De médico, louco e professor todo mundo tem um pouco

Por Hugo David Gonçalves

12 de Nov de 2018

A eminência da votação do Projeto de Lei (PL) 7180/14 em sua Comissão Especial na Câmara dos Deputados tem deixado muita gente em polvorosa. Estava agendada para o dia 07 de novembro e foi adiada para amanhã (13/11/18) devido a certas alterações no texto propostas pelo deputado Flavinho do PSC de São Paulo, relator da matéria. Simplesmente Flavinho. Assim consta no site da Câmara.

 

O tema tem repercutido e o Brasil se mostra cheio de especialista em educação. “A democracia é uma delícia, mas tem seus custos”, disse um dos candidatos derrotados no primeiro turno. Mas o debate não está incluído nesses custos. Ele deve ocorrer a todo tempo em uma democracia. A profusão de ideias de “especialistas” (que não têm ideia de como funciona o processo educacional) com certeza é um custo alto.

 

Opiniões de toda sorte podem ser lidas nas redes sociais, sobretudo nos comentários a publicações de gente famosa que se posiciona em relação ao assunto. Parece que a polarização continua forte. A loucura que reside em cada um de nós se manifesta com insanos debates acerca da culpa de Paulo Freire pelo estágio atual de nossa “educação”. É difícil rastrear de que “educação” se está falando. É formidável, porém, ver que existe interesse pelo assunto. Na exata proporção é desesperador notar a completa falta de cabedal que coroa alguns discursos.

 

Gente que nunca leu Paulo Freire diz que ele é responsável pelo clima de insegurança que alunos e professores vivem no ambiente escolar, uma vez que promove uma escola sem regras. Muita gente que já leu pode (talvez) concordar com esse discurso. O fato é que há pouco tempo as pessoas que estão fora do meio educacional não tinha ideia de quem era Paulo Freire, Anísio Teixeira ou Demerval Saviani. Agora são todos professores especialistas em ambiente escolar, disciplina, currículo e processo ensino-aprendizagem. É, de fato a democracia “tem seus custos”. Paguemos.

 

O PL do deputado Erivelton Santana do PSC da Bahia data de 2014 e traz em sua ementa uma alteração à Lei 9394/96, que também atende pela singela alcunha de Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. O PL é pomposo como convém a um texto legislativo e taxativo ao proibir “técnicas subliminares” (sic) para abordar temas relativos à educação moral, sexual e religiosa. Erivelton Santana foi vereador, secretário parlamentar, escrivão digitador no Tribunal de Justiça de seu estado, e entre 2001 e 2004 trabalhou na cúpula da Igreja Evangélica Assembleia de Deus.

 

Sua vivência com a educação está ligada, certamente, à experiência com os pais de alunos que frequentam seu círculo social. Como representante do povo na Câmara dos Deputados sua obrigação é propor leis que atendam às demandas de sua comunidade, como o Projeto de Lei que será debatido em comissão especial amanhã. O clima e a expectativa em torno da votação desse Projeto divide inclusive a classe docente.

 

Neste ponto retomamos Paulo Freire. A leitura que faço de seus textos é justamente da educação como instrumento libertador, para que o conhecimento desenvolvido pelo aluno (causa final do processo ensino-aprendizagem) não esteja amarrado a determinada ideologia ou determinado “partido”. Contraditoriamente, muito do discurso dos apoiadores do PL é de combate ao que chamam “ideologia de Paulo Freire”. Aliás, palavra muito em voga cuja significação objetiva também é um tanto nebulosa.

 

O que se conclui disso tudo é que existe um culpado em todo esse processo e não é Paulo Freire, nem Erivelton Santana nem Flavinho: é o professor. Enquanto isso, seguimos refletindo sobre o processo ensino-aprendizagem de forma orgânica e de modo a garantir que a diversidade seja acolhida em todos os seus aspectos, afinal, é o que os currículos escolares nos orientam. Esperamos que o conhecimento técnico seja levado em consideração, em consonância com tudo que se tem produzido no mundo a respeito.

 

Já que de médico, louco e professor todos temos um pouco, utilizemos isso a nosso favor: seguindo as prescrições dos profissionais da saúde; considerando o que os profissionais da educação apontam (aqueles que conhecem e pensam o processo); e quanto à loucura, essa é de cada um, façamos dela bom proveito!

whatsapp-logo-1.png

Comentários

Ogro nas redes

  • Perfil do Ogro Historiador
  • Instagram

2018 Ogro Historiador | Ao reproduzir qualquer conteúdo deste portal, dê os créditos.