Uma história de possessão demoníaca no século XVI (“Isto é coisa do diabo!”, parte II)

Por Philippe Sartin

27 de Nov de 2018

Em 3 de novembro de 1565, na pequena cidade de Vervins – que abrigava à época um bom número de huguenotes –, a jovem Nicole Obry, de 16 anos de idade (casada desde os 13) teve um inesperado contato com o além. Enquanto fazia orações diante da tumba de seu avô materno, Joachim Vuillot – recém falecido, sem confissão – o mesmo lhe apareceu, de modo apavorante, perseguindo-a, quando esta desatara a correr. Mas debalde: meteu-se-lhe corpo adentro o espectro, quebrantando-lhe os membros e o juízo, ao ponto de providenciarem à menina uma extrema unção.

 

O espírito do defunto não se fez de rogado: clamava dia e noite por missas e romarias que o libertassem das agruras do purgatório. Sua família dividia-se entre a pia solicitude e a franca incredulidade. Duvidava-se, ao cabo, se o espírito que a atormentava seria mesmo o do patriarca, razão pela qual recorreu-se ao cura da paróquia mais próxima. Que nada pode extorquir-lhe, é preciso dizer, senão penosas exigências, como uma visita ao santuário de Compostela.

 

Durou pouco o engodo do defunto, pois ao fim daquele mês o dominicano Pierre de la Motte, chamado a socorrer a infeliz Nicole, determinou que se tratava de uma autêntica possessão diabólica. Sucederam-se diversos exorcismos – assistidos pelo bispo de Laon, Jean de Bours – durante os quais descobriu-se que ninguém menos que Belzebú, habitando o corpo da jovem e chefiando uma trintena de demônios, declarava-se príncipe dos huguenotes (como eram conhecidos, grosso modo, os calvinistas franceses) e inimigo da verdadeira Igreja, a Católica. A maioria de seus sequazes, graças aos exorcismos, voou de volta a Genebra (o reduto do calvinismo).

 

Renitente em deixar o corpo de Nicole, o atrocíssimo Belzebú foi finalmente exorcizado na catedral de Laon, após inúmeros percalços, debates teológicos com o bispo, protestos dos calvinistas (afinal, o Edito de Ambroise, de 1563, garantia a liberdade de consciência a estes últimos, violada pelos impropérios de Nicole e seus demônios). Um palco fora montado às portas da catedral, e graças à persistência do prelado em lançar mão da hóstia consagrada, a possessão diabólica chegou ao seu fim.

 

O evento, doravante conhecido como “o milagre de Laon”, deu origem a muitas publicações, influenciou sucessos posteriores e tornou-se o símbolo da vitória da verdadeira Igreja contra os heréticos seguidores de Calvino, cuja humilhação teológica – arrogava-se, à época – fez-se evidente no triunfo do “corpo verdadeiro de Cristo”, um mistério negado pelo teólogo de Genebra, contra o real chefe de sua seita, o senhor das moscas, Belzebú.

 

Este episódio é um bom exemplo da demonização stricto senso a que me referi anteriormente, visível aqui de dois modos distintos. Em primeiro lugar, demonizou-se o contato estabelecido, segundo se supunha, com o mundo suprassensível, o além-túmulo: a transformação dos espíritos dos mortos em demônios e a rejeição do comércio com as almas dos antepassados foi um traço distintivo do catolicismo reformado, institucionalizado pelo Concílio de Trento (1545-1563). A vivência da religiosidade passaria, a partir da segunda metade do século XVI, a ser tolerada somente se adequada aos limites estabelecidos pela Igreja: batismos, missas, romarias, confissão sacramental. Tudo o que destoasse da religião rotineira seria visto com enorme desconfiança e muitas vezes punido pelo poder inquisitorial.

 

Em segundo lugar, demonizaram-se os protestantes, atribuindo-lhes lugar de destaque (ao lado dos judeus e das bruxas, como veremos) nas hostes demoníacas, dedicadas à destruição da verdadeira fé por meio da heresia e, agora, da possessão. O episódio não fez senão perturbar o delicado equilíbrio de um período que seria conhecido, futuramente, como o das “Guerras de Religião”, durante o qual católicos e huguenotes digladiaram-se em episódios de enorme crueldade e intolerância. Estudar momentos como este, como é evidente, faz-se mais que necessário no mundo atribulado em que vivemos.

Utilizei, para escrever este texto, os seguintes livros:

 

BACKUS, Irena . Le miracle de Laon. Le déraisonnable, le raisonnable, l’apocalyptique et le politique dans les récits du miracle de Laon (1566-1578). Paris: J. Vrin, 1994.

 

BOULAESE, Jean. Le Thresor et entiere histoire de la triomphante victoire du corps de Dieu sur l’esprit maling Beelzebub, obtenuë a Laon l’an mil cinq cens soixante six, Paris: Nicolas Chesneau, 1578.

 

DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente 1300-1800. Uma cidade sitiada. São Paulo: Compahia de Bolso, 2009.

 

FERBER, Sarah. Demonic Possession and Exorcism in Early Modern France. New York: Routledge, 2004.

 

WALKER, D. P. Unclean spirits. Possession and exorcism in France and England in the late sixteenth and early seventeenth centuries . London: Scolar, 1981.

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