Estamos vivendo o fim do mundo?

Por João O. Ramos Neto

12 de Ago de 2020

Desde que Bolsonaro tomou posse como presidente da República, uma parcela da sociedade passou a viver uma angústia diante dos acontecimentos que se sucederam. Declarações polêmicas sucessivas - não só do presidente, como dos seus aliados - deram a perceber – para esses angustiados - que a sociedade está o tempo todo em conflito. Parece que estamos vivendo uma crise política acompanhada de uma crise econômica.

Porém, desconfio que não seja só mais uma das tantas crises políticas e econômicas que o Brasil já experimentou no passado. Olhando para o exterior, percebemos que não é só uma crise política e não é só no Brasil. A ciência está perdendo a credibilidade diante da opinião pública e não consegue mais legitimar suas verdades para a sociedade através de seus métodos experimentais. Mentiras se espalham rapidamente pela internet e não são mais condenadas quando descobertas. Então, que há algo errado com o mundo atual, é quase um consenso. Mas, o que seria?

O sociólogo Zygmunt Bauman tentou explicar o mundo atual com o conceito de modernidade líquida. Além dele, conceitos como pós-verdade e fake news também tentam entender o que estamos vivendo. Mas, não são suficientes. Como explicar, por exemplo, que pessoas insistam em defender uma informação mentirosa, mesmo sabendo que ela não é verdadeira? Ou, como não ficar perplexo diante de pessoas que negam a existência da atual pandemia e agem como se nada estivesse acontecendo? Parece que o mundo está se desmanchando diante de informações erradas veiculadas pela internet. E esse protagonismo do mundo virtual é definitivo e irreversível.

Então, considerei que estamos vivendo um fim do mundo. Não o fim do mundo bíblico, mas o fim de um mundo como o conhecemos hoje. Mais ou menos como foi a passagem da desagregação do Império Romano para o que se convencionou chamar de Idade Média, no século V. Agora, o poder não está mais nas mãos de quem controla as instituições, mas nas mãos de quem controla os ambientes virtuais. É uma mudança estrutural profunda, como foi a passagem do feudalismo para o capitalismo na Baixa Idade Média.

Diante disso, os conceitos para analisar este mundo – que está acabando – estão ficando obsoletos. Marx e Weber, por exemplo, nos séculos passados, ajudaram a sociedade entender a dinâmica capitalista que emergiu da Revolução Industrial. Bourdieu também fez uma releitura deles para o mundo contemporâneo. Porém, agora, precisaremos de um novo paradigma epistemológico para ler e entender essa nova sociedade e esse capitalismo virtual. Um paradigma que não seja uma releitura dos clássicos, mas que crie conceitos novos.

Se você achou essa reflexão exagerada, respeito sua opinião. Porém, indico que assista ao filme polonês Rede de Ódio [Jan Komasa, 2020], disponível na Netflix, e reflita.

#Atualidades

whatsapp-logo-1.png

Comentários

Ogro nas redes

  • Perfil do Ogro Historiador
  • Instagram

2018 Ogro Historiador | Ao reproduzir qualquer conteúdo deste portal, dê os créditos.