Indícios, dinossauros e equívocos

Por Philippe Sartin

18 de Dez de 2018

Pensando bem, acho que nunca quis ser historiador. Quando criança, pelo menos, queria ser paleontólogo. Acordava às 5 horas, no domingo, para assistir “Paleomundo”, num tempo em que a Discovery passava esse tipo de conteúdo. Me lembro do Bob Bakker, de Yale, com sua enorme barba branca, cortando o pescoço de um Brontosaurus com um machado. Tinha dinossauros de plástico, colecionava livros e me jactava de saber um sem número de espécies. Pudera: cresci assistindo “O parque dos dinossauros” (isso mesmo, dublado), querendo ser como o professor Alan Grant e achando linda a Laura Dern.

 

Mas cursei história e acredito, olhando para trás, que o que realmente me fascinou durante muitos anos foi menos o aspecto “irado” dos dinossauros (do Parasaurolophus ao Stegosaurus) que o trabalho de campo, a cata de indícios, fragmentos de ossos, pegadas, coprólitos. O paleontólogo, assim como o historiador, o detetive, o médico – para lembrar do famoso artigo de Carlo Ginzburg – realiza uma divinação às avessas, perscruta os vestígios de outro tempo, fareja pistas: seu trabalho, entre árduo e minucioso, é investigar e explicar, em bases materiais, a existência de um evento (ainda que se possa remetê-lo a uma cronologia geológica).

 

Essa é, com efeito, e a um só tempo, a glória e maldição do saber indiciário. A conexão real e não apenas formal entre os fenômenos tem como contrapartida o limite da probabilidade. Nunca é possível dizer, com total certeza, que a realidade (seja ela qual for) surgirá das provas, mas apenas que a resposta dada pelo pesquisador é provável, razoável, plausível. Não raro, é forçoso admitir, de conexões fulminantes redundam erros clamorosos.

 

A história da paleontologia não deixa mentir. A começar pelo grande equívoco do chifre do Iguanodon. Trata-se de uma das primeiras espécies descritas, encontrado pela primeira vez em 1809, nas minas de carvão em Sussex, por William Smith e nomeado em 1825 por Gideon Mantell (1790-1852). A análise comparada de seu esqueleto, parcialmente preservado, com os do Megalosaurus (1824) de William Buckland e o Hylaeosaurus, também descrito por Mantell, foi o ponto de partida para o anatomista Richard Owen (1804-1892) cunhar o termo “dinossauro” em 1842. O mais famoso equívoco acerca do Iguanodon diz respeito ao pequeno chifre (visível na famosa exposição organizada por Owen para o Crystal Palace), plantado acima do nariz pela ausência de melhores informações. Com a descoberta de 40 esqueletos nas minas de Bernissart, na Bélgica, em 1878, e a posterior análise de Louis Dollo (1857-1931), ficou evidente que o pequeno chifre era uma grande e incomum unha do dedão!

 

Outro grande equívoco da paleontologia ocorreu à época das famosas Bone wars, como ficou conhecida a série histórica de disputas entre dois importantes paleontólogos americanos, Edward Drinker Cope (1840-1897) e Othniel Charles Marsh (1831-1849). Competindo entre si de forma desabrida, com fraudes e sabotagens mútuas, esses dois foram responsáveis pela descoberta e popularização de espécies como o Triceratops, o Stegosaurus e o Apatosaurus. Este último é uma grande gafe: foi batizado inicialmente como Brontosaurus (como é ainda hoje conhecido por muitas crianças) e teve o nome mudado (apatossauro, “lagarto falso”) quando se descobriu que, no afã de vencer a disputa pessoal com Cope, Marsh colocara o crânio de um Camarasaurus em seu esqueleto!

 

Como se vê, um conhecimento baseado em indícios e comparações está aberto à conjetura e pode muito bem levar ao erro e à mistificação. Apenas a pesquisa contínua e as novas chaves de leitura podem refinar o que se sabe acerca de uma dada realidade. Quando se descobriram penas em esqueletos de dinossauros – o que foi uma pena, para minha infância – a compreensão que se tinha desses animais se transformou. Os ágeis dromeossaurídeos de Jurassic World nada tem em comum com os enormes iguanodontes de sangue frio de Sir Richard Owen.

 

Trabalhar com indícios é ter a mente sempre aberta!

 

Referências:

 

CARPINELLI, Amy; CLARY, Renee; WANSDERSEE, James. The Great Dinosaur Feud: Science Against All Odds. Science Scope, Vol. 32, No. 2, Earth Materials, Features, and Processes (OCTOBER 2008), pp. 34-40. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/43182520

 

GINZBURG, Carlo. “Sinais: raízes de um paradigma indiciário”, In: ______. Mitos, emblemas, sinais. Morfologia e história. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

 

NORMAN, David. Dinossauros. Porto Alegre: L&PM, 2011.

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