História e Cinema: seria Thanos um genocida?

Por Thiago Damasceno

20 de Mai de 2019

*CONTÉM SPOILERS DE VINGADORES: ULTIMATO!

 

A História – campo de conhecimento e curso/disciplina universitária – pode estudar tudo que está inserido em um espaço específico, em um determinado tempo e em um certo contexto social. Esse tudo são as muitas e distintas criações humanas, ou seja, as diferentes expressões culturais, dentre elas, por exemplo, as histórias em quadrinhos e o cinema. Sendo assim, neste texto, proponho uma reflexão sobre o conceito de genocídio a partir dos planos e das ações do personagem Thanos nos filmes Vingadores: Guerra Infinita (2018) e Vingadores: Ultimato (2019). Thanos, o Titã Louco, seria ou não um genocida?

 

Thanos foi criado pelo artista Jim Starlin (1949-) e apareceu, pela primeira vez, na revista Iron Man nº 55, lançada em fevereiro de 1973 nos Estados Unidos da América. Para criar o vilão icônico do Universo Marvel talvez Starlin tenha se inspirado em Thanatos, o deus da morte, segundo a antiga mitologia grega, filho da Noite e irmão de Sono (Hipnos). Fato é que a trajetória de Thanos nos quadrinhos é longa. O texto de Marcelo Naranjo para o Universo HQ resume o percurso do personagem.

 

Das sagas de Thanos nas HQs, li a minissérie Thanos - Em Busca de Poder, publicada aqui no Brasil em duas edições pela Editora Abril em 1993. Nessa minissérie, Thanos decide reunir as poderosas Joias do Infinito para eliminar metade das criaturas sapientes do Universo. Na mente do Titã Louco, isso restabeleceria o equilíbrio do Cosmos e faria com que ele alcançasse seu objetivo maior: a conquista do amor da Morte (entidade que sempre aparece coberta por um capuz), por quem ele é apaixonado.

Ilustração 1 – Capas das duas edições da minissérie Thanos – Em Busca de Poder

Fonte: QUINTA CAPA, 2018.

As sagas de Thanos nas histórias em quadrinhos têm muitas referências alegóricas e mitológicas, aspectos comuns na linguagem das HQs. Nas obras adaptadas ao cinema, há um estilo mais voltado para a ficção cientifica, mas o objetivo primeiro de Thanos permaneceu: a coleta das 6 Joias do Infinito para dizimar metade dos seres vivos do Universo e, assim, restabelecer o equilíbrio e a harmonia no Cosmos. Neste texto, utilizarei os enredos dos filmes da Marvel como uma das bases para pensar o conceito de genocídio.

Ilustração 2 – Cartazes de Vingadores: Guerra Infinita e Vingadores: Ultimato

Fonte: ADORO CINEMA, 2018 e 2019.

Como indica a historiadora brasileira Nicolina Petta (2018), o termo genocídio foi criado em 1943 pelo advogado judeu polonês Raphael Lemkin (1900-1959) a partir da união da palavra grega geno (clã ou família) com a palavra latina cidium (matar ou massacrar). Desde então, o termo vem servindo para apontar ações de destruição e extermínio em massa, planejados e organizados, contra certos grupos sociais. Desde os anos 1940 a Organização das Nações Unidas (ONU) entende o genocídio com um crime contra a humanidade.

 

Em 11 de dezembro de 1948 em Paris, na ocasião da III Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, foi estabelecida a Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio. Essa convenção foi promulgada, aqui no Brasil, pelo Decreto nº 30.822, de 6 de maio de 1952. Em seu segundo artigo, o Decreto entende o genocídio como

 

"qualquer dos seguintes atos, cometidos com a intenção de destruir no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, como tal:

a) matar membros do grupo;

b) causar lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo;

c) submeter intencionalmente o grupo a condição de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial;

d) adotar medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio de grupo;

e) efetuar a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo".

(BRASIL, 1952).

 

 

Petta (2018) enfatiza que também devemos associar a memória ao entendimento de genocídio para que tenhamos um conceito mais completo. Mas o que vem a ser essa memória? É tanto a memória individual quanto a memória coletiva (ou memória social). De acordo com o sociólogo francês Maurice Halbwachs (2006), a memória individual é uma tarefa do sujeito, formada a partir de suas lembranças e de sua vida emocional. Entretanto, como esse sujeito está dentro de um grupo social, com o qual compartilha relações afetivas, essa memória também é memória coletiva. A memória coletiva é o conjunto, a coleção, o acervo de lembranças compartilhadas em um certo grupo social.

 

Petta (2018) ressalta que a maioria dos genocídios da história foram feitos por Estados (ou por agentes do poder político vigente) contra a sua própria população civil ou contra comunidades estrangeiras, alegando que o extermínio deveria ser feito por um “bem maior”, ideia vaga e aberta a vários significados que serviram (e servem) para legitimar a violência. Petta (2018) também defende que os atos genocidas têm como objetivo destruir aqueles que são considerados inimigos, exterminando tanto os seus corpos físicos quanto as memórias sociais deles (e sobre eles). O genocídio visa (também) a eliminação (ou pelo menos a tentativa de eliminação) das imagens, das narrativas e das lembranças do (e sobre o) grupo dizimado fisicamente. Em suma: o genocídio é um esforço em prol do esquecimento, não da lembrança. Desse modo, podemos considerar que todo genocídio é um assassinato em massa, mas nem todo assassinato em massa é um genocídio, pois nem todo assassinato em massa destrói ou tenta destruir a(s) memória(as) das (ou sobre) suas vítimas.

 

A partir dessas considerações e, levando em conta o conceito de genocídio com muito rigor, podemos entender que, apesar de ser um assassino em massa em Guerra Infinita (2018), Thanos não foi um genocida nesse filme, pois ele não eliminou as memórias sobre os exterminados. Como metade dos seres do Universo permaneceu viva, as lembranças sobre os seres que foram mortos permaneceram em suas memórias individuais e coletivas.

Ilustração 3 – Thanos em Vingadores: Guerra Infinita

Fonte: BAHIANA, 2018.

Mas em Ultimato (2019) a “coisa” foi diferente. No final do filme, enquanto enfrenta Thor, Homem de Ferro e Capitão América, Thanos revela seu novo plano maligno. Ao perceber que rebeliões aconteceriam sempre que houvesse sobreviventes dos seus massacres, o Titã Louco avisa aos heróis que seu novo objetivo é destruir o Universo e recriar um novo, sem as memórias do Universo anterior. Nesse caso, a rigor, Thanos se tornaria um genocida, pois pela primeira vez ele menciona a necessidade de apagar memórias para que seu objetivo não encontre obstáculos. Contudo, os Vingadores impediram o titã, principalmente o Homem de Ferro ao se sacrificar usando a manopla com as 6 joias, estalando os dedos e pedindo a eliminação de Thanos e de seu exército.

Ilustração 4 – Thanos em Vingadores: Ultimato

Fonte: WARNER, 2019.

Aproveito a ocasião para lembrar um genocídio em curso, que é o extermínio (e expulsão) do povo árabe-palestino da região da Palestina. Nesse caso, o genocídio é promovido por operações de limpeza étnica, como expliquei em meu texto anterior.

 

E, por fim, alguns genocídios que Petta (2018) elenca em sua pesquisa:

 

> O extermínio dos astecas pelos espanhóis no contexto de conquista da América, no século XV;

 

> O assassinato em massa do povo armênio pelo Império Turco-Otomano na década de 1920;

 

> O Holocausto aos judeus, cometido pelos nazistas, na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que levou ao extermínio de cerca de 6 milhões de judeus;

 

> Os ataques, cometidos pelo estado norte-americano do Alabama, contra a população negra da cidade de Tuskegee, entre 1932 e 1972;

 

> O massacre da comunidade indígena Waimiri-Atroari, no estado do Amazonas, pela ditadura civil-militar brasileira, entre 1972 e 1975, no contexto de construção da BR-174.

 

Referências

 

ADORO CINEMA. Vingadores: Guerra Infinita, 16 mar. 2018.

Disponível em: https://tinyurl.com/y6plhemx

Acesso em: 18 mai. 2019.

 

__________________. Vingadores: Ultimato, 26 abr. 2019.

Disponível em: https://tinyurl.com/y6ns5sc3

Acesso em: 18 mai. 2019.

 

BAHIANA, Ana Maria. “Juro que não sabia”, diz Josh Brolin, Thanos, sobre o final de Vingadores. Exame, 12 mai. 2018.

Disponível em: https://tinyurl.com/yyoqsjpe

Acesso em: 18 mai. 2019.

 

BRASIL. Decreto nº 30.822, de 6 de maio de 1952. Promulga a Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio, concluída em Paris, a 11 de dezembro de 1948, por ocasião da III Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas. Câmara dos Deputados, Brasília, DF, 6 mai. 1952.

Disponível em: https://tinyurl.com/yywj6hka

Acesso em: 18 mai. 2019.

 

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. Tradução de Beatriz Sidou. São Paulo: Centauro, 2006.

 

PETTA, Nicolina Luiza de. Genocídio. Revista Sociologia. São Paulo: Editora Escala, ano 9, edição 73, dez./jan. 2018, p. 74-79.

 

QUINTA CAPA. Especial: a saga de Thanos e o surgimento das joias e da manopla do Infinito, 26 mar. 2018.

Disponível em: https://tinyurl.com/yxca63vb

Acesso em: 18 mai. 2019.

 

VINGADORES: Guerra Infinita. Direção: Anthony Russo, Joe Russo. Produção: Kevin Feige. Roteiro: Christopher Marcus, Stephen McFeely. Estados Unidos da América: Marvel Studios, 2018. 149 min, color.

 

VINGADORES: Ultimato. Direção: Anthony Russo, Joe Russo. Produção: Kevin Feige. Roteiro: Christopher Marcus, Stephen McFeely. Estados Unidos da América: Marvel Studios, 2019. 181 min, color.

 

WARNER, Sam. Avengers: Endgame´s worrying Snap issue has been solved. Digital Spy, 16 mai. 2019.

Disponível em: https://tinyurl.com/y3ftq5ha

Acesso em: 18 mai. 2019.

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