20 de novembro: dia da consciência negra

Por João Neto

18 de Nov de 2018

Quando uma festa se aproxima, as garotas correm para ficarem mais bonitas. Algumas procuram uma pranchinha ou vão ao salão fazer a famosa escovinha no cabelo. Tudo para ficarem com os fios bem lisinhos. Nessa busca, muitas propagandas de xampu prometem ajudar. O que quase ninguém sabe é que a valorização do liso como cabelo ideal é uma construção cultural em nossa sociedade, que tem por tradição histórica copiar o padrão do biótipo europeu como exemplo de beleza, em detrimento do padrão africano e negro.

 

O dia 20 de novembro é lembrado como o dia da consciência negra (Lei 12.519 de 2011). Diante do que foi descrito acima, percebemos a sua pertinência. É um momento para refletirmos. Diante disso, faço um convite neste texto. Façamos uma reflexão sobre a Bíblia e os negros. Por quê? Porque, você reconhecendo ou não, a Bíblia tem um papel importante no imaginário brasileiro. Não podemos ignorá-la. Antes, é preciso estudá-la, principalmente do ponto de vista histórico.

 

A Bíblia como legitimadora da escravidão dos negros

 

Milhões de negros foram forçadamente trazidos da África para o Brasil durante o período colonial e o império. Um dos argumentos religiosos para justificar tal prática era que, ao trazê-los para serem escravos na América, eles eram tirados das religiões pagãs para supostamente conhecerem a verdade do cristianismo. O argumento era baseado na passagem bíblica da venda de José como escravo (Gn 38.27-28). Assim como José teve sua vida salva por ser vendido como escravo, os africanos teriam suas almas salvas na mesma condição.

 

Além do erro hermenêutico, tal argumento é historicamente falso. O cristianismo já era uma realidade na África e alguns negros já chegaram à América convertidos ao cristianismo. Portanto, devemos lembrar que os negros começaram a história do Brasil em desvantagem. Foram covardemente explorados pelos brancos, e é por isso que se diz que, historicamente, a nossa sociedade tem uma dívida com eles.

 

Além do argumento da conversão, a Igreja Católica afirmava na Idade Média (e muitos evangélicos insistem nisso atualmente) que os africanos eram descendentes de Caim (Gn 4.8), que matou Abel, e de Can, filho de Noé, que foi amaldiçoado a ser escravo dos seus irmãos, porque havia desrespeitado seu pai (Gn 9.27-27). Da palavra Can veio Canaã (atual Palestina, que os hebreus conquistaram, conforme o livro de Êxodo) e Cananitas (os inimigos de Israel na Bíblia). Como podemos observar na literatura dos sermões alegóricos do padre Antônio Vieira (1608-1697), a África era o inferno, onde a alma dos negros eram cativas. Trazendo-os para o Brasil, estavam supostamente trazendo-os para o purgatório, onde, por meio do corpo cativo, pagariam os pecados para alcançar a futura liberdade da alma no céu.

 

Como os hebreus, que deixaram o Egito e viveram no deserto antes de chegar a Canaã, os negros deixavam a África e viviam no Brasil como preparo para a futura vida celestial. A dívida social e histórica agrava-se se pensarmos que vozes como a do próprio padre Antônio Veira, que se levantavam em defesa dos índios, nada diziam em defesa dos negros.

 

A Bíblia não se pronuncia sobre brancos e negros no sentido de uma explicação do porquê existir tal diferença de cor de pele, mas apresenta vários negros que tiveram um papel relevante. O mais famoso deles, por exemplo, foi Ebede-Meleque, um etíope que salvou o profeta Jeremias de uma cisterna (Jr 38.6-11). O texto bíblico de Jr 13.23 afirma que ele era negro (כושי). Também encontramos um negro que foi evangelizado por Filipe (At 8.27-38). A rainha de Sabá, que visitou Salomão, provavelmente era negra, pois também viera da África (1 Rs 10.1). Portanto, uma interpretação bíblica socialmente responsável deve levar em conta Gl 3.28, quando Paulo afirma que em Cristo não há diferença de etnia, pois todos são iguais para Deus.

 

A Bíblia como inspiração contra a escravidão dos negros

 

Durante o período do regime militar, os professores do que hoje seriam os ensinos fundamental e médio, não podiam despertar uma consciência crítica nos alunos. Assim, a História passou a ser ensinada somente como forma de decorar nomes e datas. Por meio da exaltação de políticos do passado, havia o desejo de inculcar nas pessoas uma confiança cega nos seus governantes. Divulgou-se que a escravidão acabara por decisão da princesa Isabel, quando ela assinou a Lei Áurea (1888), sem explicar o respectivo contexto social.

 

Como reação à falta de reflexão do período militar, predominou uma formação de orientação marxista. Ela tentava explicar tudo por um viés econômico. Assim, diziam, a escravidão teria acabado porque a Inglaterra estava vivendo a Revolução Industrial e precisava de trabalhadores assalariados que pudessem adquirir seus produtos. Uma explicação um tanto quanto superficial, já que os negros, uma vez libertos, não tinham a menor condição econômica de adquirirem produtos industrializados.

 

Tanto a explicação meramente descritiva de eventos, como a explicação marxista, pecam por não levar outras questões em consideração. Fato é que, se, por um lado, alguns cristãos promoveram a escravidão, por outro lado, também a denunciaram. Se a escravidão acabou, também foi por causa da ação de vários cristãos, entre eles aqueles oriundos do denominado grande avivamento espiritual do século XIX, principalmente da Igreja Metodista na Inglaterra, que lutaram com grande entusiasmo pelo fim da escravidão, entre eles, John Wesley (1703-1791), tendo por motivação a inadequação da escravidão com a dignidade humana.

 

A luta contra a escravidão não acontecera por uma motivação exclusivamente política ou exclusivamente econômica, mas também religiosa. Depois do fim da escravidão, entre os batistas, no século XX, destacou-se a luta pelos direitos civis dos negros liderados pelo reverendo Martin Luther King Júnior (1929-1968).

 

A situação dos negros na atualidade

 

A História é um processo complexo, onde mudanças políticas ocorrem de um dia para o outro, mas mudanças de mentalidade levam séculos. Por isso, mesmo com o fim da escravidão, a situação prática da vida cotidiana dos negros não mudou. Eles continuaram sendo desprovidos economicamente, sem influência política e vítimas de preconceito. Um exemplo disso é que, mesmo com a vitória dos abolicionistas na Guerra de Secessão, em 1861, nos Estados Unidos, houve a necessidade da luta de Martin Luther King Júnior, um século depois, para que os negros tivessem o direito de sentar em um ônibus coletivo. Mesmo conquistando liberdade política no século XIX, ainda eram cativos ideologicamente no século seguinte, como você provavelmente já assistiu no seriado Todo mundo odeia o Chris. E somente no século XXI um negro foi eleito presidente dos Estados Unidos. Será que no Brasil é diferente?

 

Em 2012 a presidente Dilma sancionou a lei 12.711/2012 que estabelece que parte das vagas das universidades públicas devem ser destinadas aos negros. Há uma argumentação afirmando que a lei é injusta, pois brancos e negros são iguais. Do ponto de vista do organismo físico são iguais, mas, do ponto de vista do organismo social, não há igualdade. Além da dívida histórica, numa sociedade dividida por classes econômicas, os negros estão predominantemente entre os menos providos economicamente.

 

É interessante pensar que um argumento usado contra as cotas acaba sendo, na verdade, um argumento favorável. Trata-se de um meme do ex-ministro Joaquim Barbosa com a legenda de que ele não precisou de cotas para fazer faculdade e tornar-se ministro do Supremo Tribunal Federal porque, ao invés de cotas, ele preferiu estudar. Se considerarmos que ele é uma exceção, e não regra, o meme que era para ser um argumento contra, acaba sendo um argumento favorável. Basta pensar que de 11 ministros do referido tribunal, somente 1 era negro. De todas as universidades do país, você já parou pra pensar quantas têm um reitor negro? Ou quantos professores universitários são negros?

 

Da mesma forma, divulgar que o ministro Joaquim Barbosa se tornou ministro porque ele estudou, como a imagem que circula nas redes sociais, pressupõe que os outros negros não chegaram ao topo da carreira porque não estudaram, o que não é verdade, e só demonstra que o preconceito ainda existe. Preconceito que, sorrateiramente, se infiltra em vários momentos, inclusive quando alguém escolhe um penteado para o cabelo sem saber de toda a conjuntura em que isso está inserido, como no exemplo do início deste texto.

 

Por serem majoritariamente pertencentes às classes menos favorecidas, os negros moram em casas precárias, muitas vezes distantes das boas escolas. Além disso, têm uma alimentação de menor qualidade, somada à falta de acesso a bons materiais didáticos. Muitas vezes, precisam trabalhar cedo para ajudar no sustento da família e chegam cansados para as aulas. Será que serão iguais aos brancos no desempenho dos estudos? Terão o mesmo desempenho? Estarão aptos para disputar uma vaga de igual para igual?

 

Conclusão

 

Em cada época da História, os cristãos responderam aos desafios do momento de uma forma. Vimos que durante a colonização europeia do Brasil, os cristãos foram predominantemente favoráveis à exploração dos negros. Por outro lado, vimos que no século XIX, muitos cristãos lutaram pela justiça social. Se você é cristão, com qual dos dois grupos você se aproxima mais?

 

Neste 20 de novembro, convido você, branco ou negro, a se lembrar que o Estado será injusto se cobrar de todos os mesmos deveres, ou se oferecer a todos os mesmos direitos, pois, dos poderosos e dos mais ricos, incumbe-lhe cobrar mais, e aos mais fracos e aos mais pobres, oferecer mais, até porque deles, tomou e toma mais. A justiça social que deveria reger o Estado se baseia na máxima de tomar de cada um de acordo com suas possibilidades para dar a cada um de acordo com suas necessidades. Não! Isso não é comunismo. Isso é um ensino bíblico: At 4.34.

whatsapp-logo-1.png

Comentários

Ogro nas redes

  • Perfil do Ogro Historiador
  • Instagram

2018 Ogro Historiador | Ao reproduzir qualquer conteúdo deste portal, dê os créditos.