“Não foi bem assim...” Fato, narrativa, memória e história

Por Hugo David Gonçalves

05 de Nov de 2018

Quando você nasceu? Esta pergunta pode ser feita e respondida por qualquer ser humano capaz de manifestar linguagem. A coincidência do dia do aniversário com a data de nascimento pode causar surpresa nos menores. De qualquer forma trata-se de um acontecimento, um fato. Datado. Passado. A partir do momento em que o emissor da pergunta assume para si o ônus da questão e diz “quando eu nasci?” a dimensão factual pode ser facilmente desmascarada pelo interlocutor com um simples “como assim?”.

 

Essa pergunta contem infinitas respostas. Da mais prática, com a data constante em sua Carteira de Identidade, até algumas mais ontológicas que levem em consideração todo o processo que levou duas pessoas ao fatídico encontro que gerou uma vida. Todas elas, entretanto, certamente virão carregadas de narrativas mais ou menos romantizadas. Todas elas, entretanto, tomarão como base um fato: seu nascimento.

 

Fatos não são verdades, nem narrativas, mas acontecimentos do passado. Esses acontecimentos são mais ou menos documentados. Em nossa vida, quando perguntamos a alguém “quando nasci” essa pessoa pode ter fotos, vídeos, objetos de toda sorte que a remetam àquela data. São resquícios do passado afetivo que a pessoa guardou para ajudá-la a reconstruir, em sua memória, aquele dia. Todas essas memórias são costuradas pelo seu interlocutor em uma narrativa mais ou menos floreada e nostálgica.

 

Dificulte um pouco mais: chame outra pessoa que esteve presente naquele dia e faça a pergunta às duas. Certamente a narrativa coesa, coerente, emocionante de seu primeiro interlocutor será questionada por um “não foi bem assim” ou algo que o valha. Está pronta a intriga. Assista-os debater e cada um poderá reivindicar a veracidade de sua narrativa, a autenticidade de sua memória. Restrinja o acesso às fotos, vídeos e objetos que esse debate ficará consideravelmente mais interessante. E o fato nisso tudo? Não deixou de existir, absolutamente, mas perdeu sua importância primordial, cedendo lugar às narrativas afetivas construídas pelos testemunhos.

Funciona mais ou menos assim com a História. Temos acesso a relatos mais ou menos precisos sobre o nascimento de Cristóvão Colombo, sobre a morte de Hitler e sobre a Independência do Brasil. Construímos narrativas epistemológicas ao invés de memorialísticas, utilizando uma série de ferramentas metodológicas para garantir plausibilidade, adquirida no debate com os pares. Nosso trabalho parte de fatos, mas eles têm importância atenuada na medida em que acessamos as diferentes narrativas dos testemunhos (que tendem a ser tanto menos disponíveis quanto mais nos afastamos do momento atual) acerca daquele fato.

 

Os acontecimentos são essenciais nas narrativas memorialísticas ou históricas, mas não dizem nada por si. Tampouco se manifestam de forma aleatória. Caso deseje fazer o experimento sobre “quando nasci”, o propósito desse retorno ao passado é esse experimento. Em outros casos podemos direcionar nosso olhar ao passado por qualquer motivo, mas algo nos leva a fazê-lo e esse algo está muito ligado ao presente. Fazemos isso enquanto indivíduos e enquanto coletividade. A questão que se coloca é que a negação desse fato compromete toda a narrativa.

Uma vez que um acontecimento gera relatos de testemunhas, esses relatos precisam ser isolados do fato para que se compreenda o porquê do olhar ao passado. Do contrário corremos o risco de relativizar tudo o que não pudemos comprovar e vivenciar e confiaremos somente no que constatamos daquele fato. Hora, você não estava na maternidade quando nasceu (fisicamente estava, mas sua consciência ainda não havia sido formada e você não tem qualquer lembrança desse momento), isso faz com que os relatos das pessoas que estavam e vivenciaram aquele momento deixem de ser importantes? Absolutamente.

 

A negação das narrativas históricas sobre determinados fatos cria as chamadas “pós-verdades” sobre as quais poderemos nos debruçar em outra ocasião. A negação do fato em si, entretanto, tem sido mais comum e também carrega consigo alguns riscos, uma vez que essa negação é uma ação política (no sentido de que deve ser tomada ou assumida na ou pela coletividade). No caso de nosso nascimento é mais difícil perceber essa dimensão, mas observemos os demais exemplos.

 

Os espanhóis atuais poderiam negar que Colombo era Genovês. Os alemães podem afirmar que Hitler está sepultado no Brasil. Os brasileiros podem questionar que a Independência tenha sido assinada pela Rainha. Caso qualquer um desses discursos seja individual, certamente não causará qualquer impacto. Caso essas ações sejam políticas existem duas situações. A primeira delas, bastante positiva, é a investigação científica séria sobre tal fato e uma refutação ou aceitação pela comunidade acadêmica e uma consequente revisão de toda historiografia sobre o tema. A segunda, bastante arriscada, é a difusão de uma série de afirmações insustentáveis, carentes de verificação e validação e que podem servir a interesses verdadeiramente escusos.

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