“Isso é coisa do diabo!” – Parte I

Por Philippe Sartin

20 de Nov de 2018

Este é o primeiro de uma série de textos dedicados ao tema da demonização, assunto de máxima importância em tempos de desvario político, cegueira cultural e intolerância pura e simples. O que proponho ao leitor, nas linhas abaixo (e em textos futuros) é uma reflexão aprofundada – e organizada, segundo um itinerário propriamente histórico – acerca deste infeliz e, todavia, significativo viés da vida pública, do debate intelectual e do discurso religioso. O que significa, com efeito, demonizar o outro?

 

Comecemos pelo óbvio: trata-se, afinal e sempre, de um entendimento da alteridade. O demonizado é sempre o Outro, o diferente, o estranho, aquele com o qual não compartilho elementos de minha identidade ou, ao contrário, justamente aquele cuja semelhança – todavia deturpada – é sentida como ameaça para tornar-se, enfim, objeto de exclusão. O crítico literário e teórico das ciências humanas René Girard identifica o mecanismo do bode expiatório como elementar no processo de constituição de qualquer sociedade: trata-se, afinal, da responsabilização de indivíduos – cujo pertencimento ao corpo social é problemático – pelas tragédias acaso sucedidas. O inculpamento, artificial e arbitrário, baseia-se em critérios de seleção vitimária calcados na alteridade: assim o estrangeiro, a prostituta, o filho bastardo, o deficiente, o representante de uma minoria étnica – em suma, o indivíduo liminar – tornar-se-á o receptáculo das culpas coletivas e o objeto indene de uma violência cega e sem rosto. Sua morte o transformará, posteriormente, em divindade: sacrifício, sacrum facere. Assim é a vida, life goes on.

 

Embora um tanto fatalista, este é um primeiro e mais básico entendimento do processo de demonização verificado um pouco por toda parte, ao longo do tempo e do espaço. Demonizar o outro – ou seja, exagerar-lhe as faltas, encobrindo a própria culpa, e transformá-lo em causa eficiente das desgraças experimentadas no dia-a-dia – pode ser entendido, lato sensu, como uma lógica transcultural tão difundida quanto o etnocentrismo e, do mesmo modo, bastante difícil de evitar, uma vez enraizada enquanto mecanismo de defesa a níveis psicológicos e sociais elementares. O desvelamento, igualmente proposto por Girard, trazido pelo cristianismo acerca da arbitrariedade de qualquer inculpamento expiatório – pois se trata, afinal de contas, de uma religião calcada na inocência absoluta de uma vítima, Jesus de Nazaré – não basta para debelar os processos de demonização e exclusão percebidos como necessários para a manutenção dos equilíbrios sociais, sempre aspergidos, deste ponto de vista, com o sangue dos inocentes.

 

Um segundo nível de compreensão dos processos de demonização deve, entretanto, tomar o espaço de nossas reflexões. Trata-se de seu aspecto propriamente histórico, enraizado numa compreensão da alteridade que é típica do Ocidente cristão, forjada ao longo dos séculos. Refiro-me à demonização stricto sensu, aquela em que a figura do diabo torna-se a chave de leitura da diferença, do desvio à norma e do Outro enquanto elemento de uma dialética identitária tantas vezes catastrófica.

 

Em seu clássico Europe’s inner demons (Os demônios interiores da Europa, em tradução livre), o historiador Norman Cohn propõe-se a estudar tais processos rastreando a genealogia dos mitos conspiratórios. Se no auge do império romano os judeus e, posteriormente, os cristãos seriam acusados – ante a renitência em prestar o culto cívico ao imperador – de deteriorar a pax deorum, trazendo calamidades sobre Roma e, paralelamente, de conspirar em reuniões escusas contra a política imperial – reuniões durante as quais a ordem cívica era invertida, cometendo-se assassinatos de crianças, orgias e realizando-se cerimônias extravagantes –, com o desenvolvimento da cristandade novas minorias seriam de igual modo indigitadas: novamente os judeus, os hereges (um bom exemplo são os valdenses), os templários e, finalmente, as bruxas. A demonização latu sensu – uma extrapolação, portanto, anacrônica – adquire em fins da Idade Média os contornos da demonização em sentido estrito: tais minorias seriam associadas, intimamente, à figura do Diabo. Tramariam, desde o seio da própria cristandade, a sua destruição – envenenando os poços, provocando malefícios e calamidades, profanando os sacramentos. Virando o mundo às avessas.

 

Foi na Época Moderna, entretanto, que a demonização do Outro converteu-se em horizonte civilizacional. O encontro com os novos mundos e a descoberta de diferentes humanidades forçou ao seu limite o aparato intelectual europeu, convertendo, com o auxílio de uma interpretatio christiana, a diferença cultural e as dificuldades de comunicação e catequização em sinais evidentes de um domínio diabólico que era forçoso exorcizar. Esta é, com efeito, a tese de Laura de Mello e Souza em seu famoso O diabo e a Terra de Santa Cruz: paralela à visão edênica discernível em tantos cronistas a respeito da América portuguesa, destaca-se uma visão pessimista tendente a assimilar supostas falhas no processo civilizacional ao poderio do diabo sobre os habitantes do que viria a ser o Brasil. Signo de uma humanidade decaída e corrompida, o habitante do Novo Mundo deveria ser corrigido, disciplinado e purificado para, finalmente, ser absorvido por um rígido e vasto corpo social.

 

O que se conclui destes breves exemplos é que a demonização em seu sentido mais restrito – ou seja, a assimilação dos atos, costumes e caracteres de determinadas pessoas ou grupos sociais à figura do Diabo – embora possa ser dissolvida no modelo mais abrangente e, portanto, abstrato da demonização lato sensu, conserva em relação a esta a primazia de uma configuração histórica de longa duração. Pois o que se verifica é que, uma vez que a figura do Diabo, tal como a conhecemos comumente na literatura, na pintura e no cinema, é uma criação eminentemente cristã – ou seja, não encontra paralelos mais que vagamente analógicos em culturas diferentes – a demonização, em seu sentido mais próprio, possui origens no cristianismo e não pode ser confundida com a mera criação de bodes expiatórios aqui e acolá.

 

Demonizar o outro, em sua acepção mais própria, significa, portanto, inseri-lo numa ordem religiosa específica (a cristã) a partir de mitos muito particulares (a existência e a história do Diabo) expropriando-o de suas particularidades culturais, ideológicas e sociais. Afirmar, por exemplo, que a “macumba (sic) é coisa do diabo” é aderir, por meio de uma ignorância histórica estridente, ao discurso demonizador do Ocidente cristão que não compreende (e se dispensa, no limite, de fazê-lo) a diferença cultural e, abrindo mão de uma consciência histórica crítica e fundamentada, reduz o Outro a um exemplo pálido e deturpado de Si Mesmo.

 

Uma rápida ilustração disto que se está discutindo pode-se verificar no domínio daquela que é uma das experiências mais difundidas culturalmente. Refiro-me à possessão por espíritos, realidade cujo espectro (composto de diversos estados de alteração de consciência, dos quais a possessão é um exemplo) verifica-se, segundo um estudo da década de 1970, em 90% das sociedades conhecidas graças ao esforço etnográfico. Não seria exagero afirmar que a maioria absoluta destas sociedades não considera que os casos de possessão (muitas vezes cultivados e institucionalizados) possuam origens diabólicas. O oposto está mais próximo da verdade: é bastante provável que somente naquelas culturas em que o cristianismo conheceu alguma penetração a possessão por espíritos (ancestrais, animais, entidades cósmicas etc.) converteu-se em possessão demoníaca. Mesmo nestas últimas, exemplos como o do candomblé brasileiro e o do vodu haitiano (em contínuo contato com o cristianismo) bastariam para dissolver a hipótese simplista da assimilação.

 

A “macumba”, para retomar o exemplo acima, não pode jamais, portanto, ser “coisa do diabo” de um ponto de vista externo ao fundamentalismo religioso, porque as religiões de matriz africana não baseiam os fundamentos de suas práticas e crenças na figura do Diabo, esta sim, essencialmente cristã. É somente a incompreensão histórica a responsável por dar azo a mistificações perigosas como esta, e impossíveis de ser sustentadas de um ponto de vista racional (por meio de crítica das fontes, dos conceitos e dos sujeitos do conhecimento). A demonização responde a uma lógica arcaica e despreocupada com a verdade dos fatos, tantas vezes responsável pelo mito, infelizmente ainda muito difundido, da Idade Média como a Idade das Trevas.

 

Não pretendo inventar a roda ou libertar as minorias demonizadas por meio deste texto (e de outros, a se seguir no futuro). Proponho tão somente a reflexão: seria mesmo necessário basear nossa compreensão de mundo em lógicas datadas e obscuras como estas? O conhecimento da história não seria suficiente para rever ações e discursos deletérios acerca do Outro? A vida é possível sem demônios interiores? Pensemos, caros leitores.

 

 

 

Utilizei, para escrever este texto, os seguintes livros:

 

AGNOLIN, Adone. Jesuítas e selvagens. A negociação da fé no encontro catequético-ritual americano-tupi (séculos XVI-XVII). São Paulo: Humanitas, 2007.

 

BOURGUIGNON, Erika. “A Framework for the Comparative Study of Altered States of Consciousness”, In: ______ (Org.) Religion, Altered States of Consciousness, and Social Change. Columbus: Ohio State University Press, 1973, pp. 3-38.

 

COHN, Norman. Europe’s inner demons. The demonization of Christians in Medieval Christendom. Chicago: The University of Chicago Press, 2000.

 

GIRARD, René. O bode expiatório. São Paulo: Paulus, 2004.

 

SOUZA, Laura de Mello e. Inferno Atlântico. Demonologia e colonização: séculos XVI-XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

 

______. O diabo e a Terra de Santa Cruz. Feitiçaria e religiosidade popular no Brasil Colonial. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.

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