Luciano Huck e Ronald Reagan

Por João Oliveira Ramos Neto

26 de Nov de 2020

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Luciano Huck à esquerda (foto de Romério Cunha) e Ronald Reagan na direita.

A possível candidatura do apresentador Luciano Huck à presidência da República em 2022 parece absurda aos olhos da população politizada, mas é importante lembrar que ter personalidade midiática se candidatando para cargo público eletivo não é tão incomum e, muito menos, fenômeno específico do Brasil. No passado, outros famosos da televisão também já misturaram a carreira na telinha com a carreira política.

Em 1989, na primeira eleição direta após o período de ditadura militar (1964-1985), o empresário e apresentador Silvio Santos se lançou candidato à presidência da República pelo PMB – Partido Municipalista Brasileiro. Ele liderava as pesquisas de intenção de votos quando, faltando uma semana para o pleito, o Tribunal Superior Eleitoral barrou a sua candidatura. Foram dois motivos: o partido não tinha cumprido as exigências da legislação para ter seu registro definitivo aprovado pelo TSE e o próprio Silvio Santos não poderia concorrer por ser dono de uma empresa concessionária do serviço público. Porém, diferente dele, outros dois conseguiram obter mais sucesso na empreitada, mas não aqui na parte sul da América: estamos falando de Ronald Reagan e Arnold Schwarzenegger.

Ronaldo Reagan nasceu em 1911, em Illinois, e iniciou sua carreira profissional como radialista esportivo. Em 1937 começou sua carreira como ator em Hollywood, o que lhe daria fama internacional. Em 1950 migrou para a televisão. Ao todo, foram 63 filmes e 16 programas televisivos. Em 1966, foi eleito governador da Califórnia pelo Partido Republicano, sendo reeleito em 1970. E, em 1980, depois de ter sido derrotado nas primárias de 1968 e 1976, finalmente conseguiu se lançar candidato a presidente dos Estados Unidos, sendo eleito após derrotar o democrata Jimmy Carter. Em 1984, foi reeleito em uma votação histórica: conquistou 525 delegados do colégio eleitoral e 58,8% do voto popular. Seu concorrente, Walter Mondale, obteve apenas 13 delegados e 40,6% do voto popular. Reagan faleceu em 5 de junho de 2004, em Los Ângeles.

Já Arnold Schwarzenegger nasceu em 1947, na Áustria, e mudou-se para os Estados Unidos em 1968. Iniciou sua carreira como ator de Hollywood em 1970, fazendo o papel de Hércules no filme Hercules in New York. E foi em 1984 que ele começou a trilogia que consagraria definitivamente sua fama internacional: O exterminador do futuro. Ao todo já são 41 filmes e 13 programas de televisão. Na vida política, Schwarzenegger sempre se identificou como republicano e, em 6 de agosto de 2003, no programa The Tonight Show, do canal NBC, anunciou que seria candidato a governador da Califórnia. Aos 7 de outubro daquele ano, foi eleito com 48,6% dos votos e, em 2006, foi reeleito.   

       

O que todos esses políticos que vêm da carreira midiática têm em comum é a identificação com o espectro político comumente denominado de direita, principalmente no que se refere à defesa da livre concorrência, diminuição do Estado e defesa de valores morais conservadores, alinhados a princípios religiosos. Schwarzenegger, por exemplo, chamou os democratas de “homens maricas” e Reagan desregulamentou o mercado, cortou impostos, defendeu oração nas escolas e fez uma campanha que ficou conhecida como “guerra às drogas”. Na esteira dos estadunidenses, parece que Huck pretende seguir o mesmo caminho no Brasil: há rumores de que, após ter se encontrado com o governador do Maranhão, Flávio Dino, e o ex-juiz e ex-ministro de Bolsonaro, Sérgio Moro, Huck teria decidido formar uma chapa com o segundo nome.

Porém, nem sempre as candidaturas de midiáticos se concretizam. Também aconteceram rumores com os nomes de José Luiz Datena e Roberto Justus que, ao que tudo indica, acabaram desistindo no caminho. O próprio Luciano Huck já teria desistido da investida em pleitos anteriores. E isso acontece porque, afinal, política e mídia são carreiras muito diferentes, e obter sucesso em uma não significa, necessariamente, repetir o feito em outra. Há vários riscos na empreitada. Um deles é o desgaste natural de popularidade que um governante enfrenta, o que não acontece na carreira midiática, já que, nesta, ele não é cobrado por resultados na melhoria das condições de vida da população. Além disso, o jogo político é pesado e nem sempre um midiático está preparado para ver seu passado ressuscitado e sua família exposta. Isso tudo sem contar que a carreira política não é fácil e os iniciantes ou amadores são facilmente engolidos pelos profissionais. Para isso, basta ver a rasteira que Bolsonaro deu em Sérgio Moro quando este o desafiou publicamente ao entregar o cargo de ministro: os eleitores fecharam com Bolsonaro e “cancelaram” Sérgio Moro que, sem apoio na esquerda ou na direita, está lutando para não cair no ostracismo e tenta ser vendido pela mídia como “centro”.

É muito mais comum uma personalidade da mídia se eleger para cargos legislativos, como o palhaço Tiririca, eleito três vezes deputado federal por São Paulo. Isso porque, a nossa população tem tradição em levar a eleição para os cargos de legislativo na brincadeira. Veja, por exemplo, a criatividade de nomes que surgem nas eleições para vereador. Porém, quando se trata de cargos do executivo, a população é bem mais cautelosa. Diferente de eleições municipais, onde radialistas são eleitos prefeitos (veja Jonas Donizetti e Mário Kertész), lançar candidaturas famosas para cargos de governador ou prefeito é subestimar a população. Querendo ou não, são pleitos que a população leva mais a sério. O candidato pode até se apresentar como um outsider da política, como João Doria e Bolsonaro. Mas, de fato, não são, e por isso conseguiram ser eleitos. Um outsider da política de fato, como Luciano Huck, terá muita dificuldade para não naufragar em uma campanha. Ainda mais se o seu vice também nunca foi eleito para um cargo público antes.

Por outro lado, na política tudo é possível, e surpresas acontecem. Apesar do sistema eleitoral do Brasil ser diferente do sistema dos Estados Unidos, é importante atentar para o fato de que Ronald Reagan foi eleito em um momento que o país atravessava uma profunda recessão econômica, em parte decorrente de crises políticas do governo anterior, cenário que, ao que tudo indica por enquanto, será bem parecido com o de 2022 por aqui. Portanto, por enquanto, o futuro político do Brasil é bastante incerto e imprevisível. Luciano Huck será o Ronald Reagan brasileiro, ou repetirá o fiasco de Silvio Santos? Aguardemos. Só o tempo dirá.

#Política  #Brasil  #Atualidades

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