Editorial

Publicado em 15 de Novembro de 2018

POR QUE ESTUDAR HISTÓRIA HOJE?

O historiador Marc Bloch, uma das grandes inspirações para a criação desse site, escreveu certa vez que a História é a “ciência dos homens no tempo”. Ciência porque possui rigor metodológico que permite validação por uma comunidade de cientistas (os historiadores), um compromisso com a busca da verdade e um enraizamento nos indícios que as pessoas do passado nos legaram. Ela é o campo do conhecimento que estuda a relação entre presente e passado a partir dos condicionantes, os vestígios, deixados por esse último. O historiador é um sujeito de seu próprio tempo e por consequência a História, como historiografia (conjunto de estudos históricos produzidos pelos historiadores) também é enredada nas teias do presente.

Uma vez que a História é construída no presente, ela deve manter um compromisso com os homens e mulheres que vivem e sofrem “o agora”. A reflexão sobre o próprio tempo é de fundamental importância para que possamos direcionar o olhar ao passado a partir das carências de orientação que nos impõe nossa época. Desta forma, o interesse do historiador deixa de ser apenas a continuidade que leva, quase naturalmente, do passado ao presente e passa a ser a diferença, a mudança, a instabilidade, o sofrimento. Trata-se de ir além da superfície aparentemente estável da sequência passado-presente-futuro e buscar continuidades, rupturas, ritmos e dinâmicas de relações muito mais complexas.

Por isso, levamos em consideração que existem diferentes camadas de tempo, diferentes estratos. O historiador precisa lidar com um tempo mais longo, das estruturas, que custa mais a passar, ao mesmo tempo que com outras camadas mais breves. O melhor é falar em diversos ritmos temporais que conversam entre si. A forma como o ser humano lida e se orienta em relação a essas camadas se altera de geração para geração. É nesse ponto que as categorias de experiência e expectativa são muito importantes para compreender como os homens e mulheres se orientam, para romper com o curso natural das coisas e se direcionarem rumo a futuros possíveis.

Essa capacidade humana de integrar passado, presente e futuro se chama consciência histórica. Todos temos: do plantador de arroz chinês até o multibilionário estadunidense. Ora, se todas as pessoas fazem isso, por que precisamos de uma ciência? Simples, porque precisamos de um campo do conhecimento que o faça a partir de critérios de alto rigor metodológico. O historiador para ser historiador é obrigado a seguir um conjunto de regras do trabalho historiográfico e, ainda assim, irá depender da avaliação de outros historiadores (geralmente mais experientes e consagrados) para que aquilo que ele produz obtenha valor científico. Quando criamos teorias a partir do passado para interpretar o presente e lançar perspectivas orientadoras sobre o futuro, estamos exercitando nossa consciência histórica. No entanto, os historiadores fazem isso a partir de critérios alicerçados cientificamente e com abrangência muito maior. A nível de comparação, qualquer pessoa pode se automedicar ou procurar um curandeiro, contudo, somente o grupo dos médicos (ou farmacêuticos em casos específicos) prescreve remédios partindo de uma ciência, a Medicina. Do mesmo jeito, qualquer pessoa pode buscar respostas para suas carências de orientação no tempo, mas é o grupo dos historiadores que fornecerá perspectivas orientadoras metodicamente reguladas e coletivamente válidas.

Questões sociais ou coletivas são abordadas pelos historiadores na medida em que se descobrem inquietações. O calendário civil é repleto de datas comemorativas que nos remetem a acontecimentos históricos e que se tornam pretextos para esse direcionamento do olhar ao passado. O dia de hoje, 15 de novembro é um exemplo. É evidente que as datas comemorativas do calendário civil são ocasiões para exercitar a consciência histórica e tem um valor didático-pedagógico. Esse aspecto é outra característica importante do trabalho do historiador: seu valor como conhecimento escolar. Há exatos 129 anos caiu o último Império latino-americano, tendo sido constituído um novo regime político ainda pouco estruturado. No calendário escolar a data deve trazer ao ambiente da sala de aula o debate sobre o regime político tardiamente adotado em nosso país, mas outras questões podem ser adequadas ao momento histórico vivido por nós. Uma questão subsiste, vai muito além da sala de aula e tem sido retomada: teria sido a proclamação da República um golpe de Estado?

Esse tipo de pergunta dá um exemplo do trabalho com o qual o historiador tem de lidar. Mas como responder indagações assim? Primeiro é preciso ir até as fontes da época, respeitar suas tipologias, diferenciá-las e ver o que falam ou como falam dessas questões. Que tipo de indícios elas oferecem para que eu possa afirmar que ali houve um golpe ou não? Além disso, o que dizem os meus pares? Os profissionais da História que lidaram com o tema, o que eles constataram? Quando retomamos os documentos e procuramos indícios para responder certas indagações, é complicado falar em verdades definitivas, já que podem haver indícios que escaparam aos olhos dos pares, o que é próprio da ciência, não só da ciência histórica. Na Física por exemplo, ainda hoje, as hipóteses de Einstein são constantemente testadas. Na História, podemos retornar às fontes para encontrar outras possibilidades escondidas. Voltando ao tema da Proclamação, os trabalhos historiográficos mais pertinentes acabaram reforçando a resposta de que houve de fato naquela época, um Golpe de Estado.

A baixíssima participação popular, a falta de envolvimento de republicanos históricos e a condução atabalhoada das ações do dia 15 de novembro de 1889 por membros do Exército são ingredientes que confirmam a aplicação do conceito de golpe de Estado. Uma revolução pressupõe um movimento alheio ao corpo do Estado e com profunda alteração social, o que não aconteceu no Brasil. O Golpe de Estado, por outro lado, pressupõe um movimento por dentro da própria institucionalidade e sem alterações profundas no funcionamento da sociedade analisada. O segundo caso parece ser bem mais aplicável à Proclamação da República. Por que os historiadores podem afirmar isso? Porque obedecem às várias fases da produção do conhecimento histórico: heurística (lançam perguntas e selecionam fontes), crítica (interrogam a veracidade das fontes e como elas podem ser interrogadas sobre o passado) e interpretação (direcionam perguntas e obtêm respostas das fontes sobre os fatos analisados).

No caso do trabalho historiográfico, essa interpretação deve ser epistemologicamente orientada e profundamente ligada à realidade objetiva: os acontecimentos e aos testemunhos acerca deles. Esse compromisso não é opcional. A identificação de causalidade deve ser objetiva no interior dessa interpretação, sustentando-a, compondo-a e fundamentando-a. A subjetividade dessa interpretação existe pela própria condição historicamente determinada do sujeito e na medida em que o profissional seleciona as fontes e os testemunhos. Os mecanismos de controle aplicáveis ao processo são ligados ao crivo dos pares e ao interesse social do tema.

Como atualmente há uma tendência em relativizar o papel e a importância dos saberes, o Ogro como historiador tem o dever de marcar posição acerca do quão válido é o saber histórico para o entendimento dos problemas que vivemos hoje. O trabalho historiográfico sério, compromissado e metodicamente regulado deve servir de fonte de orientação para as sociedades humanas em direção a futuros “melhores” (as ciências procuram construir mundos melhores). Negar a validade desse saber ou procurar reduzir a sua legitimidade só contribui ainda mais para a marcha da ignorância. Nas sociedades em que o desenvolvimento tecnológico se aproxima das páginas de livros de ficção científica, o descompromisso com as áreas que estudam o ser humano pode ser muito perigoso e atestar um prognóstico para futuros distópicos típicos do universo cinematográfico. O problema é que a distopia atingirá principalmente os excluídos, marginalizados e bestializados, e eles são bilhões de seres humanos.

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