É possível um diálogo entre a História e a Teologia?

Por João Neto

09 de Dez de 2018

Como historiador, ao longo da minha carreira profissional, percebi certa resistência entre o meio acadêmico da História com o fato de também ser um teólogo. Há certo ar de superioridade entre os historiadores, que questionam ou duvidam da legitimidade da pesquisa teológica. É como se o teólogo não fosse um profissional tão sério como o historiador. Sempre me perguntei: por que isso acontece? Notei, guardadas as devidas proporções e exceções, que os historiadores não conhecem o trabalho teológico. O desprezo é consequência da desinformação. Preconceito.

 

Para muitos historiadores, um curso de Teologia oferece um conteúdo apologético para formar sacerdotes de determinada religião. Então, imagina-se que o teólogo se forma desprovido da capacidade crítica ou questionadora requerida de um curso da área de humanas. Nada mais injusto. Sim, historiadores também cometem reducionismos.

 

Antes de tudo, primeiro precisamos definir o que entendemos como História, e o que entendemos como Teologia. Ambas requerem definições longas. Aqui, portanto, uso esses nomes como referência aos cursos superiores homônimos. Será que há um abismo entre fazer um curso de História, ou fazer um curso de Teologia, ao ponto em que seria insustentável uma aproximação entre eles? Não mesmo.

 

Essa relação de desconfiança é característica do Brasil. Não existe na Europa, onde universidades renomadas oferecem, naturalmente, ambos os cursos. Esse preconceito, característico do Brasil, não deixa de ser consequência das suas peculiaridades históricas: a formação jesuítica no período colonial e, depois, a chegada agressiva dos missionários protestantes. Por muitos anos, cursos de Teologia, de fato, eram oferecidos por suas respectivas entidades religiosas visando a formação sacerdotal, inclusive batalhando por espaço e adeptos. Faz muito tempo, porém, que não é mais assim. Muitos, infelizmente, ainda não perceberam a mudança.

 

Há diversos cursos que se apresentam como bacharel em Teologia. Muitos deles, de fato, visam uma determinada formação sacerdotal. Mas há, também, cursos de Teologia acadêmicos. Formalmente reconhecidos pelo Ministério da Educação. Ainda que sejam ligados a uma confissão religiosa, não são formadores de sacerdotes. Assim como ninguém será menos médico ou menos engenheiro por se formar na PUC ou na Mackenzie, ninguém será menos pesquisador de ciências humanas por cursar Teologia em uma universidade ligada a alguma religião.

 

Tudo dependerá da seriedade do curso e da instituição. A generalização será sempre problemática. Inclusive aqui. O uso de determinada área do conhecimento para fins parciais não é característica exclusiva da Teologia. A História também não tinha o papel de criar os nacionalismos? Ela também não era feita sob encomenda? Hoje em dia, quantos não usam a História e a memória para legitimarem seus pontos de vista? Ora, não interessa se é História, Teologia, Sociologia ou qualquer outro curso. Qualquer área do conhecimento pode ser usada, tanto com viés ideológico, tanto como formador de um pesquisador devidamente capacitado.

 

Uma graduação em Teologia não tem mais como objeto de estudo Deus, como, talvez, tenha sido em outras épocas. O preconceito também faz alguns historiadores pensarem que teólogos trabalham com metafísica e desenvolvem pesquisas que não podem demonstrar. Isso é tão fantasioso como pensar que todo alquimista medieval procurava o elixir da vida eterna. Uma graduação em Teologia séria atualmente tem, como objeto de estudo, o sagrado. E este pode ser devidamente esmiuçado pela metodologia científica.

 

A História dos Annales, através de Marc Bloch, destacou a importância da interdisciplinaridade. Ao longo da minha carreira, em congressos, aulas e tantos outros eventos, presenciei muitos historiadores cometendo erros grosseiros ao conceituar termos que investigam a religião como objeto de estudo. Penso que esses erros seriam evitados se nos lembrássemos da interdisciplinaridade. Os teólogos sabem que têm muito o que aprender com os historiadores. Agora, os historiadores brasileiros precisam saber que também terão muito o que aprender com os teólogos. Que tenhamos mais diálogo e menos preconceito entre ambos.

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