Goiânia muito além de Art Déco, rua 44 e música sertaneja!

Por João Oliveira Ramos Neto

24 de Out de 2020

Todo ano é a mesma coisa: quando chega o aniversário de Goiânia, em 24 de outubro, surgem as reportagens destacando os atrativos da capital goiana: o segundo maior acervo Art Déco do mundo, polo de moda com destaque para a rua 44, feirinhas, parques, terra da pamonha, do pequi e do pit-dog. Alguns, tentando sair do lugar comum, explicam que, apesar das duplas sertanejas famosas, a cidade também é conhecida pelo rock and roll. De fato, quem mora em Goiânia, sabe das muitas opções únicas que compõem o seu charme, a sua beleza e aquilo que a torna uma cidade apaixonante. Mas, quando o que é único é tão enfatizado, fica parecendo que Goiânia é uma cidade exótica, ou um ponto fora da curva. Mas, não é.

O que encanta em Goiânia, não é só o que ela tem de diferente. Ela também encanta pelo que ela tem de comum. Quem mora em Goiânia, não vive uma vida exótica. Tudo bem que as ruas numeradas não seguem nenhuma lógica, mas a avenida 85, às 18 horas, é tão congestionada como as avenidas das outras grandes cidades brasileiras. Nem todas as cidades têm tantas rotatórias como Goiânia, mas assim como as outras grandes cidades, não é fácil achar lugar para estacionar. Quem anda pelo Setor Universitário deserto no fim de semana, tem o mesmo medo de ser assaltado que qualquer morador de outra metrópole de terceiro mundo. Sim, Goiânia é uma cidade normal. Quem precisa do transporte público para se locomover, sofre. Se não é pela espera no ponto de ônibus, é pelo tumulto de gente no terminal.

E o que falar da desigualdade social? Os cartões postais não são para todos. Nem todo goianiense mora de frente para o parque Vaca Brava ou faz caminhada ao entardecer no parque Flamboyant. Aliás, nem todo mundo que faz a história de Goiânia é goianiense. Como toda grande capital brasileira, a história de Goiânia tem sido construída, dia após dia, pelo trabalhador da periferia que levanta de madrugada, pega um ônibus na região metropolitana – Aparecida, Senador Canedo, Trindade – e vai para o setor Bueno, ou para o setor Oeste, trabalhar. Em uma marmita ele leva o seu almoço que, sem nenhum ingrediente daqueles que aparecem na televisão, tem apenas os tradicionais arroz, feijão, alface, tomate e um bife. O mesmo prato que o paulista chama de “comercial” e o carioca chama de “PF”.

Eu estou reclamando? Eu estou falando mal de Goiânia? De forma alguma. Pelo contrário. O aniversário de Goiânia também é uma data para lembrar que ela é uma cidade especial porque ela também é uma cidade comum. Uma cidade com seus encantos e problemas. Uma cidade onde as pessoas estudam em universidades de ponta, trabalham em empresas multinacionais e passeiam por atrações que atendem a todos os gostos. Para além da pamonha, existem pizzarias, churrascarias, cozinhas internacionais, entre outras. Para quem não gosta de sertanejo ou de rock, existem todas as outras opções musicais, inclusive orquestras e corais eruditos. E, para além do orgulho pelos pontos positivos, também é preciso lutar para melhorar os pontos negativos.

Enfim, por que dizer tudo isso no aniversário de Goiânia? Porque o aniversário é uma forma de lembrar, e a memória é sempre uma escolha. Porém, é preciso ressaltar que não precisamos sempre escolher lembrar dos mesmos clichês. Muito menos deixar que escolham pela gente o que lembraremos. Goiânia vai muito além daquilo que as reportagens e documentários dizem que ela é. Goiânia, em cada aniversário, pode - e deve - ser lembrada por aquilo que você quiser escolher lembrar.

Por mais que o goianiense viaje pelo mundo, ele sempre sentirá saudades de Goiânia. Porque, dentro de um imenso cardápio de opções comuns, cada um encontra aquilo que faz Goiânia ser especial para si. Então, justamente por ser uma cidade tão comum, ela é tão especial. Parabéns, Goiânia!

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