A ironia do destino de Cussy de Almeida Júnior

Por João Neto

13 de Jan de 2019

Rua Cussy de Almeida Júnior, em Araçatuba - SP

Araçatuba é um município do interior de São Paulo, com aproximadamente 200 mil habitantes. Uma de suas principais ruas chama-se Cussy de Almeida Júnior. Com 5 quilômetros de extensão, a rua corta dez bairros da cidade: ela nasce no Jardim Sumaré e termina no Pedro Perri. Todos os dias, milhares de pessoas passam por ela, mas elas não imaginam quem foi essa personagem que dá nome ao logradouro e nem a curiosa história de sua morte. Para te contarmos a história dele, precisamos voltar ao estado de São Paulo, em 1938.

 

Entre 27 de abril de 1938 e 5 de junho de 1941, São Paulo foi governado pelo médico e político Adhemar de Barros [1901-1969]. Foi o primeiro de três mandatos. E uma de suas paixões era a aviação, que ainda dava seus primeiros passos. Tanto é que vários aeroportos de São Paulo, como Presidente Prudente e Rio Claro, têm seu nome. E em uma época em que os governadores poucas vezes se afastavam da capital, Adhemar de Barros adquiriu aviões para se locomover pelo interior do estado e, assim, acompanhar pessoalmente as obras e, consequentemente, ampliar seus contatos políticos.

 

No dia 1 de outubro de 1938, Adhemar de Barros iria se deslocar da capital para a cidade de Araçatuba, onde iria inaugurar um estádio. Para isso, formou uma comitiva e, entre ela, estava o assessor, amigo e colega de profissão, Cussy de Almeida Júnior. O problema era que Cussy não gostava de viajar de aviões. Naquela época, a maioria não gostava. De fato, era um transporte muito arriscado. Na véspera da viagem, ele procurou seu amigo e também assessor de Adhemar, o jornalista Mario Beni, e disse que estava com mau pressentimento e não queria realizar aquela viagem. Cussy então pediu que Mario fosse em seu lugar. Mario ficou com medo de fazer a troca escondido de Adhemar, mas acabou cedendo ao insistente pedido do amigo. Mario sabia que Adhemar fazia questão da presença de Cussy, pois este era de Araçatuba.

 

No dia marcado para a viagem, um sábado, chegaram ao aeroporto de Congonhas, onde dois aviões Fairchild F24 aguardavam a comitiva. A ideia era esperar Adhemar embarcar em um deles e, depois, Cussy trocar de lugar com Mario no outro avião. Foi exatamente assim que aconteceu. Depois que Adhemar embarcou, no outro avião, Cussy saiu e cedeu lugar a Mario Beni. Do lado de fora do avião, respirou aliviado.

Avião Fairchild F24 que levava Adhemar e Cussy

Por ironia do destino, ou como se desconfiasse de algo, antes da decolagem, Adhemar resolveu verificar o outro avião. Para sua surpresa, constatou que Cussy havia desembarcado, com medo. Ao ver Beni, mandou-o sair do avião e, virando-se para Cussy, disse: “deixe de ser cagão e volte logo para o seu lugar”. Cussy não teve escolha e embarcou no avião. Às 08h30min eles decolavam de São Paulo.

 

Ao chegar em Araçatuba, Adhemar e seus companheiros perceberam que o outro avião não pousara junto. Uma sensação ruim tomou conta de todos até que, finalmente, foram informados da tragédia: enquanto sobrevoavam a cidade de Laranjal, um manto de neblina impediu a visibilidade do piloto, e o avião se chocou com a serra Piramboia. Os corpos foram recolhidos e levados ao IML de Sorocaba e, depois, levados de trem para São Paulo, onde foram velados no palácio do governo.

Notícia da tragédia em jornal da época

O governador Adhemar de Barros decretou luto oficial de três dias. O funeral foi custeado pelo governo de São Paulo. Com a tragédia, a inauguração do estádio foi adiada, vindo a acontecer somente em 23 de julho de 1939. Na ocasião, Adhemar de Barros e o então prefeito de Araçatuba, Aureliano Valadão Furquim, também inauguraram a rua Cussy de Almeida Júnior, em homenagem ao médico conterrâneo que tentou escapar da morte mas, por ironia do destino, acabou morrendo. Para quem acredita que todo mundo tem a sua hora certa, essa história é, sem dúvida, um prato cheio.

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