As mulheres e a Idade Média: o exemplo da Rainha Santa Isabel

Por Hugo David Gonçalves

04 de Dez de 2018

O papel das mulheres na política medieval encontrava-se basicamente ligado a alguma figura masculina. Os homens estavam no centro do picadeiro e a maioria das mulheres aparecia como coadjuvantes na cena: esposas, freiras, mães[1]... Existe nessa análise certo preconceito que exclui mulheres de fundamental importância: santas (mesmo que canonizadas posteriormente), amas, bruxas... Frequentemente ligadas à figura de Eva ou de Maria. O exemplo a não ser seguido tirado diretamente do Velho Testamento e a redenção feminina que vinha do próprio Evangelho.

 

O exemplo intermediário era Maria Madalena: a pecadora remida, perdoada pelo próprio Cristo. Arrependida de seus pecados. Penitente. Exemplo de mulher real. O Livro das Maravilhas de Raimundo Lúlio (1232-1316) mostra claramente esses três exemplos bíblicos[2]. Outros foram construídos pela própria tradição oral daquela sociedade. Rastrear os romances que deram origem a determinados modelos é uma tarefa bastante complexa.

 

De qualquer forma nos chegaram exemplos muito importantes como o de Isolda, que oscila entre a bruxa que prepara uma poção para ter o amor de Tristão e a donzela que procura meios de ter seu amor de forma honrada. Guinevere também acaba se tornando um exemplo de fé, quase digna de beatificação, não fosse a constante tentação encarnada em Morgana. Esta também se mostra bastante controversa. Bruxa, mas devota da Virgem.

 

Para além dessas figuras “mitológicas”, é interessante observar como os medievais percebiam a figura feminina. O exemplo da Eva barbada citado por Hilário Franco Júnior em livro deste nome é muito interessante[3]. Trata-se de uma imagem retirada de um afresco em Saint-Savin-sur-Gartempe, data do fim do século XI ou início do XII e retrata várias cenas, dentre elas uma figura que seria de Eva retratada com barba. A primeira pergunta que vem à mente: então seria Adão? Aparentemente não. Trata-se de uma representação de Eva antes do pecado original, motivo pelo qual ela e seu companheiro eram seres assexuados e se assemelhavam em relação à barba.

 

Eva não se tornou santa, mas o fenômeno da santidade na baixa Idade Média é muito importante para se compreender as representações femininas, principalmente as que serviam de exemplo. Isabel de Aragão é um desses casos. Em 1625, 289 anos depois de sua morte, foi canonizada e é conhecida como Rainha Santa.

 

Isabel era filha de D. Pedro III e D. Constança Hohenstaufen, reis de Aragão e nasceu em 1271 na cidade de Saragoça. Casou-se com o monarca português D. Dinis em 1280. O exemplo de vida da Rainha Santa advém, além de seus milagres, da construção de sua imagem pelo papel desempenhado enquanto fora rainha e do discurso dos cronistas. A Crônica de Cadaval relata que a infanta era formosa e estremada em todos os bons costumes[4].

 

O amor à paz é relatado na Crônica como uma constante em sua vida, desde seu nascimento. O episódio mais representativo foi a interseção que fizera entre o marido, D. Dinis e seu filho, o infante D. Afonso, futuro rei. Em 1319 o infante herdeiro do trono se aliou a nobres do Norte português com o intuito de evitar que o bastardo Afonso Sanches fosse nomeado herdeiro do trono. Evidentemente seria muito difícil tal manobra, mas Afonso (futuro Afonso IV) cismou que o pai pretendia entregar o trono ao irmão bastardo.

 

Dom Dinis havia confirmado as honras ao infante herdeiro, mas ele e a nobreza que se aliara a ele pareciam não ter confiança plena nas promessas do monarca. O rei parece ter-se irritado com essa situação, convocou os nobres aliados e resolveu ir “à caça” do infante herdeiro e de seus seguidores. O clima era profundamente tenso. As tropas do rei marcharam, mas quando se encontraram com as tropas do infante tiveram uma surpresa. A rainha teria intercedido e se colocado entre as tropas do marido e do filho e evitara o conflito aberto.

 

A imagem que trazemos para este artigo é uma representação deste momento, composta por Alfredo de Morais em 1900 e mostra a rainha montada em um asno, acompanhada por um senhor, iluminada pelo alto, enquanto todo o resto da cena se encontra sob a penumbra das nuvens. As tropas do filho e do marido tem uma atitude de perplexidade e alguns se ajoelham diante da figura da rainha. O asno e a simplicidade de suas vestes, bem como das de seu companheiro remetem a hábitos religiosos que demonstram sua ligação com as Clarissas e com os Franciscanos.

 

O caso da Rainha (Santa) Isabel é profundamente exemplar, em vários aspectos, dentre os quais a permanência de sua imagem até os dias atuais. Todas as virtudes femininas podem ser percebidas na rainha desde a mais remota documentação. Essa visibilidade tem uma intencionalidade política importante, uma vez que as duas últimas rainhas não tinham sido tão exemplares. Lembremo-nos que as tensões com os reinos vizinhos foram constantes no medievo português (a União Ibérica, concretizada entre 1580 e 1640 demonstra que esse risco era real) e que a dinastia portuguesa precisava se afirmar, assim como o próprio reino.

 

D. Beatriz, mãe de D. Dinis, casou-se com D. Afonso III (rei entre 1248 e 1279) em 1253, quando o rei ainda era casado com a condessa da Bolonha, D. Matilde. Esse fato levou o rei a se indispor com o papado já que o matrimônio, enquanto sacramento, devia ser guardado e D. Matilde estava viva e sã, de modo que o casamento com Beatriz fora considerado adultério. Sua antecessora no cargo, D. Mécia Lopes de Haro foi casada com o rei D. Sancho II (rei de 1223 a 1248) pelo menos desde 1243 (há uma controvérsia sobre a data exata do enlace). Este rei foi deposto e considerado inútil (embora haja muitas controvérsias em torno dessa questão), a rainha raptada e acusada de bruxaria.

 

Todas essas questões são meramente introdutórias e a situação feminina no período medieval pode render muitas e muitas discussões, mas por ora é o que temos.

 

[1] CARLÉ, María del Carmen. La sociedad hispano medieval. Grupos periféricos: las mujeres y los pobres. Buenos Aires: Editorial Gedisa, 1988.

[2] VENTORIM, Eliane. Misoginia e Santidade na Baixa Idade Média: os três modelos femininos no Livro das Maravilhas (1289) de Ramon Llull. In: Mirabilia: electronic journal of antiquity and middle ages. N. 5, 2005. Disponível em:

<https://www.raco.cat/index.php/Mirabilia/article/view/283512/371432>.

[3] FRANCO JR., Hilário. A Eva barbada: ensaios de mitologia medieval. São Paulo: Editora da USP, 2010.

[4] CRÔNICA DE DOM DINIS. Texto Inédito do Código de Cadaval 965. Coimbra: Edição de Carlos da Silva Tarouca, 1947.

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