História, Memoria e Fake News: o episódio interrompido de Dragon Ball Z em 11 de Setembro de 2001

Por Hugo Rincon

20 de Dez de 2018

"Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade", dizia o Ministro da Propaganda da Alemanha Nazista, Joseph Goebbels, um dos grandes responsáveis pela construção ideológica e doutrinária do regime comandado por Adolf Hitler. Em tempos em que a "pós-verdade" e o mundo cibernético-virtual ditam os rumos da sociedade, na internet e nas redes sociais são construídas narrativas, discursos e teorias que acabam por adentrar no imaginário de determinados grupos sociais, constituindo-se em verdade, e logo tornando-se uma espécie de memória coletiva.

Nos últimos meses, o termo Fake News se popularizou no debate político brasileiro. Traduzido ao "pé da letra" para o português, significa literalmente notícia falsa. O conceito ganhou destaque durante a corrida eleitoral para a presidência dos Estados Unidos a partir de 2014, que acabou com a eleição de Donald Trump como presidente em 2016. O eleitorado de Trump se apropriou do termo, amplamente utilizado pelo candidato para negar a mídia tradicional, reduzindo à fake news todas as notícias que não fossem do seu agrado.

Na acirrada polarização política que tomou conta do Brasil, especialmente em 2018, o presidente eleito Jair Bolsonaro e seus eleitores compraram o conceito, se utilizando dele para atacar a oposição e veículos tradicionais da mídia, como o jornal Folha de São Paulo, enquanto ainda durante o processo eleitoral o então candidato à presidência, financiado por empresários partidários, espalhou notícias falsas para milhões de pessoas via aplicativos e redes sociais como o Whatsapp, Facebook e Twitter[1].

Na história do Brasil são conhecidos vários casos de fake news que tomaram proporções grandiosas, sendo utilizadas por governos para justificar determinadas ações (e repressões) contra a sociedade. Em 1937, o governo Vargas instalou a ditadura do Estado Novo, justificada na contenção da ameaça comunista com o falso Plano Cohen. Há exatos 50 anos, Costa Silva promulgava o Ato Institucional número 5 (AI5), fechando o congresso, revogando direitos individuais e destituindo o Estado de Direito. O auge da repressão na Ditadura Empresarial-Militar se justificava em atentados cometidos por subversivos e comunistas financiados pela União Soviética para "dominar" o Brasil, mas que na realidade foram realizados por grupos de extrema-direita apoiadores do regime.

Entre o que lembramos e o acontecimento, seja em nossas experiências pessoais ou nos registros históricos, existem diferenças que passam pela rememoração e reconstrução das lembranças (enquanto memórias), especialmente se essa "lembrança" perpassa o individual e faça parte de um contexto coletivo. Maurice Halbwachs, na sua clássica obra A Memória Coletiva, defende que a memória individual integra ao quadro de personalidade de um indivíduo e às suas experiências pessoais de vida, dando lugar às lembranças. No que se refere à memória coletiva, as narrativas e discursos externos do seu meio social absorvidas pelo indivíduo o fariam se comportar “como membro de um grupo que contribui para evocar e manter as lembranças impessoais, na medida em que estas interessam ao grupo”[2].

A partir de Halbwachs, Durval Albuquerque Jr. entende que a memória coletiva é uma construção social e agenciada por transformações sociais. As memórias individuais dos homens seriam um ponto de vista sobre a memória coletiva, se constituindo em "cruzamentos entre signos emitidos pela empiria e o trabalho sobre eles do consciente ou do inconsciente"[3].

Conforme Joël Candau, ao mesmo tempo em que nós somos fruto de nossas memórias, as memórias também são por nós construídas. Daí, isso explica "perfeitamente a dialética da memória e da identidade que se conjugam, se nutrem mutuamente, se apoiam uma na outra para produzir uma trajetória de vida, uma história, um mito, uma narrativa"[4].

Dialogando com Halbwachs, Albuquerque Jr. e Candau, entendemos que a memória individual se divide em duas categorias: voluntária e involuntária. A primeira relaciona-se à lembrança, a recomposição do passado e à rememoração, e a segunda ao fruto da civilização, da disciplinarização e da absorção do meio social, que são também construtoras e resultados da memória coletiva. Essa concepção é compartilhada por Paul Ricoeur, que em sua obra História, Memória e Esquecimento, afirma que a consciência individual e a sua memória integram-se na memória coletiva por um conjunto dos traços deixados pelos acontecimentos que influenciaram o curso da história de determinados grupos sociais e a quem se reconhece o poder de trazer à cena lembranças em comum, como por exemplo, por meio de ritos, festas e celebrações políticas[5].

Um dos principais exemplos de uma Fake News que se tornou um dos grandes mitos das redes sociais e da internet nos últimos 17 anos é a "memória coletiva" que evoca a suposta interrupção da transmissão de um episódio do anime Dragon Ball Z pela Rede Globo durante a cobertura do atentado às Torres Gêmeas do World Trade Center em Nova York no dia 11 de Setembro de 2001. Ainda nos dias de hoje, muitas pessoas que viveram o evento confirmam lembrar que estavam em casa, em frente à televisão, assistindo ao episódio marcante em que o protagonista Son Goku atingiria a transformação de Super Saiyajin 3, quando o plantão de jornalismo da Globo interrompeu o episódio, se tornando para muitas crianças da época algo tão marcante do ponto de vista memorialístico quanto o atentado terrorista em si.

Na época deste acontecimento eu tinha 12 anos de idade, e frequentando a sexta série do ensino fundamental, lembro de sair da escola por volta das 11h20 da manhã e correr para casa para acompanhar os episódios do clássico desenho animado japonês que era exibido por volta das 11h30 na Rede Globo. Neste 11 de Setembro de 2001, lembro de ter saído da escola mais cedo, por volta das 9h30, e já estava em casa e assistindo televisão quando a programação foi interrompida para noticiar os atentados nos Estados Unidos. Qual o ponto dessa informação? Eu que vivi o evento, acabei durante parte dos anos seguintes compartilhando da memória coletiva de que essa cobertura jornalística teria "atrapalhado" a exibição do meu programa favorito em um episódio de extrema importância.

Mas, vamos aos fatos. Os sites Mais de Oito Mil[6] e Na Telinha[7] publicaram recentemente artigos embasados e de jornalismo sério, consultando arquivos da Rede Globo, que comprovam que essa "memória coletiva" trata-se na realidade de uma fake news, ou mesmo uma lenda da Internet. Depois de um sucesso estrondoso da série animada em exibição pela Rede Bandeirantes, a Rede Globo comprou os direitos de transmissão da adaptação do mangá criado por Akira Toryama e produzido pela TOEI Animation, dando sequência a exibição da Band, começou a transmitir Dragon Ball Z a partir do episódio de número 200 no dia 23 de julho de 2001.

Levando-se em consideração a sua transmissão de segunda a sexta, ou seja, cinco episódios por semana, no dia 11 de Setembro, seguindo a cronologia correta, seria exibido o episódio de número 237 ("Vegeta luta por seus entes queridos"), enquanto o famoso episódio da transformação em Super Saiyajin 3 de Goku na luta contra o vilão Majin Boo só viria a ocorrer no episódio 245, que seria transmitido cerca de duas semanas após a data citada. O que desmistifica o discurso que este episódio teria sido interrompido pela cobertura do atentado.

Outra questão paira em torno da narrativa de que a cobertura da Globo teria se iniciado exatamente durante a exibição do episódio de Dragon Ball Z. Como já mencionamos, a exibição do desenho costumava ocorrer por volta das 11h30, mesmo que a Globo as vezes alterasse o horário da exibição, jamais ocorreu de passar antes das 11h da manhã. A intenção do canal era obviamente garantir que o principal público alvo do programa (adolescentes) pudesse acompanhá-lo ao sair das aulas no período matutino. A primeira cobertura do Plantão da Globo sobre o atentado às Torres Gêmeas aconteceu por volta das 9h45 da manhã, se tornando transmissão integral a partir das 10h. O que indica que mesmo que não tenha sido exibido o episódio da série animada japonesa neste dia por causa da cobertura jornalística em Nova York, ela não interrompeu a transmissão de Dragon Ball, muito menos do episódio creditado.

É significativo a quantidade de relatos encontrados nas redes sociais por adultos na faixa entre 25 e 35 anos de idade que viveram o acontecimento e partilham da crença desta "memória coletiva" como se ela realmente tivesse ocorrido. A construção dessa narrativa nos anos seguintes ao acontecimento vivido o ressignificaram, a ponto de se tornar uma verdade para determinados grupos sociais. Se você perguntar a qualquer uma dessas pessoas, elas provavelmente confirmariam a informação e diriam com toda segurança: "eu lembro". As problemáticas que permeiam as relações entre história e memória também se manifestam nas lembranças pessoais e coletivas. Em tempos de Fake News e pós-verdade, há de se questionar narrativas cristalizadas, mesmo que façam parte do imaginário e da crença de uma maioria. Mesmo as mais aleatórias "mentiras coletivas", como essa lenda da internet, tem muito a nos ensinar sobre o passado e o que lembramos dele.

[1] Conferir: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/empresarios-bancam-campanha-contra-o-pt-pelo-whatsapp.shtml

[2] HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2003, p. 71.

[3] ALBUQUERQUE JR., Durval. História: a arte de inventar o passado. Bauru. São Paulo: EDUSC, 2007, p. 204.

[4] CANDAU, Joël. Memória e identidade. São Paulo: Contexto, 2018, p. 16.

[5] RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas, SP: Ed. Unicamp, 2007.

[6] Conferir: https://maisdeoitomil.wordpress.com/2017/09/11/a-mentira-coletiva-do-dia-em-que-um-atentado-terrorista-interrompeu-dragon-ball-z-na-globo/?fbclid=IwAR02PCKw1PBsS8V_WGmTLaQdZ9vASa9qFotARHBN-Srhg2BjmnBOmJsa90E

[7] Conferir: https://natelinha.uol.com.br/noticias/2015/09/11/atentados-de-11-de-setembro-nao-interromperam-dragon-ball-z-na-globo-92432.php

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