Invocando Cincinato

No ano de 2020, um general do Exército Brasileiro (que havia pedido demissão do Governo Bolsonaro) escreveu um texto intitulado “O Arquétipo Cincinato”. Nele, a imagem do personagem romano é exposta como exemplo de desprendimento político. A premissa para tal, segundo o próprio autor, é que “após pacificada a República, [Cincinato] renunciou duas vezes ao cargo de ditador, e retornou à sua quinta” [link]. Meses depois, enquanto eu assistia a uma entrevista de um delegado da Polícia Federal (que havia sido exonerado de um cargo de chefia pelo mesmo governo) dada a um famoso youtuber, Cincinato apareceu novamente. Evocado como inspiração, um homem que, segundo as palavras do delegado, poderia desejar o poder supremo, mas que depois de cumprir o seu dever voltou para “o seu sítio”. 

 

Nas duas circunstâncias é possível apontar certas similaridades na mobilização da imagem do romano. Tanto o general demitido quanto o delegado exonerado de suas funções evocam indiretamente a figura de uma república em risco por conta da sede de poder de alguns indivíduos e, contra tal, clamam pela volta de uma outra moralidade pública, simbolizada no homem que tinha tudo para aspirar a um grande poder, mas que abriu mão dessa possibilidade para voltar a segurar sua enxada. 

 

Essa admiração pela figura de Cincinato não é exclusiva do Brasil contemporâneo. Até onde se sabe, George Washington, um dos “founding fathers”, tinha grande admiração pelo personagem ao lado de outras figuras da história romana como o Imperador Marco Aurélio e Catão, o Jovem. Inclusive, muito se fala da influência da figura de Cincinato nas decisões tomadas por Washington nos eventos de 1783, quando ele renunciou ao comando militar e, tempos depois, assumiu a presidência da Sociedade de Cincinnati. 

 

Recuando mais (aliás, muito mais), essa áurea heroica é observada mesmo entre os romanos. Quando li pela primeira vez o manual militar escrito por Vegécio no final do século IV depois de Cristo, ou seja, oitos séculos após a morte de Cincinato, uma coisa que me marcou foi a maneira como a figura de Cincinato apareceu no Compêndio da Arte Militar. Ao tratar da questão da “corrupção” dos valores bélicos romanos, Vegécio assim dizia: 

 

"Não se deve negar que, depois da fundação da sua cidade, os romanos dela sempre partiram para a guerra. Mas, nesse tempo, não estavam enfraquecidos por nenhuns prazeres e por nenhuns luxos; a juventude lavava o suor acumulado na corrida e nos exercícios de campo nadando no Tibre; ao mesmo tempo guerreira e agricultora, trocava somente de tipo de armas; de tal forma isto é verdade que se sabe que a ditadura foi oferecida a Quíncio Cincinato enquanto este lavrava" (VEGÉCIO. Compêndio da Arte Militar. I, III). 

 

Vegécio fazia no trecho um elogio aos costumes marciais romanos do passado e uma crítica aos costumes contemporâneos. Roma foi o ponto de partida de uma população que guerreava, mas essa cidade era de uma juventude que se exercitava e se banhava no Rio Tibre, uma juventude guerreira e agricultora ao mesmo tempo (idem Bellator, idem agricola). A figura de Lúcio Quíncio Cincinato é evocada nesse ponto, já que ela é considerada o símbolo do perfeito equilíbrio entre a vida guerreira e campesina. O episódio narrado no Compêndio da Arte Militar remete ao passado republicano relatado, por exemplo, nas páginas da obra História de Roma desde a Fundação da Cidade, escrita por Tito Lívio. Isso porque diante de uma invasão dos équos e da incompetência do cônsul Náucio em lidar com o ataque, a ditadura foi oferecida a Cincinato no ano de 458 a.C. O relato de Lívio esclarece que, quando da chegada dos emissários do Senado, Cincinato cuidava de suas quatro jeiras de terra com a enxada em mãos ou usando uma charrua. Tal caso é tão simbólico que o general mandou sua mulher, Racília, buscar sua toga na cabana (tugurium) e, só depois de se limpar, recebeu a ditadura.

 

Estátua de Cincinato criada por Denis Foyatier no Jardim das Tulherias, Paris. 

Disponível na Wikipédia

 

Podemos encontrar referências também à figura de Cincinato nas histórias de Dion Cássio, escritas no século II d.C., ou nos textos de Dionísio de Halicarnasso e Tito Lívio, produzidos entre os séculos I a.C. e I d.C. Nas páginas desse último autor inclusive, encontramos referências mais detalhadas às ações de Cincinato no longínquo século V a.C. O que geralmente atribuem aos aspectos factuais de sua vida é que ele foi um cônsul, que recebeu sua primeira ditadura em 458 a.C., quando o cônsul Minúcio Esquilino estava cercado pelos équos, e a segunda quinze anos depois durante uma crise interna, lembrada inclusive por Cícero. São essas algumas das fontes a narrar os feitos do abnegado Cincinato. 

 

Ora, se levarmos em conta que todas as fontes que fazem referência à figura de Cincinato se localizam cronologicamente séculos após os episódios de sua vida, é possível perceber que a figura de Cincinato está em um patamar de grande idealização. É possível que ele tenha existido? Sim. Contudo, essa grande distância temporal aliada à ausência de referências (escritas ou arqueológicas) mais específicas sobre tal personagem são indicativos de que devemos entender Cincinato muito mais pelo prisma da construção e reconstrução de sua imagem do que o da mera atestação da existência dessa figura. Talvez isso explique muita coisa. Notem, Roma teve diversos grandes generais e sou capaz de citar alguns deles facilmente: Cipião Emiliano, Mário, Pompeu, César, Marco Aurélio, Constantino entre outros. Todavia, todos esses possuem uma vasta documentação que versa sobre eles e que aponta, para além de suas imensas virtudes, também os seus vícios. Cincinato, não. A ele somente são atribuídas virtudes, ele seria um homem que se dedica a uma vida simples no campo, mas que, se preciso for, deixa seu arado e coloca sua toga para salvar a República, para depois voltar novamente à sua vida simples.

 

Por isso, evocar o modelo Cincinato para o presente, seja como “arquétipo” ou como simples parâmetro é bastante complicado. Primeiro, porque sabemos muito pouco da vida de Cincinato para além daquilo que fontes bens posteriores legaram e por isso nossa imagem dele é uma grande mistura de fragmentação e idealização. Isso não acontece com figuras como Mário, Júlio César ou Teodósio, homens que conviveram com um grande lastro de informações biográficas. Em segundo lugar e pensando na realidade contemporânea de superexposição da vida das pessoas, é dificílimo seguir um arquétipo tão pleno de virtudes e vazio de defeitos. Aliás, quando se leva em conta que Santa Cruz é general do Exército Brasileiro, Saraiva é delegado da Polícia Federal e George Washington foi, além de político, um militar com atuação em diversas batalhas, é possível perceber certa consonância na evocação de Cincinato como um “arquétipo” não geral, mas eminentemente entre figuras militares (ou muito próximas isso, como é o caso da PF). Sendo assim, mais do que interrogar sobre Cincinato, cabe deslocar a questão e perguntar: por que essa figura é constantemente evocada como modelo por aqueles que vivem uma vida de caserna? 

*Este conteúdo também está disponível no formato de podcast. Acesse aqui

 

Fontes Antigas

 

DION CÁSSIO. Roman History. Trad. Earnest Cary. Londres: William Heinemann, 1961.

DIONÍSIO DE HALICARNASSO. The Roman Antiquities. Trad. Earnest Cary. Londres: William Heinemann, 1963.

TITO LÍVIO. História de Roma desde a Fundação da Cidade. Trad. Paulo Matos Peixoto. São Paulo: PAUMAPE, 1989. v.1.

VEGÉCIO. Compêndio da Arte Militar. Trad. J.G. MONTEIRO e J. E. BRAGA. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2009.

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