ENTREVISTA

Lançamento do Livro
"História das Mulheres, relações de Gênero e Sexualidades em Goiás: perspectivas e desafios historiográficos"

Neide Célia Ferreira Barros

27 de Out de 2021

No último mês foi lançado o livro “História das Mulheres, relações de Gênero e Sexualidades em Goiás” (2021) pela Editora Paco. A obra foi organizada pela Profa. Dra. Ana Carolina Eiras Soares (FH/UFG) e pelo Prof. Dr. Murilo Borges Silva (FH/UFJ) e conta 24 textos, originados de inúmeras pesquisas de diversas autoras e autores que se debruçaram sobre essas temáticas, com recorte de pesquisa no estado de Goiás.  Além desses, a coletânea traz o prefácio de Vera Lúcia Puga (UFU) e abertura da historiadora norte-americana Joan Scott, pesquisadora pioneira e fundamental para discussão dos estudos de Gênero e História em todo o mundo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para marcar esse lançamento, trazemos uma breve entrevista com a organizadora e o organizador dessa obra fundamental para a pesquisa da História de Goiás e do Brasil, da qual eu tive a honra de integrar com um capítulo.

Como é estruturado o campo da pesquisa de História das Mulheres, relações de Gênero e Sexualidades em Goiás?

Ana: Como em todo Brasil, há alguns anos as pessoas tem se aproximado em grupos de pesquisa, oficinas de trabalho, congressos e em coletivos. Muitas vezes era um trabalho solitário, pois apesar de ser uma área já estabelecida na historiografia, ainda é vista, por alguns colegas, como uma categoria analítica menor, ou mesmo um tema "anexo"/"acessório" dispensável da História.

Murilo: No Brasil, inicialmente, boa parte dos estudos sobre História das Mulheres, Relações de Gênero e Sexualidade foram realizados por pesquisadores/as integrantes de grandes centros de investigação, particularmente, aqueles localizados em universidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. Aos poucos, à medida que outros/as pesquisadores/as iam sendo formados/as, o conhecimento produzido nesse campo alcançava outras localidades. Muitas dessas investigações procuraram alinhar a temática ao recorte regional, com a intencionalidade de revisar processos de ocupação, urbanização e discutir intepretações que traziam em seu bojo apenas os feitos de grandes homens, ignorando ou mencionando superficialmente o restante da população.

É preciso admitir, contudo, que em algumas localidades esse interesse pelas mulheres, gênero e sexualidade ocorreu de maneira mais tímida. Em Goiás, por exemplo, as pesquisas sobre Histórias das mulheres e Relações de Gênero foram aparecendo, paulatinamente, a partir da década de 1990. Antes disso, as obras históricas sobre a região mencionaram as mulheres esporadicamente, sobretudo, quando se referiam ao concubinato, ausência de famílias ou casamentos. Em poucos estudos elas são apresentadas como protagonistas, estando, quase sempre, no papel de coadjuvantes de outras narrativas, de modo estereotipado ou reproduzindo generalizações. A categoria gênero e as leituras sobre sexualidade viriam a fazer parte dessas reflexões um pouco mais tarde, nas duas primeiras décadas dos anos 2000. Essa inclusão está relacionada a própria dinâmica e ampliação do campo de pesquisa, bem como com a expansão dos programas de pós-graduação na região, da chegada de novos/as docentes interessados/as na temática, do envolvimento de pesquisadoras/os já estabelecidos em Goiás e do interesse de estudantes e movimentos sociais.

Boa parte da produção sobre História das Mulheres, Relações de Gênero e Sexualidade em Goiás foi realizada no âmbito de Programas de Pós-Graduação em História, situados no Centro-Oeste do país, notadamente na Universidade Federal de Goiás (UFG), Universidade de Brasília (UnB) e na Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO). Embora tenham em comum abordagens sobre a história das mulheres ou de gênero, discorrem a respeito de aspectos diversos das vidas femininas na região, tais como: maternidade, trabalho, política, resistências, relações afetivas, transgressões, educação e intelectualidade. Até alguns poucos anos atrás, muitas destas pesquisas recortavam, preferencialmente, o século XIX e o início do XX, bem como tendiam a privilegiar os acontecimentos passados na Cidade de Goiás ou em Goiânia.

Apesar dos avanços percebidos nas discussões históricas que se propõem operar na chave da História das Mulheres, das Relações de Gênero e da Sexualidade, é preciso reconhecer alguns limites e fragilidades desde campo em Goiás. Podemos afirmar que ainda são poucos os estudos históricos relacionados a masculinidade, homossexualidade, lesbianidade, transsexualidades, entre outros, indicando que ainda temos um longo caminho pela frente.

Qual a contribuição que a História pode trazer para temas tão pertinentes e emergentes nas relações da sociedade?

Ana: Entender como as relações de poder se estabelecem no tempo e espaço entre as pessoas, a partir das diferenças PERCEBIDAS entre elas como marco inicial e central de suas existências, permitem tantas possibilidades de pesquisa que é até difícil citar apenas uma contribuição. Perceba que esse livro tem mais de 20 capítulos e é apenas a ponta do Iceberg da produção historiográfica das relações de gênero em Goiás.

Murilo: Os últimos anos têm sido de bastante agitação social, sobretudo, por conta da polarização política que temos enfrentado. A história, por ser uma disciplina que lida com as ações humanas no tempo, sente fortemente essa agitação sendo, inclusive, atacada por aqueles/as que inventam mentiras, distorcem narrativas, manipulam indiscriminadamente as fontes e promovem negacionismo históricos. Entre as atrocidades promovidas por esses/as sujeitos/as estão, por exemplo, a invenção da ideia de “ideologia de gênero”, um delírio cujo fundamento está na percepção de que os dispositivos do estado, incluindo os currículos escolares, promovem uma educação que ameace ou desvirtue a sexualidade das crianças. A história e o conhecimento que ela promove são mecanismos importantes no combate a esse tipo de distorções, assegurando, a disseminação de informações mais precisas e possibilitando a construção de versões historiográficas em que as diferenças sejam reconhecidas, respeitas e ressaltadas positivamente, no intuito de construirmos uma sociedade mais justa e igual.

Qual a importância de trazer análises das relações de Gênero, sexualidades e histórias das mulheres para o contexto de Goiás?

Ana: Essa é uma discussão URGENTE e NECESSÁRIA em todo Brasil. As relações de poder entre os gêneros estão diretamente relacionadas com as desigualdades históricas de nossa sociedade, em todos os níveis. Goiás, como sempre, produz e demonstra sua força e qualidade na pesquisa historiográfica em mais uma área de ponta.

Murilo: Os índices de feminicídio e outras violências associadas ao gênero são assustadores em Goiás, colocando-nos como um dos estados que mais cometem esses tipos de crimes. Por essa razão, torna-se tão importante debater em Goiás temáticas pertinentes as relações de gênero, sexualidade e história das mulheres, de modo a construir conhecimentos sobre as temáticas e os/as sujeitos/as históricos/as, contribuindo para a desnaturalização e combate à violência, empoderamento feminino, construção de redes e coletivos e inserção deste debate nas pautas políticas do Estado e do país. Ademais, tais análises permitem a ampliação dos debates sobre identidades e diferenças, abalando as supostas hegemonias sociais e reafirmando que todas as histórias importam.

Qual o valor deste livro para Historiografia Goiana e Brasileira como um todo?

Ana: Eu sou suspeita para falar (risos) O valor é a força da resistência pela produção de conhecimento acadêmico e científico acurado e, principalmente, a vitalidade da área de estudos em nossa região. Goiás é um Estado profícuo na produção historiográfica e possui pesquisadoras e pesquisadores de imensa relevância para o cenário nacional e internacional. É um livro de cabeceira e para ser lido em todo país, e porque não, em outros países!

Murilo: A historiografia sobre Goiás, sobretudo aquela produzida antes da década de 1990, parece ter se preocupado pouco com os estudos relativos as mulheres, gênero e sexualidade. Por outro lado, foram recorrentes abordagens sobre as atividades econômicas e as disputas políticas em Goiás, tendo a ideia de decadência da mineração e da própria região como uma espécie de pano de fundo. Muitos/as historiadores/as, embasados nos relatos de viajantes e na documentação produzida por autoridades ligadas ao estado, construíram narrativas indicando a presença de uma população indolente, com pouca aptidão para o trabalho, imoral e incivilizada. Segundo essa abordagem, o fim da mineração teria trazido, graves consequências e espalhado a pobreza pelo lugar. A decadência tornou-se, então, uma espécie de “conceito histórico” para a historiografia regional, designando não apenas o declínio da atividade mineradora, mas um quadro social, econômico e cultural.

Essa forma de ver e narrar a história de Goiás persistiu por muito tempo e, pode ainda encontrar alguma ressonância, no entanto, mudanças no campo epistemológico e metodológico da história permitiram outras abordagens sobre Goiás, entre elas destaca-se o arcabouço teórico advindo da História das Mulheres, dos estudos concernentes as relações de gênero e sexualidade. As investidas advindas desses campos do conhecimento permitiram a elaboração de outros problemas históricos, assim como nos possibilitou lançarmos outros olhares para nossas fontes de pesquisa. Essas mudanças materializam-se em pesquisas cujas mulheres foram transformadas em sujeitas históricas, destacando a importância de suas ações em diversos âmbitos da sociedade.

Mas, para além de descrever e visualizar as mulheres goianas, os textos presentes no livro História das Mulheres, Relações de Gênero e Sexualidades em Goiás nos indica que as relações sociais tecidas neste território e para além dele, são muito mais complexas e plurais que imaginávamos, seja quando retomamos aos séculos XIX, seja quando recortamos os séculos XX e XXI. Daí a importância desse conjunto de estudos, que nos permite visualizarmos outros/as sujeitos/as e outras histórias, percebendo existências e resistências plurais, admitindo o reestabelecimento de outros fluxos históricos, atualizando, assim, nossas compreensões sobre o passado e o presente em Goiás.

Algo que queiram acrescentar?

Ana: Comprem o livro, leiam, discutam e tragam o debate todos os espaços possíveis. Precisamos conversar e dialogar, sempre! Agradeço ao espaço, ao carinho e à generosidade de sempre de todas as pessoas da equipe do Ogro Historiador. Vocês são o máximo!

Murilo: O livro “História das Mulheres, Relações de Gênero e Sexualidades em Goiás” é um esforço coletivo, de muitas vozes e mãos que se uniram no intuito de trazer certa materialidade a tantas histórias silenciadas, é uma forma de dizer que a historiografia produzida no “coração do Brasil”, pulsa fortemente.

O livro está disponível em diversas lojas online e pode ser comprado em versão física e e-book. A seguir, os links de vendas do livro: Paco Editora, Amazon.

Entrevista realizada por Neide Barros, pesquisadora de História das mulheres, feminismos e violência de Gênero.

 

 

 

 

 

 

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