O ministro Milton Ribeiro e os homossexuais

Por João Oliveira Ramos Neto

29 de Set de 2020

O ministro da Educação, Milton Ribeiro, envolveu-se em uma polêmica ao declarar em uma entrevista para o jornal O Estado de São Paulo, publicada dia 24 de setembro de 2020, que adolescentes homossexuais são frutos de famílias desajustadas. Dois dias depois, desculpou-se em sua conta no Twitter, afirmando que respeita todos os cidadãos brasileiros. Na entrevista, havia dito que respeita, mas não concorda. Mesmo assim, a Procuradoria Geral da República pediu ao Supremo Tribunal Federal que investigue um possível crime de homofobia por parte do ministro.

A atual gestão começou no dia 10 de julho de 2020, quando o presidente Bolsonaro apresentou seu quarto ministro da educação: Milton Ribeiro, advogado, pastor e doutor em Educação. Ao invés de ressaltar a experiência do seu escolhido na gestão da Universidade Mackenzie, o que seria mais condizente com o cargo que o ministro ocuparia, o presidente da República preferiu apresentá-lo como pastor, para agradar os evangélicos, que formam uma importante base de sustentação política do seu governo. Para entendermos toda essa situação, vamos analisar o Milton Ribeiro através das três funções que ele desempenha atualmente: o teólogo, o pastor e o ministro.

O Milton Ribeiro teólogo

Presente no Brasil desde 1862, a Igreja Presbiteriana, mantenedora da Universidade Mackenzie, e da qual o ministro Milton Ribeiro é um pastor, orgulha-se de ter, em sua história, a defesa da separação entre Igreja e Estado como princípio inegociável. Além disso, é uma igreja muito criteriosa na formação dos seus reverendos. É preciso que sejam, antes, teólogos.

O curso de Teologia ainda é pouco conhecido no Brasil. Na Inglaterra, por exemplo, ele é oferecido nas universidades de Cambridge e Oxford desde o século 13. Quem desconhece a formação pensa que um teólogo estuda Deus, o que seria impossível, daí o ceticismo. De fato, durante a Idade Média, havia a imposição do método escolástico para que os teólogos partissem de pressupostos metafísicos, o que invalidaria a teologia como ciência nos dias atuais. Porém, a formação de um teólogo também sofreu várias modificações ao longo do tempo. Seu objeto de estudo é, sobretudo, o sagrado, que é possível de ser apreendido através de um método de pesquisa empírico. Daí ele estar entre as ciências humanas.

Sendo assim, ter um ministro da Educação teólogo é como ter um ministro com qualquer outra formação acadêmica, seja ela Direito, Economia ou Engenharia. Àquele que foi nomeado para a pasta cabe saber separar suas convicções de fé daquilo que se espera de alguém que está gerindo a coisa pública.  E isso se aplica para qualquer um, independentemente da sua formação, já que um engenheiro ou um economista também podem ter suas convicções religiosas e se deixar influenciar por elas enquanto desempenham seus cargos.

O Milton Ribeiro pastor

Um teólogo, porém, não é automaticamente um pastor, assim como um bacharel em Direito não é automaticamente alguém habilitado para exercer a advocacia. Assim como um bacharel em Direito precisa ser aprovado pela Ordem dos Advogados do Brasil – OAB, um teólogo precisa ser aprovado por um concílio para ser ordenado pastor de uma determinada denominação séria. No caso das denominações evangélicas, isso acontece porque, tendo em vista que a Bíblia, livro sagrado para os cristãos, é um texto, e todo texto é polissêmico, ela gera diferentes interpretações, razão pela qual as igrejas escrevem declarações doutrinárias como normativa de interpretação a qual cada fiel – e principalmente os pastores - deve subscrever para pertencer àquele determinado grupo.

A Igreja Presbiteriana do Brasil, apesar de ensinar as diferentes abordagens e interpretações da Bíblia ao formar seus pastores em seus cursos de Teologia, ordena ao ministério da Palavra – nome técnico da função de pastor – somente aqueles que estejam de acordo com a interpretação oficial da Igreja. Constata-se isso em um concílio, reunião em que o candidato é profundamente interrogado e suas respostas são registradas em ata.

E entre os temas mais polêmicos entre os evangélicos atuais está a interpretação dos textos bíblicos que condenam a prática homossexual, como a passagem de Romanos 1, supostamente escrita pelo apóstolo Paulo. A Igreja Presbiteriana do Brasil, da qual Milton Ribeiro é pastor, está entre as denominações evangélicas que interpretam o texto de forma literal, razão pela qual condenam a homossexualidade como prática abominável. Algumas outras denominações, como a Igreja Presbiteriana Unida, fazem uma leitura mais relativista. Afinal, entre os preceitos bíblicos encontram-se várias ordens que não são cumpridas mais. O próprio apóstolo Paulo disse que as mulheres não devem falar em público nas igrejas, muito menos ensinar [1 Coríntios 14].

Em geral, a maioria dos evangélicos afirma que a passagem que proíbe as mulheres de falarem em público já caducou, enquanto que as passagens que condenam a homossexualidade permanecem válidas, ainda que não saibam argumentar qual critério determina qual passagem bíblica deve ser interpretada como caduca, e qual deve ser interpretada como válida ainda hoje. Acaba permanecendo o critério da autoridade de quem interpreta o texto. Ou seja, vale a interpretação que a pessoa mais poderosa do grupo disser que vale.

Assim, o texto bíblico é, em si, tão polissêmico e passível de diferentes interpretações que só entre os presbiterianos existem cinco denominações diferentes no Brasil: A Igreja Presbiteriana do Brasil, a Igreja Presbiteriana Independente, a Igreja Presbiteriana Unida, a Igreja Presbiteriana Conservadora e a Igreja Presbiteriana Renovada. Cada uma com um corpo doutrinário diferente, todos baseados na leitura da Bíblia. 

O Milton Ribeiro ministro

No século 18, as demandas políticas colocadas pela sociedade estavam muito próximas das demandas religiosas, razão pela qual os Estados Unidos da América nasceram e se consolidaram construindo uma constituição que defendia um Estado laico e democrático ao mesmo tempo em que baseava seus alicerces em ideais puritanos, como as doutrinas presbiterianas. Essa, porém, já não é mais a realidade do século 21.

Ainda que os alicerces protestantes continuem muito parecidos com aqueles defendidos pelos puritanos do século 18, as questões políticas são outras. Se, no século 18, os homossexuais eram politicamente invibilizados na sociedade, no século 21 eles estão na pauta política. O direito dos homossexuais enquanto cidadãos é uma agenda do Estado do século 21. Demandas políticas novas como essas tornam cada vez mais insustentável conciliar os ideais republicanos de laicidade do Estado com as convicções religiosas das religiosidades herdeiras do puritanismo protestante.

Essa impossível conciliação é a raiz das constantes crises do governo do presidente Jair Bolsonaro com a opinião pública. Ao nomear pastores para ocupar cargos estratégicos a fim de agradar a maioria dos evangélicos que ajudam a compor 30% do eleitorado brasileiro, ele entra em conflito com os formadores de opinião que defendem um Estado laico que não aceita mais condenar homossexuais como pecadores.

Essa escolha política do presidente Bolsonaro acaba por colocar ministros naquilo que popularmente se denomina de “sinuca de bico”, obrigando a nomes como Milton Ribeiro ter que fazer impossíveis malabarismos, como o da semana passada: ao mesmo tempo em que, como pastor presbiteriano, precisa condenar a prática homossexual em uma entrevista, como ministro precisa explicar pelo Twitter que não discrimina ninguém.

Conclusão

No fim, no modelo político atualmente em execução no Brasil, todos sofrem. Os homossexuais, vítimas de preconceito; O ministro, angustiado em tentar conciliar o inconciliável; e o Brasil republicano, cada vez mais dividido. Penso que, diante de tudo isso, no século 21, é preciso eleger governantes e nomear para ministros aqueles que realmente estejam dispostos a administrar de forma imparcial para o bem comum.

Para aqueles que têm convicções cristãs, recomendo que sejam condizentes com o que pregam e foquem exclusivamente na recompensa após a morte física, abrindo mão do poder político nesta vida [inclusive como o próprio Jesus ensinou em João 18:36], deixando-se governar atualmente por quem realmente preza por um Estado realmente laico e que defende a liberdade individual de pensamento de todos os cidadãos de fato.

#Política  #Brasil  #Atualidades

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