi imprescindível para que aquelas que almejavam atuar na vida pública levassem adiante seus projetos de vida. Inclusive, a crença de que o magistério era uma profissão feminina por excelência, de certa forma também ajudou as mulheres a trilharem os caminhos para a profissionalização e inclusão no ensino superior. No Brasil as mulheres letradas lideraram movimentos feministas através de instituições como a Federação Brasileira Pelo progresso Feminino (1922), se organizaram para produzir jornais e revistas com o intuito de formar a opinião pública e angariar apoio em torno de reivindicações como o sufrágio, conquistado em 1932 e o divórcio aprovado em 1977. Obviamente, essas mulheres foram muito criticadas por tamanha ousadia, eram acusadas de “masculinizar” a população feminina, retirá-las do recinto doméstico, desvirtuá-las e desviá-las de suas funções “naturais”. A campanha antifeminista tentava a todo custo anular as mobilizações das mulheres, clamando pelo retorno e permanência delas no lar, insistindo, em um tom de ameaça, nos supostos perigos aos quais elas estariam expostas caso desejassem ser mais do que sua “natureza” permitia.

Salvo algumas iniciativas anteriores, foi a partir da segunda metade do século XX que trabalhos sobre as mulheres foram surgindo no campo dos estudos históricos. Nos EUA destacamos o trabalho de Joan Scott[3] que resgatou a atuação daquelas que lutaram pelos seus direitos durante a Revolução Francesa e Natalie Zemon Davis[4] com sua pesquisa sobre mulheres nas religiões cristãs e judaica no século XVII. Na França a historiadora Michelle Perrot[5] foi uma das primeiras a denunciar categoricamente a ausência das mulheres na história, defendendo que estas foram “silenciadas”, assim como outras minorias.

No Brasil várias historiadoras e historiadores também começaram a se incomodar com a ausência das mulheres na história e também desconfiaram que as diferenças entre os sexos não era apenas de ordem natural, mas que também possuíam uma face histórica e cultural que precisava ser pensada e discutida.

O trabalho A mulher na sociedade de Classe, mito e realidade, de Heleieth Saffioti publicado em 1969 é considerado um marco fundador no Brasil. Os trabalhos femininos, principalmente nas fábricas, continuaram sendo a grande temática nos anos de 70. Em 1980, Eni Mesquita Samara escreveu A família na sociedade paulista do século XIX, e a partir dos anos 80 e 90 as questões sobre casamento, família, maternidade, sexualidade e religião se fortaleceram. Sobre violência e prostituição, destacamos Raquel Soihet com Condição feminina e formas de violência: mulheres pobres e ordem urbana (1989) e Margareth Rago com a publicação de Os Prazeres da Noite. Prostituição e códigos da sexualidade feminina em São Paulo (1990). Os estudos sobre a participação das mulheres na vida política do país também tiveram uma enorme relevância, Ana Maria Colling foi responsável por refletir sobre a conquista da cidadania pelas mulheres em A construção da cidadania feminina no Brasil: Igualdade e diferença (2000) e o debate acerca da conquista do voto foi desenvolvido por Monica Karawejczyk em As Filhas de Eva querem votar: dos primórdios da questão à conquista do sufrágio feminino no Brasil (2003). Houve também a publicação de importantes coleções que reuniram artigos de várias temáticas como A história das mulheres no Brasil (1997) organizada por Mary Del Priore e A Nova História das mulheres no Brasil (2013) sob a responsabilidade de Carla Pinsky e Joana Maria Pedro.

Todo o trabalho e empenho dessas e tantas outras pesquisadoras trouxeram à tona grandes figuras até então apagadas. As mulheres passaram a aparecer nas ementas e nos programas dos cursos, passaram a povoar também, ainda que de maneira esporádica e pontual os livros didáticos de história. As memórias delas passaram a serem preservadas e evocadas em eventos, palestras, colóquios e em linhas de pesquisa de programas de pós-graduação por todo Brasil.

Mas longe de cometer os mesmos deslizes que os primeiros historiadores com seus grandes “heróis”, a história das mulheres tem evitado rotular as mulheres como mocinhas ou vilãs e atualmente vem se concentrando cada vez menos em grandes narrativas e biografias, ainda que elas sejam importantes. O momento atual é de dar evidência às mulheres “sem rosto e sem nome”. Ao mesmo tempo as próprias investigações que até então estavam concentradas nos grandes centros como Rio de Janeiro e São Paulo, também passaram, nas últimas décadas, por uma mudança de foco, se redirecionando cada vez mais para o interior do país com a criação de revistas e a organização de grandes congressos e grupos de estudos[6].

Os estudos de gênero e da história das mulheres buscam tornar perceptível a dimensão sexuada de sociedades anteriores. Os estudos sobre as mulheres promoveram, e ainda promovem uma revisão crítica dos princípios e dos critérios que as/os profissionais do passado lançavam mão, e isso proporciona uma mudança constante e significativa em relação não só aos paradigmas da própria disciplina histórica, como de todos os fundamentos epistemológicos Ocidentais, uma vez que, fazer história partindo das diferenças socialmente e culturalmente instituídas entre homens e mulheres e ao mesmo tempo ressaltar que a categoria mulheres também não é única e fechada, mas plural e diversa, é uma maneira de problematizar o sujeito universal consagrado com o Iluminismo, desconstruir as perspectivas essencialistas, questionar a neutralidade de qualquer conhecimento e por fim a visões binárias que limitam e prejudicam o desenvolvimento do pensamento.

A despeito das dificuldades de ingressar na academia e da falta de reconhecimento e valorização de suas produções, muitas mulheres foram rompendo o monopólio masculino dos conhecimentos científicos e acadêmicos. Paralelamente ao desenvolvimento da historiografia, o “segundo sexo” foi conquistando novos espaços, novos direitos, fazendo notar-se e se fazendo ouvir dentro e fora da universidade. É inegável que o mundo acadêmico foi um espaço privilegiado para o fortalecimento de pautas e demandas, parte dessas pautas (infelizmente, ainda não todas) alcançaram a sociedade, e impactaram positivamente a vida de milhares de mulheres, mas ainda há muito o que avançar nos estudos e nas conquistas.

A história das mulheres não precisa, e nem deve ser escrita à parte, como se fosse um apêndice na história “masculina”, a história das mulheres é, por si só, a própria história da humanidade. E sendo assim, neste magnífico palco da História, não interpretemos bruxas, ou santas, não sejamos nem princesas, nem rebeldes. Sejamos as ogras esquecidas pela História. Façamos História pela perspectiva “ogra”. Farejemos mulheres, cacemos corpos e os pensamentos de mulheres, conscientes de que tudo que é “de mulher” permanece intimamente ligado ao contexto social, político e econômico de cada época e que sendo assim as mulheres de ontem, de hoje e de amanhã nunca serão as mesmas. Sejamos as ogras que amedrontam e incomodam pelo simples fato de serem ogras, ogras que se importam com as outras, ogras que escrevem (suas) Histórias.

Danielle Silva Moreira dos Santos é Mestra em História pela UFG.

[1] Alusão à obra Apologia da História ou o ofício do Historiador de Marc Bloch.

[2] TEDESCHI, Losandro. História das Mulheres e as representações do feminino na História. Campinas: Curt Nimuendajú, 2008.

[3] SCOTT, Joan W. A cidadã paradoxal: As feministas francesas e os direitos dos homens. Florianópolis: Mulheres, 2002.

[4] DAVIS, Natalie Zemon; FEIST, Hildegard. Nas margens: três mulheres do século XVII. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

[5] PERROT, Michelle. As mulheres, ou, os silêncios da história. Bauru- SP: Edusc, 2005.

[6] MATOS, Maria Izilda Santos. História das mulheres e das relações de gênero: Campo historiográfico, trajetórias e perspectivas. Mandrágora, v.19. n. 19, 2013, p. 5-15.

REFERÊNCIAS

COLLING, Ana Maria; TEDESCHI, Losandro Antonio (Org.). Dicionário Crítico de gênero. Dourados: UFGD, 2015.

SOIHET, Raquel. História das mulheres. In: CARDOSO, Ciro Flamarion; VAIFAS, Ronaldo (Orgs). Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia. Rio de janeiro: Campus, 1997.

DOSSIE FEMINISMOS.  Revista de História da biblioteca Nacional. Rio de Janeiro, Ano 10, n° 113, 2015.

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