Fátima Alfihri:
A Muçulmana Que Fundou Uma Universidade
na Idade Média

Thiago Damasceno Pinto Milhomem**

12 de Jul de 2021

Fátima Alfihri (em árabe transliterado: Fāṭima Alfihrī) foi uma norte-africana muçulmana nascida por volta de 800 na cidade de Alqayrawān (ou Cairuão em português), atualmente na Tunísia). Na época, a cidade era a capital do Califado Idríssida (789-985 d.C. ou 172-375 da Hégira), que abarcava um território que hoje compreende partes da Tunísia, Argélia e Marrocos.

Fátima Alfihri é considerada – inclusive pelo Guiness Book - a fundadora da primeira universidade do mundo medieval, em 859, que foi a Madrassa Alqarawyī (ou Al-Quaraouiyine), em Fez (hoje no Marrocos), ainda existente.

Se levarmos em conta um mundo medieval que englobe Europa, África e Ásia, fica difícil precisar qual foi a primeira instituição de ensino superior em todas essas regiões, então pode ser mais seguro afirmar que Fátima Alfihri foi a fundadora da primeira universidade do mundo islâmico e do mundo norte-africano e mediterrâneo. Um feito por si só notável para a época.

Quando menciono “mundo mediterrâneo” me refiro aos litorais banhados pelo mar Mediterrâneo, indicando assim territórios no norte da África, no sul de várias regiões europeias e na costa do Oriente Médio. Todos esses locais se conectam desde a Antiguidade por meio de rotas comerciais por onde diferentes culturas, etnias e religiões trocavam saberes e produtos.

Durante os governos de Idrīs I e Idrīs II (de 789 a 828) o Califado Idríssida viveu um período de prosperidade econômica e cultural, atraindo muitos comerciantes para a capital, incluindo o pai de Fátima, um mercador abastado que migrou com a família de Alqayrawān para a sede do califado. A condição econômica da família possibilitou à Fátima uma educação privilegiada, de modo que ela era versada em religião, artes e ciências no geral.

 

Com a morte do pai, Fátima herdou uma grande fortuna. Logo após a morte do seu progenitor, seu marido também faleceu. Segundo Sónia Frias, Doutora em Ciências Sociais pela Universidade de Lisboa, a herança considerável e a viuvez de Fátima lhe permitiram uma autonomia pouco comum às mulheres da época, influenciando assim na fundação da Madrassa Alqarawyī.

Alguns produtores de conteúdo desmerecem o feito de Fátima afirmando que ela fundou uma mesquita, e não uma madrassa (escola islâmica). Isso é uma visão machista da história que não considera o protagonismo feminismo e tampouco a natureza das instituições islâmicas.

Para combater essa visão é preciso explicar que no mundo islâmico medieval os saberes estavam vinculados à religião. Assim, o que chamamos de mesquitas (templos) eram na verdade complexos com várias repartições, incluindo as salas de oração (mussalas) e as madrassas, as escolas de ensino superior da época, que ensinavam disciplinas como teologia, jurisprudência, poesia, matemática, dentre outras. Assim, Fátima Alfihri fundou a Mesquita/Madrassa Alqarawyī.

*Alguns nomes árabes foram transcritos segundo convenção internacional e outros conforme a tradição lusófona, como madrassa e mussala.

**Quer conhecer mais sobre história árabe-islâmica? Então confira o canal História na Medina, projeto solo do ogro Thiago Damasceno. 

Referências

College Stats.org. Top 10 oldest universities in the world ancient colleges, 2021.

Disponível aqui

 

Sónia Frias. Fatima al-Fihri – um retrato possível da fundadora da Universidade Qarawiyyin em Fez. Revista Faces de Eva, Lisboa, n. 32, 2014.

Disponível aqui

#História #IdadeMédia
#mundoislâmico #mulheresnahistória
#FátimaAlfihri

whatsapp-logo-1.png
Ogro Historiador - Catarse.png

Assine a nossa newsletter e receba o nosso conteúdo na sua caixa de e-mail.

Comentários