É possível falar em identidade nacional brasileira?

Por Johnny Taliateli

12 de Jan de 2019

Em época em que figurões chave do cenário nacional expõem suas ideologias conservadoras convém passarmos a discutir certos termos e problemas que são colocados sem cuidado para o grande público. Agora, alguns senhores se dizem contra o globalismo, responsável na ótica deles por efeitos perversos. Está aí um termo que é preciso falar a respeito em outro momento, no entanto, o texto de hoje tende a iniciar uma discussão sobre identidade nacional. É imperativo começar esse debate aqui no Ogro, pois quando forças conservadoras se colocam contra esse globalismo ou outros fantasmas que servem para alimentar a sua retórica, elas tendem a dar preponderância ao discurso do patriotismo. “Ó Pátria amada, idolatrada, Salve! Salve!”. Importa então falar da nacionalidade.

 

Os Estados-nações soberanos são assim conhecidos por possuírem coesão territorial, tendo uma área geográfica específica ocupada por membros dessa nação que, por sua vez, possuem características comuns partilhadas, como uma história de origem, a língua, cultura comum, composição étnica. Apesar do conceito de nação ser antigo, a forma dos Estados-nações e os nacionalismos como conhecemos hoje é mais um produto oriundo do século XIX. Época da criação de uma Europa de nações-Estados que em termos internacionais se afirmavam como nacionalidades rivais[1].

 

Logo, seria possível falar em identidade nacional? As identidades culturais de uma pessoa bebem na fonte do que poderíamos chamar de culturas nacionais. Nesse sentido, o local de nascimento acaba por ser elemento constitutivo dessa identidade. Definimo-nos como brasileiros, mas também como goianos, paulistas, mineiros, cearenses etc. Pensamos nisso como parte de nossa natureza, é elemento essencial cultural para dizer quem somos nós, produtos de uma comunidade imaginada. O Estado-nação é composto de uma teia poderosa de significados[2]. Assim, a nacionalidade é identidade, produtora de todo um patrimônio comum, um caldo cultural que faz parte da vida daqueles nascidos na pátria.

 

Portanto, apresenta um conjunto de elementos simbólicos que caracterizam a identidade nacional, que conferem a consciência de unidade e marca as diferenças em relação aos outros, a alteridade. No caso brasileiro, como a independência foi proclamada por um príncipe português, esse outro que seria Portugal representava um problema para a constituição da nação que estava sendo formada. A construção de nossa nacionalidade começou assim com a nacionalização do monarca, Pedro I, mostrado como alguém que renuncia a Portugal para assumir o Brasil. É o que explica a representação construída em cima da independência e que passou para os manuais de História com o famoso grito de “Independência ou Morte” na colina do Ipiranga. Se essa herança portuguesa na construção da identidade brasileira devia ser levada em conta, era preciso apresentar o brasileiro como um outro diferente do lusitano[3].

 

A literatura desempenhou um papel fundamental na construção da nacionalidade. O romantismo de José de Alencar foi de suma importância para elaboração da identidade brasileira. Em O Guarani escreveu sobre a paisagem típica do país, terra em que não ocorrem os cataclismos naturais, assim como acerca das peculiaridades da língua. Foi com o Romantismo que se passou a ser construído a noção de que a cultura brasileira se assenta na mistura. O casal inicial da obra de Alencar era formado por um índio e uma portuguesa. O primeiro aceitava os valores cristãos, enquanto a mulher acolhia “os valores da natureza do Novo Mundo”[4]. Mas O Guarani foi escrito em um período em que a escravidão ainda estava em curso no Brasil e o próprio Alencar fazia defesa do sistema, o que explica em parte no contexto do autor, sua tentativa em construir a nacionalidade brasileira na mestiçagem entre o europeu e o indígena.

 

Mais tarde, os representantes do chamado Movimento Modernista da década de 1920 procuraram estudar os elementos da cultura brasileira. Para Oswald de Andrade em seu Manifesto Antropófago, o brasileiro se tornava mais forte ao absorver os elementos bons de outras culturas. Ele inverteu a figura do bom selvagem em relação ao indígena para dizer que ele digeria o colonizador, fazendo-o se tornar parte de sua própria carne. Logo, o brasileiro do autor é aquele que assimila.

 

A partir dos anos 1930, no governo Vargas, foi sendo moldado o estereótipo do Brasil como o país da alegria. A animação do povo brasileiro tomou conta de ensaios e campanhas turísticas. Não demorou para que esse imaginário alcançasse um cenário global. Essa identidade alegre foi destacada em imagens, ritmos e símbolos, como todo aquele show que os brasileiros faziam para o mundo no carnaval, e aquele outro pelo qual somos muito famosos e conhecidos, o futebol[5].

 

Se com a literatura do século XIX era a mescla do índio com o europeu que fabricava o ser brasileiro, ao longo do século XX foi sendo trabalhada a ideia de nação formada por “três raças”. Vários intérpretes do Brasil, por exemplo, se esforçavam em popularizar a ideia de que a peculiar alegria do brasileiro era um legado dos negros africanos. Se Gilberto Freyre dizia que foram eles que animaram a vida doméstica dos brasileiros, Jorge Amado enfatizava que a tristeza era coisa de branco, o povo mestiço tinha herdado a alegria do negro[6]. Concepções romantizadas, é claro, acerca de uma mistura que se deu por meio de processos violentos.

 

O Brasil segue sendo um dos campeões em desigualdade social, o que querendo ou não, reflete o fato de sermos o último país a abolir a escravidão no Ocidente. Se fizemos de nossa marca identitária a mestiçagem, da mistura de costumes e cores, uma representação nacional, esse amálgama se consolidou por meio de práticas violentas, pela entrada forçada de povos, resultado da compra de africanos para o trabalho escravo nas colônias agrícolas dessa terra. Por outro lado, foram muitas as etnias africanas que para cá vieram e agregaram ao nosso atual hibridismo cultural, fazendo do Brasil no campo da cultura, país de diversidade[7].

 

Segundo Stuart Hall, as culturas nacionais acabam por tentar costurar uma série de diferenças dentro de uma única identidade. Essas identidades nacionais não estão livres dos jogos de poder e das contradições internas. As identidades modernas são fragmentadas, não são fixas, permanentes, são mais como uma “celebração móvel”[8]. Bauman tem perspectiva parecida, defende que o “pertencimento” e a “identidade” não são sólidos como uma rocha, são negociáveis e até revogáveis. Nessa época líquida e moderna “o mundo em nossa volta está repartido em fragmentos mal coordenados, enquanto nossas existências individuais são fatiadas numa sucessão de episódios fragilmente conectados”[9].

 

O autor descreve que a identidade nacional foi e continuou sendo um grito de guerra. É o Estado que tenta se sobrepor ao agregado de indivíduos com a ideia de uma comunidade nacional coesa. Ora, isso tem a ver com a própria garantia da sua continuidade[10].

 

Hall chama a atenção para como as “metanarrativas” da modernidade, tanto o liberalismo, quanto o marxismo, em suas diferentes formas, acreditavam que os mitos nacionais, as raízes e a tradição, os apegos irracionais ao local e particular, dariam lugar gradualmente a identidades mais racionais e universalistas. Não previram o ressurgimento do nacionalismo e outros particularismos no fim do século XX. Por sua vez, a globalização também não parece estar produzindo o triunfo do “global”[11]. De tão difícil de explicar as contradições desse nosso mundo, surgem os gurus com as fórmulas mágicas que dizem conhecer a “verdade”.

 

A todos aqueles que acreditam que o esforço de pensar é válido, pergunto: o que caracteriza a identidade nacional? É possível falar em identidade brasileira? Já que se fala tanto em ser patriota agora, te convido para o esforço, defina o brasileiro hoje.

 

[1] HOBSBAWM, Eric J. A Era do Capital 1848-1875. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz & Terra, 2017, p. 138.

[2] HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

[3] FIORIN, José Luiz. A construção da identidade nacional brasileira. Bakhtiniana, São Paulo, vol. 1, n. 1, 2009, p. 116-117.

[4] Ibidem, p. 118-119.

[5] FILHO, João Freire. Era uma vez o “país da alegria”: mídia, estados de ânimo e identidade nacional. Intexto, Porto Alegre, UFRGS, n.34, 2015, p. 402.

[6] Ibidem, p. 404.

[7] SCHAWARCZ, Lilia M.; STARLING, Heloisa M. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 14-15.

[8] HALL, Stuart. Op. cit.

[9] BAUMAN, Zygmunt. Identidade. Entrevista a Benedetto Vecchi. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge ZAHAR Editor, 2005, p. 18-19.

[10] Ibidem, p. 27.

[11] HALL, Stuart. Op. cit.

whatsapp-logo-1.png

Comentários

Ogro nas redes

  • Perfil do Ogro Historiador
  • Instagram

2018 Ogro Historiador | Ao reproduzir qualquer conteúdo deste portal, dê os créditos.