Dia do Historiador: entre questões & comemorações

Por Thiago Damasceno

19 de Ago de 2020

Hoje, 19 de agosto, celebra-se aqui no Brasil o Dia do Historiador. Curiosamente, ontem foi promulgada a Lei nº 14.038, de 17 de agosto de 2020, que dispõe sobre a regulamentação da profissão, uma luta da nossa categoria desde a década de 1960. Apesar dessa vitória, ainda temos muitas questões.

Esses questionamentos vêm do passado e também do atual momento que vivemos: uma pandemia nefasta que vem sendo há meses intensificada por um governo federal incompetente. O atual governo é um Caronte que povoa seu barco rumo ao Submundo com falsos moralismos, cristianismos deturpados, violências e discursos baseados em realidades imaginárias. Quem apoia esse barqueiro transita entre as águas turvas da crueldade e da estupidez. Essa Barca da Morte desagua no futuro formado pelo longo passado que temos pela frente, tomando aqui de empréstimo a famosa frase do artista Millôr Fernandes.

O projeto político do atual governo federal reúne todos os males, problemas e ranços jamais superados pelo Brasil em suas totalidades: racismo, misoginia, profunda desigualdade social, desprestígio à educação e ao conhecimento científico e outras violências materiais e simbólicas. Infelizmente, nosso país joga por terra a ideia de que o amanhã será melhor do que ontem, de que o futuro é a superação do passado.

Essa noção linear e progressiva da história está presente há tempos nas religiões monoteístas, mas foi desenvolvida cientificamente com o Iluminismo e suas heranças desde o século XVII. Essa noção é bastante questionável pois a história do mundo é formada por processos complexos, não apenas por rompimentos e seus consequentes avanços – como pressupõe o ideal de progresso linear e constante. A história de qualquer povo é um processo social e temporal com rupturas e continuidades. Desse modo, nem sempre o passado é algo morto e superado e nem sempre o futuro é um amanhã florido e paradisíaco.

Também é bastante questionável a ideia de tempo cíclico ou de história repetida, muito defendida nestes tempos pelas redes sociais. Por exemplo, a repressão política voltou forte com o governo atual. Ela tem semelhanças, mas não é a mesma repressão dos tempos ditatoriais. Cada temporalidade é única. Sempre há semelhanças e pontos de contato entre distintas temporalidades, mas cada experiência no tempo e no espaço é singular e não se repete do mesmo modo.

Assim, neste Dia do Historiador no Brasil transitamos entre questões e comemorações. A data foi promulgada pela Lei nº 12.130/2009 em homenagem ao diplomata e historiador pernambucano Joaquim Nabuco (1849-1910). Essa rememoração carrega no seu cerne as próprias discussões que envolveram Nabuco e seu tempo que, mesmo de modo diferente, ainda são temas que nos são muito caros, como o racismo e a desigualdade social.

Datas como hoje devem ser celebradas, mas sem esquecermos as muitas questões que nos fazem recordar das lutas e do problemático passado que ainda temos pela frente.

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