Ego e faculdade no mundo da polarização

Por Johnny Taliateli

21 de Dez de 2018

Este texto pode parecer um tanto mais egocentrado. Sim, falarei um pouco daquilo que experienciei, como muitos que vem aqui também fazem em suas vidas particulares. Aliás, quem já não defendeu uma posição com o pressuposto de “eu vi” ou “eu estava lá”? Quem não gosta de dizer que sabe disso ou daquilo? Me parece que a visão egocentrada é quase uma regra geral.

 

Em tom de desabafo mesmo digo que entristece a forma como as palavras, os conceitos estão sendo usados de forma bastante esvaziada. Virou um dane-se aos significados. Nos últimos anos aqui no Brasil é Deus ou o Diabo. Tudo se encaixa num maniqueísmo barato. De um lado direita/boa, do outro, esquerda/ruim ou vice-versa. Ressuscitaram uma coisa velha como o comunismo e junto de outros “ismos” carentes de sentido, essas palavras ocuparam nossas vidas na polarização política. Na incapacidade de ter diálogo, de ter empatia, em se esforçar por entender o semelhante, o mais fácil é encerrar o debate atribuindo um “ismo” ou um “ista” ao adversário.

 

Não foi um ano fácil. Se tentássemos (alguns profissionais de ciências humanas) dialogar para ressaltar que as coisas não funcionavam assim, que trazer essas palavras à baila não resolviam disputa alguma e nem explicavam nada, nos acusavam com as mesmas declarações. E, claro, como não poderia deixar de ser, a História é um alvo preferencial. Em algumas conversas com partidários exaltados de um certo candidato escutei que a Faculdade de História era um antro de maconheiros que não tinham o que fazer, ou um reduto de comunistas/marxistas etc. Alguns influenciadores de opinião ainda vivem de dizer isso por aí.

 

Na época em que pegava aula, dentre os cerca de trinta professores que davam disciplinas, apenas dois eram marxistas, o que já quebra o argumento dos sabichões de plantão que, talvez por iluminação divina, dizem entender as coisas como realmente são. Profissionalmente, boa parte trabalhava mais com História Cultural ou História Intelectual. Sim, na nossa disciplina existem várias formas de se analisar um problema/tema histórico, assim como acontece com outras ciências. Ao contrário do que dizem os pregadores do “Escola sem Partido”, eu e meus colegas na época não tivemos uma formação politizada para um lado ou outro dos campos ideológicos que tomam conta de nossa sociedade. Aliás, se as pessoas que defendem isso com unhas e dentes realmente entrassem nas escolas ou nas universidades federais, veriam que não é regra, é exceção. Existem professores que poderiam ser encarados como panfletários? Sim. Alguns. Tomar isso como regra? Não. O aluno também não é uma folha em branco. Mas, retornando à minha formação universitária, posso dizer que não tive isso, algum professor para ditar o caminho político/ideológico que eu deveria seguir. E, mesmo que tivesse, creio que eu era já crescidinho à época para fazer minhas próprias escolhas.

 

E aí entra nosso novo ponto, escolhas. É óbvio que dentre o conjunto de alunos, podemos encontrar indivíduos com expectativas variadas. Da mesma forma que tem aqueles que entram e querem seguir até o final de forma mais caxias, tem aqueles também que encaram a vida universitária como festa e farra. Outros, no decorrer do curso, entram em movimentos estudantis. Não estou dizendo que algumas dessas perspectivas são erradas, apenas que a lógica é mais plural.

 

No entanto, todos fomos submetidos ao mesmo sistema de avaliação. A média de leitura cobrada pelos professores por dia era bem alta. Isto é, sem contar o que tínhamos que ler à parte para estudar, fazer trabalhos, pesquisa e tudo o mais. Logo no primeiro ano, tive professor que fazia um terrorismo danado, não que fosse ruim para dar aquele choque de realidade, mas ele adorava contar sobre o índice baixo de aprovação na sua disciplina. Isso levou eu e meus colegas a fazermos grupos de estudos para discutir textos teóricos.

 

Para as provas, para boa parte delas, uma folha de papel almaço era pouco para o tanto que deveríamos responder. Não que todo mundo o fizesse. Além disso, tinha os seminários, a tal da análise documental e por aí vai.

 

Acho que é o suficiente para dizer que não entra na minha cabeça esses reducionismos modernos, essa necessidade de pegar coisas tão complexas e embrulhar num mesmo pacote ideológico. Mas chega a ser engraçado, porque o fenômeno de criticar ou de falar que não gosta de algo, sem ler e sem conhecer, já era algo experienciado também na universidade. Tinha quem dizia que odiava autor tal sem ter pegado um livro do sujeito para ler. Vi isso ser feito com Foucault, Hayden White, Carlo Ginzburg, entre vários outros.

 

Entender o que nos cerca não é para ser fácil, o que poderia ser entendido como “real” tem que ser complexo mesmo. É preciso é não ter preguiça de pensar. Verdade absoluta é coisa de fé e de ideologia, que são campos que não demandam que o debate seja racional. Para problemas científicos a lógica é um pouquinho diferente. Na História existem bons trabalhos de profissionais culturalistas, marxistas, da história política, da velha e da nova história. Existem ruins também. É preciso ser sério. Desde que feito com seriedade podemos dizer que há trabalhos legais dentro de qualquer escolha teórico-metodológica. Para a política a mesma lógica serve, não é bacana demonizar o outro simplesmente porque ele não compactua de sua crença. Ao invés de fazermos a realidade se encaixar nesse mundo complexo de nossas cabeças, é melhor aceitar a complexidade do real e suas incoerências.

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