A questão do parricídio na História Ocidental

Por Wendryll Tavares

01 de Dez de 2018

Nos últimos anos um conjunto de assassinatos envolvendo parentes consanguíneos[1] “chocou o Brasil” (para usar um conhecido jargão dos noticiários policiais). Entre os casos mais famosos estão: Gil Rugai (condenado pela morte do pai e da madastra), Suzane von Richthofen (condenada pela morte do pai e da mãe) e Alexandre Nardoni (condenado pela morte da filha)[2]. Tais casos são tão emblemáticos para a história da criminologia brasileira que até hoje qualquer pessoa minimamente informada se recorda da cobertura televisiva dada aos referidos acontecimentos. Além disso, quando há alguma novidade sobre as saídas dessas personagens da prisão (progressão de pena ou “saidinhas”), setores da imprensa oferecem grande destaque e um conjunto de críticas emerge contra a Justiça e a legislação brasileiras[3].

 

De todos esses casos, o de Richthofen é o que me gera pessoalmente mais lembranças, já que a imagem da assassina passou por grande exploração da mídia (com forte condenação moral), como é possível perceber em diversas reportagens[4]. A condenação popular também é muito alta nesse tipo de ação, já que a célula fundamental da sociedade, a família, é destruída por alguém da própria família. Se as pessoas já morrem de medo de serem assassinadas nas ruas por estranhos, o alarme cresce quando somos lembrados que os assassinos podem estar dentro de casa.

 

O que Nardoni, Richthofen e Rugai têm em comum? Todos são parricidas. Usando a definição de Katheleen M. Heide (criminóloga da University of South Florida), parricídio é o assassinato de um parente próximo. Outros termos como patricídio, matricídio, filicídio e fratricídio são derivações que significam respectivamente o assassinato do pai, da mãe, do filho ou do(s) irmão(s). Como Heide é uma criminóloga que utiliza as chaves científicas dos séculos XX e XXI, é muito importante perceber que para ela (e para a sociedade ocidental em geral) a compreensão a respeito desse tipo de crime está ligada a problemas de ordem psico-social nos assassinos. Essa autora chega a defender uma tipologia de potenciais parricidas: crianças severamente abusadas que matam para acabar com o abuso, as crianças severamente doentes mentais e crianças perigosamente antissociais. Claro, é preciso lembrar que em um mundo em que o conhecimento científico convive com lógicas religiosas, são dadas outras explicações para essas ações nas conversas de almoço ou em programas de televisão.

 

Apesar de muitos dizerem ao assistir reportagens sobre esse tipo de crime coisas como “o mundo está acabando”, “onde fomos parar” e “a família está sendo destruída em nossa sociedade”, esse tipo de crime não é exclusividade do mundo contemporâneo. Foram os romanos que desenvolveram o termo paricidas, que significava a morte de um paterfamilias (um homem que detinha civitatis, libertatis e familiae). Durante a República, gradualmente o termo parricidium ganhou espaço, designando o assassinato de um parente. Ora, se existia o termo é porque a prática também existia. Notamos então que parricídio era algo que acontecia pelo menos “desde a Roma Antiga”.

 

Se formos mais longe, podemos dizer inclusive que ele é um dos problemas essenciais das mitologias ocidentais (não me ocuparei do “Oriente” nesse pequeno trabalho). Se procurarmos no livro de Gênesis, encontraremos lá o exemplo de Caim e Abel, em que o irmão agricultor matou o irmão pastor de ovelhas. Saindo da tradição judaico-cristã, é possível identificar inúmeros casos na mitologia grega, sendo os casos de Urano, Cronos e Zeus muito emblemáticos. Um pai que mantinha os filhos em “cativeiro”, outro que comia os filhos e a reação do filho que gerou a Titanomaquia, uma guerra entre deuses. Nas tragédias gregas, há um dos casos de parricídio mais famosos que conhecemos, Édipo, que não só matou o próprio pai, mas também se casou com a própria mãe sem saber.

 

Um caso muito peculiar na Antiguidade é o de Rômulo e Remo, os irmãos fundadores de Roma. Passagem muito particular porque envolve o conflito entre os irmãos fundadores da cidade que seria a capital do futuro Império Romano. Rômulo mata Remo por uma questão de definição do local de construção da futura cidade eterna e depois se torna o primeiro dos reis de Roma. Para ficarmos em Roma, a maioria de nós já ouviu falar do assassinato de Agripina pelo seu filho, Nero. Se confiarmos plenamente em Suetônio (algo complicado), acabamos por saber que após não ter sucesso na morte da mãe por afogamento, Nero insistiu na ideia e mandou que a mãe fosse apunhalada. Em um caso completamente diferente (e louvado por autores como Frontino), o militar Manlius deu ordens para que o próprio filho fosse flagelado e morto por descumprir ordens em campo de batalha.

 

Durante a Idade Média, também temos alguns exemplos, como a do ciclo arturiano, em que Mordred (em algumas versões) travou batalha contra seu pai (ou tio) Arthur, batalha na qual os dois sofreram ferimentos que os levaram à morte. Como exemplo do início da Idade Moderna, todo mundo se lembra do Hamlet de Shakespeare, que tentava vingar a morte de seu pai praticada pelo próprio tio, ou seja, um parricídio para vingar outro.

 

No século XIX, os casos de parricídio abundavam. Michel Foucault relata que havia no mínimo dez casos por ano na França da década de 1830. Aquele que ganhou maior destaque com o passar do tempo (não que tivesse tido grande destaque na época de seu cometimento) por conta da publicação da obra Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão coordenada por Foucault, trata do caso de Pierre Rivière que matou a mãe, a irmã de dezoito anos e o irmão de sete em uma área campesina francesa. O caso é muito interessante por conta da farta documentação e pelo fato do assassino ter escrito um memorial em que dava sua versão dos fatos.

 

Nesse caso de Rivière já se percebia uma preocupação com as questões de capacidade mental dos indivíduos e várias perícias foram realizadas com Rivière para testar a capacidade mental dele. Condenado à pena dos parricidas (morte), teve sua pena comutada pelo rei para prisão perpétua e mesmo assim acabou por se enforcar na prisão.

 

A partir do século XX (principalmente da segunda metade), esse tipo de caso passou a ser noticiado com grande destaque pela imprensa internacional. Edmund Kemper, que matou não só a mãe como também os avós (e dezenas de colegiais) só tornou um grande exemplo, não só por ter cometido parricídio, mas também por ser um famoso serial killer. A questão da relação entre filhos e pais (como podemos ver no trabalho de Heide) hoje é tida como fundamental na formação de assassinos não só de parentes, mas de assassinos seriais. Muito célebre na história do cinema é o caso de Norman Bates, protagonista do romance de Robert Bloch (e do filme de Hitchock): Psicose.

 

Percebe-se só com a enumeração desses poucos exemplos que a questão do parricídio não é uma novidade gerada pela “degeneração” pela qual passa o nosso mundo. Muito pelo contrário, está presente na sociedade ocidental desde o “Gênesis”. O que o mundo contemporâneo traz de diferente, para além da superexposição dos casos, é a tentativa de entendimento da questão para além das chaves moralistas e religiosas. Se as ações de Caim o colocam como sinônimo de maldição, Zeus como sinônimo de um deus com vícios (e não só virtudes), Nero como um péssimo imperador, a partir de Rivière é possível pensar os parricidas (não a partir de chaves meramente moralizantes) também por chaves psicossociais (e biológicas). Hoje nos permitimos perguntar “como e por que essas pessoas se tornaram parricidas?”, o que é muito importante para tentar nos ajudar a entender o problema, além de ser um passo importante para prevenir esse tipo de crime (pelo menos quando for possível).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Parricide and violence against parents throughout History (Ed. Marianna Muravyeva e Raisa Maria Toivo)

https://www.amazon.com.br/Parricide-Violence-Against-Parents-throughout-ebook/dp/B076HZWJ61/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1543671794&sr=8-1&keywords=PARRICIDE+AND+VIOLENCE

 

Eu, Pierre Revière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão (Coord. Michel Foucault)

https://www.amazon.com.br/Pierre-Rivi%C3%A8re-degolei-minha-irm%C3%A3o/dp/8570380895/ref=sr_1_1?s=books&ie=UTF8&qid=1543671915&sr=1-1&keywords=eu+pierre

 

Mindhunter…O Primeiro Caçador de Serial Killers Americano (John Douglas e Mark Olshaker).

https://www.amazon.com.br/Mindhunter-Primeiro-Ca%C3%A7ador-Killers-Americano/dp/8551001736/ref=sr_1_1?s=books&ie=UTF8&qid=1543671973&sr=1-1&keywords=mindhunter

 

Understanding Parricide (Kathleen M. Heide)

https://www.amazon.com.br/Understanding-Parricide-When-Daughters-Parents/dp/0195176669/ref=sr_1_1?s=books&ie=UTF8&qid=1543672113&sr=1-1&keywords=understanding+parricide

 

Psicoce (Robert Bloch)

https://www.amazon.com.br/s/ref=nb_sb_noss_2?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&url=search-alias%3Dstripbooks&field-keywords=psicose

 

[1] Por isso excluí o caso de Marcos Kitano, assassinado e estripado por Elize Matsunaga (esposa).

 

[2] Decidimos não colocar o caso da família Pesseghini por conta da luta da família para reabrir o caso. https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2018/08/05/caso-pesseghini-faz-5-anos-e-familia-leva-a-oea-provas-para-reabrir-inquerito.ghtml. Acesso em: 30/11/2018.

 

[3] https://www.youtube.com/watch?v=II3OAsVZpWg. Acesso em: 30/11/2018.

 

[4] https://www.youtube.com/watch?v=8Mj4qVm5teU. Acesso em: 30/11/2018.

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