Dia Mundial do Hijāb

1º de Fev de 2022

No dia 1º de fevereiro de 2013 foi instituído o World Hijāb Day (Dia Mundial do Hijāb), movimento fundado pela muçulmana Nazma Khan. Nascida em Bangladesh e residente em New York desde os onze anos, Khan criou a campanha para combater a islamofobia e a intolerância religiosa. Para isso, o movimento convida mulheres (não muçulmanas e/ou muçulmanas que não usam o véu) a experimentarem o hijāb por um dia e postarem suas fotos nas redes sociais. Esses atos são uma forma de expressar aceitação e apoio a quem usa o véu islâmico. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nazma Khan. Disponível em : https://worldhijabday.com/our-story/

 

Atualmente, mulheres de cerca de 190 países participam do movimento todo ano. Setores tradicionais da mídia também têm dado cobertura à campanha como New York Times, BBC, CNN, Al Jazeera, Huffington Post e outros. Em 2017 a campanha foi reconhecida pelo Estado de New York. Desde então pessoas e grupos políticos da Escócia e do Reino Unido também vêm apoiando o movimento. 

A Organização Dia Mundial do Hijāb se tornou em 2017 uma organização sem fins lucrativos. O objetivo principal do grupo é combater o preconceito contra as muçulmanas por meio da educação. E três anos depois, em 2021, Nazma Khan também fundou o Mês Internacional da História Muçulmana. Inclusive o Estado de New York instituiu maio como o Mês da História Muçulmana mediante uma resolução do Senado (nº J718).

 

Mas Qual é o Sentido do Hijāb paras as Muçulmanas?

Como constata a antropóloga Francirosy Ferreira (2013), o hijāb é encarado como um problema mais pelo Ocidente ou pelo mundo não muçulmano do que pelas muçulmanas ou comunidades islâmicas. Isso mostra que esse “problema” envolve preconceitos negativos e formas estereotipadas nocivas de encarar o Outro. É preciso conhecer aspectos da teologia, da história e das sociedades islâmicas para compreender a importância do hijāb para as muçulmanas. 

 

No seu capítulo 33, versículo 59, revelado/editado em Medina, o Alcorão registra o seguinte: “Ó Profeta! Dize a tuas mulheres e a tuas filhas e às mulheres dos crentes que se encubram com suas roupagens. Isso é mais adequado, para que sejam reconhecidas e que não sejam molestadas. E Allāh é Perdoador, Misericordiador” (ALCORÃO, 2005 p. 692). 

 

Perceba que esse discurso alcorânico fala em “roupagens” e “coberturas”, não especificando o tipo de roupa ou mesmo de véu. A partir dessa prescrição alcorânica, pode-se interpretar que o uso do hijāb é uma determinação religiosa. Contudo, cabe a cada fiel seguir ou não, até mesmo porque o princípio do livre arbítrio também faz parte da religião islâmica. 

 

Além disso, outros fatores envolvem a questão do uso do véu como costumes familiares, tradições locais e regimes políticos. O mundo islâmico é muito diverso. Isso não significa negar os problemas derivados do machismo e contextos que envolvem opressão contra mulheres, e sim reconhecer que há muitos cenários dentro do Islām. Por isso é muito complicado fazer afirmações categóricas sobre o que os muçulmanos e muçulmanas devem ou não fazer. Concordando com Ferreira (2013), vejo também que não é vantajoso para a compreensão do Outro entender as muçulmanas como submissas ou oprimidas pelo véu e como “coitadinhas” que precisam ser salvas por agendas políticas que não contemplem de fato suas demandas. 

 

O hijāb e outros tipos de véu (xador, niqāb, burca, etc.) são expressões de devoção religiosa, de modéstia e de adoração a Deus. É “[...] algo diacriticamente contextualizado e vinculado ao reconhecimento da identidade cultural feminina de determinado grupo social” (BARBOSA, 2013, p. 188). Ou seja, o véu é um símbolo de religiosidade e identidade, é uma forma de pertencimento de mulheres aos seus grupos sociais. 

 

Entendido isso, percebo também que há um comportamento social condicionado de se estranhar as muçulmanas que usam hijāb, como se elas fossem seres de outro planeta ou muito diferentes de nós. Isso é muito curioso, pois o maior exemplo de devoção religiosa feminina no Cristianismo é Maria de Nazaré, que... usa hijāb em quaisquer imagens que a representam! Além disso, freiras também fazem parte do cotidiano de qualquer país católico. Por que então se considera apenas as muçulmanas como erradas, estranhas ou oprimidas pelo véu?

Essa é uma questão de valoração do Outro e de estereótipos. Se quiser saber mais sobre, leia meus textos sobre o tema: O que você pensa sobre os muçulmanos? e Quem é mais religioso: cristãos ou muçulmanos? 

 

Voltando à questão anterior: Por que o véu de Maria de Nazaré ou das freiras não espanta ninguém? O véu como modéstia não nasceu no mundo islâmico e nem é exclusivo do Islām. Há muitas histórias por trás do tema. 

 

Qual é a Origem do Véu?

É difícil identificar uma origem histórica precisa do véu. Quando pensamos em Oriente Médio, observamos que a vestimenta foi e é um costume de diferentes sociedades ao longo da história.

Por exemplo, nas sociedades mesopotâmicas de 4 mil anos atrás o véu era utilizado por mulheres ricas, sendo proibido para escravizadas e mulheres pobres. Na Idade Média, era usado por cristãs bizantinas, judias e árabes politeístas. O Islām nasceu em Meca no século VII, em meio a um caldeirão de povos e culturas que influenciavam a região: árabes, cristãos, judeus, persas, bizantinos e africanos orientais. Fato é que a religião islâmica assimilou e ressignificou o véu, dando-lhe um sentido de adoração ao Deus Único (Allāh). Assim, à medida que se tornavam muçulmanas, as árabes continuaram a usar o véu que já era tradicional na Península Arábica. 

 

Com o passar do tempo e com a expansão islâmica para regiões além da Arábia, o uso do hijāb continuou ou cresceu. Como dito antes, é difícil verificar até que ponto a vestimenta era uma novidade em certos locais ou não. Mas provavelmente o uso do véu foi se ressignificando com o avanço dos domínios muçulmanos, sendo entendido então como hijāb, o véu islâmico mais comum.

O Islām continua conquistando mais crentes por todo mundo. Junto a isso, infelizmente, também cresce a islamofobia. Uma educação analítica e humanizada é necessária para combatermos preconceitos negativos e estereótipos danosos sobre grupos religiosos. Nesse sentido, movimentos como o World Hijāb Day são mais que necessários.

Referências

ALCORÃO. Português-árabe. Tradução do sentido do Nobre Alcorão para a língua portuguesa. Tradução e notas explicativas: Doutor Helmi Nasr. Medina: Complexo do Rei Fahd, 2005.

Disponível em:

www.islambr.com.br/wp-content/uploads/2019/03/alcorao_sagrado_helmi.pdf       

 

DANIEL, Isaura. Campanha mundial apoia o uso do hijab. Agência de Notícias Brasil-Árabe (ANBA), 1º fev. 2021.

Disponível em: https://anba.com.br/campanha-mundial-apoia-o-uso-do-hijab/

 

FERREIRA, Francirosy Campos Barbosa. Diálogos sobre o uso do véu (hijab): empoderamento, identidade, religiosidade. Perspectivas, São Paulo, v. 43, jan.-jun. 2013, p. 183-198.

Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/perspectivas/article/view/6617/4864

 

SZKLARZ, Eduardo. Sob o véu. Aventuras na História, São Paulo, Edição 84, jul. 2010, p. 28-35.

 

WORLD HIJAB DAY. Our Story, 2022.

Disponível em: https://worldhijabday.com/our-story/

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

#História #WorldHijabDay
#religião #muçulmanas 
#Alcorão#OrienteMédio


 

whatsapp-logo-1.png
Ogro Historiador - Catarse.png

Assine a nossa newsletter e receba o nosso conteúdo na sua caixa de e-mail.

Comentários