Publicado em 07 de Dezembro de 2018

O CINEMA E A HISTÓRIA: DESAFIOS E PERSPECTIVAS PARA A COMPREENSÃO DO (E SOBRE) O PASSADO

Por Elbio R. Quinta Junior*

Não raro, assistimos ou, ao menos, ouvimos comentários sobre documentários ou filmes que utilizam em sua narrativa fílmica acontecimentos do passado. Estes, por sua vez, são manuseados como pano de fundo ou elemento central desta narrativa, como é o caso dos filmes de reconstrução histórica, ou mesmo como uma perspectiva de investigação científica, no caso dos documentários. Trabalhar e compreender os efeitos que um filme pode ter sobre determinada visão sobre o passado é, de todo o modo, um desafio para o historiador.

O campo de estudo que visa aproximar a história com o cinema é relativamente novo. Nos anos de 1970, o historiador francês Marc Ferro lança uma obra considerada pioneira nesta área: “Cinema e História”. Neste livro, que engloba vários textos e entrevistas do autor, Ferro procura discutir perspectivas que podem ser trabalhadas entre história e cinema. Ele confere um significado para o filme, dentre os vários possíveis, como um retrato de seu contexto de produção, de seu tempo. Isso, a nosso ver, constituiu-se como uma perspectiva inicial para vislumbrar os filmes como objeto de análise para o historiador.  Sabemos, entretanto, que trabalhar com as relações entre cinema e história é um campo muito mais profundo e idiossincrático, ultrapassando a simples conceituação de filme enquanto retrato de seu tempo. 

Antônio Costa, ao aprofundar as perspectivas iniciadas por Ferro, aponta três possibilidades de pensarmos a relação entre história e cinema. A primeira delas é a história do cinema, que abrange a historiografia cinematográfica, onde se opera com uma metodologia própria, como visto em outros campos específicos, por exemplo: história da arquitetura, história do teatro, etc. Em seguida, a história no cinema ambiciona trabalhar os filmes como fontes de documentação histórica através do modo como a história é representada nas películas. Por fim, temos o cinema na história, em que vislumbramos o cinema como agente histórico, ou seja, como este pode assumir um papel importante, por exemplo, no campo propaganda ideológica. Para Costa, os trabalhos de Marc Ferro enquadram-se dentro desta última possibilidade.

Pensando o cinema como agente histórico, Ferro comenta, em entrevista para a famosa revista francesa de cinema Cahiers du Cinéma, que os nazistas e os soviéticos foram os primeiros a encarar o cinema em toda a sua amplitude funcional. Diretores como Sergei Eisenstein (1898-1948) e Leni Riefenstahl (1902-2003) se destacaram por serem, simultaneamente, grandes inovadores de técnicas cinematográficas e fortes expoentes, respectivamente, do cinema revolucionário soviético e do cinema de propaganda nazista.

A relação entre história e cinema, contudo, pode ser mais aprofundada do que o visualizado por Costa. É o caso, por exemplo, de Siegfried Kracauer, com sua obra “De Caligari a Hitler: Uma história psicológica do cinema alemão”. Lançado nos fins da década de 1940, anteriormente a todos outros marcos bibliográficos citados, o livro se propõe a mostrar como o estudo sobre a formação, e os filmes, do cinema alemão poderiam ajudar a explicar a ascensão do nazismo (1933-1945). Para o autor, tal objeto de estudo seria sustentado pela perspectiva de que as produções fílmicas revelariam o inconsciente da população, das massas, em um determinado contexto. Apesar de, posteriormente, muitos historiadores considerarem a obra como teleológica, pois Kracauer escreve após 1945, a mesma mostra-se de folego e, para além disso, uma maneira de visualizarmos a profundidade da correspondência entre filmes e o conhecimento histórico.

Essa profundidade é ainda mais reforçada quando pensamos a questão do cinema documental. Frequentemente, identificamos entendimento do documentário como objeto científico inquestionável, ou seja, o que filme documental retrata é a aproximação da verdade. Tanto é fato, que é comum identificarmos, sobretudo nas redes sociais, o uso de documentários de história feitas pelo History Channel, NatGeo, etc., para respaldar argumentos e posições em discussões e debates.

O gênero documental, em específico, mostra-se notadamente mais complicado, dentre os demais, para o historiador. Isso se deve, justamente, por sua pretensão de ser um retrato fiel e verídico da realidade. Uma relação indexativa com o real. Esta perspectiva, a nosso ver, pode ter uma possível origem, rememorando Ismail Xavier, na concepção naturalista de cinema, muito em voga no início do século XX, quando os filmes apresentavam-se como retratos fiéis do mundo.

Contudo, acreditamos ser importante ter em mente, como Xavier discute em seu livro “O Discurso Cinematográfico: A opacidade e a transparência” que o cinema não é um retrato fiel da realidade a qual ele pretende demonstrar ou representar, mais sim uma construção. Um discurso construído que produz sentido. Esta concepção de cinema foi muito difundida, sobretudo nos anos de 1960, com a nouvelle vague que, com grandes expoentes como Godard e Truffaut, procuraram desconstruir a concepção do cinema enquanto retrato do natural, do verídico. Algo que era muito difundido pelo cinema comercial hollywoodiano, por exemplo. O movimento da nouvelle vague, opondo-se ao filmes de Hollywood, procurou testar os limites e possibilidades de construção do discurso cinematográfico, sobretudo pela técnica de montagem, que podemos entender como a base estética de um filme, haja vista que é através da intercalação de planos[1], proporcionada pela montagem, que um filme é produzido no momento da edição. Logo, a ideia do cinema como produtor de sentido só é possível através das técnicas que o constituem. Cinema é construção.

Frente a isso, Robert Rosenstone alerta sobre os perigos do documentário. Embora busque se afirmar enquanto propagador da verdade, o gênero documental deve ser compreendido dentro da ótica de uma construção de discurso, haja vista que sua narrativa fílmica é construída, por exemplo, por meio da montagem. Como bem comenta o autor, por se chamar “documentário”, este aparenta ter uma relação mais direta com a realidade do que o “filme ficcional”.

Rosenstone nos mostra que, por muitas vezes, o documentário muito se assemelha à história escrita, justamente por passar uma sensação de confiabilidade maior do que outros gêneros cinematográficos. Esse pensamento leva-nos a ignorar que o documentário é, assim como os demais tipos de filmes, algo construído. Isso ainda pode ser pior, sobretudo se considerarmos que ocorre uma mistificação por razão de acreditarmos que o documentário está realizando uma representação direta da verdade quando, na realidade, ele pode estar dramatizando cenas e, dessa maneira, criando uma narrativa que muito se assemelha a um filme ficcional. Dentro deste quadro, o drama pode ser mais honesto, justamente por sabermos, conscientemente, de se tratar de uma construção ficcional.

Frente ao debatido, podemos vislumbrar as inúmeras possibilidades que o cinema oferta para o historiador, enquanto interpretação do passado. Estas interpretações, por sua vez, escapam da mera conceituação de filme como um retrato do seu contexto de produção. O cinema oferece contribuições significativas para a construção de um entendimento sobre o passado. Contudo, ao se debruçar sobre o campo específico da relação entre história e cinema, o historiador necessita estar atento às metodologias específicas exigidas por este campo, de modo a conseguir resultados significativos para a compreensão de um determinado fato histórico. Com isso, acreditamos ter possibilitado esclarecer, mesmo que em um plano mínimo, o quão custoso, e ao mesmo tempo o quão rico, pode ser o trabalho com este tipo específico de fonte histórica.

Elbio Roberto Quinta Junior é mestrando em História na UFG. É graduado em História pela mesma instituição.

[1] Podemos entender plano, conforme compreende Ismail Xavier, como um segmento contínuo de imagem, uma extensão do filme concebida entre dois cortes.

REFERÊNCIAS

COSTA, Antonio. Compreender o cinema. Rio de Janeiro: Globo, 1987.

FERRO, Marc. Cinema e História. São Paulo: Paz & Terra, 2010.

KRACAUER, Siegfried. De Caligari a Hitler: uma história psicológica do cinema alemão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

QUINTA JUNIOR, Elbio Roberto; BRAGA, Sabrina Costa. Historiografia e Cinema: entrevista com o Professor Wagner Pinheiro Pereira. In: Revista de Teoria da História, v. 18, p. 289-318, 2017.

ROSENSTONE, Robert. A história nos filmes, os filmes na história. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2015.

XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2017.

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