Afinal, o que foi o Holocausto?

Por Sabrina Costa Braga*

07 de Fev de 2020

As 'Stolpersteine' ou 'pedras do tropeço' são hoje o maior memorial descentralizado sobre o Holocausto. Informações: http://www.stolpersteine.eu/

Em matéria recente do jornal El País, diz-se que aproximadamente um terço dos europeus não sabe nada ou mal ouviu falar do Holocausto, e que esse desconhecimento vem acompanhado de persistências de antissemitismo, como a propagação de estereótipos envolvendo judeus e israelenses. Foi notícia também a polêmica gerada pela possibilidade da exclusão do Holocausto e da Segunda Guerra Mundial do currículo escolar na Noruega.

No Brasil, o extermínio de milhões de pessoas (em sua maioria judeus) pelos nazistas durante da Segunda Guerra Mundial é assunto por muitos conhecido, especialmente por quem teve acesso à educação formal e já se deparou com o tema nas aulas de história. Ainda assim, muitas informações falsas são propagadas. A existência dos campos de concentração e extermínio não é um acontecimento que diz respeito apenas à história da Europa, mas também à maneira como a humanidade vê a si mesma, uma vez que crimes terríveis foram sequencialmente cometidos por “homens comuns” durante um intervalo de tempo consideravelmente longo. Assim, acredita-se que ter consciência de catástrofes passadas ainda pode ser um recurso importante para reconhecermos o perigo de discursos de ódio atuais.

O texto de hoje tem a pretensão de apresentar resumidamente a face mais terrível dos resultados da política nazista, o que é comumente conhecido como Holocausto. Em 1944, o jurista Raphäel Lemkin, de origem judaica, utilizou pela primeira vez a palavra genocídio para denominar a tentativa de destruição de um grupo, não só por sua origem, raça ou religião, mas meramente pela sua existência. Desde então é possível ler sobre o tema sob os nomes de Holocausto, Shoah, Auschwitz, Solução Final, etc. A singularidade desse evento já se apresenta na dificuldade em encontrar um nome que se aproxime de representar o que aconteceu.

É tarefa impossível calcular com exatidão o número de mortos pelo regime nazista, isso porque não há um documento único criado por funcionários nazistas que estabeleça o número de vítimas. Pelo contrário, próximo ao fim da guerra, nazistas e colaboradores tentaram destruir o maior número possível de documentos e evidências físicas dos extermínios, o que incluiu a explosão de câmaras de gás. Desse modo, as informações apresentadas aqui são uma breve síntese do trabalho de inúmeros historiadores, órgãos governamentais e outras instituições que trabalham incansavelmente com os documentos restantes, as evidências físicas e o testemunho dos sobreviventes para criar uma narrativa acerca do Holocausto que se aproxime o máximo possível de nos permitir conhecer um pouco dos horrores do regime nazista.

A estimativa do número de mortos entre 1940 e 1945 está entre 6 e 8 milhões de judeus, aproximadamente 250 mil pessoas da etnia roma (ciganos), milhares de homossexuais, centenas de negros e testemunhas de Jeová, entre outros grupos considerados um empecilho ao plano de dominação racial, tais como comunistas.

Um dos princípios do nazismo, além do antibolchevismo e militarismo, era o antissemitismo. O termo antissemitismo é usado para designar a aversão e ódio a povos de origem semita, em especial os judeus, constituindo assim não apenas intolerância religiosa, mas uma forma de racismo. Apesar de muitos judeus europeus à época da Segunda Guerra Mundial manterem um sentimento de pertencimento à sua origem étnica, eles estavam também assimilados à cultura europeia, eram pessoas que nasceram em países europeus e viveram toda a sua vida nesses lugares. O antissemitismo é um problema muito mais antigo que o nazismo, a perseguição aos judeus é quase tão antiga quanto sua existência e, já arraigada a grande parte da comunidade europeia da época, encontrou no nazismo e nos discursos de Hitler seu auge.

Hitler, com um discurso nacionalista de valorização da cultura e identidade alemã, foi eleito chanceler da Alemanha em 1933 e, a partir de então, não mediu esforços para propagar a ideologia antissemita que culpava o crescimento econômico de parte da comunidade judaica pelas crises alemãs, recebendo assim o apoio de grande parte da população para perseguir, prender e matar milhões de judeus com a justificativa de que essa “limpeza” étnica seria capaz de reerguer o país. Foi nesse mesmo ano que o primeiro campo de concentração foi construído.

A “Solução Final da Questão Judaica”, nome que foi o código nazista utilizado para designar a decisão de exterminar todos os judeus europeus, não foi colocada em prática logo de início. Quando pensamos em Holocausto, logo nos vêm à mente as imagens dos corpos amontoados fotografados nos campos de concentração, mas a máquina de extermínio passou por diversas fases até que chegasse ao auge de sua funcionalidade.

As chamadas Leis de Nuremberg, aprovadas em 1935, foram duas leis distintas que constituíram o embasamento legal para a perseguição dos judeus. A primeira, Lei da Cidadania do Reich, estabelecia que somente pessoas de “sangue ou ascendência ariana” poderiam ser consideradas cidadãs alemãs, definindo assim os judeus como uma raça a partir de uma genealogia imposta que definia pessoas com três ou mais avós nascidos da comunidade judaica. Essas definições arbitrárias incluíram pessoas que sequer se consideravam judeus e até mesmo aqueles já convertidos ao cristianismo. A segunda lei, Lei de Proteção do Sangue Alemão e da Honra Alemã, proibia o casamento de cidadãos alemães com judeus, assim como relações sexuais entre essas pessoas. Nessa época, diversas prisões arbitrárias foram decretadas contra judeus acusados de tentar “poluir a raça”.

Um marco simbólico da guinada rumo à violência pode ser encontrado na Noite dos Cristais, que tem esse nome devido aos muitos cacos de vidro que ficaram nas ruas nos dias seguintes. A palavra pogrom se refere à destruição, vandalismo e violência associados à perseguição de judeus e a Noite dos Cristais foi um pogrom contra os judeus em novembro de 1938 apoiado pela SA (um ramo do exército nazista) e por membros da Juventude Hitlerista. Por fim, os nazistas (militares e civis) destruíram mais de 200 sinagogas, saquearam aproximadamente 7 mil estabelecimentos comerciais de judeus, além de casos de humilhação pública, estupros e ainda cerca de 90 mortos entre a Alemanha, a recém incorporada Áustria e parte da Tchecoslováquia. Após a Noite dos Cristais, com o apoio de parte da população civil e a passividade de tantos outros diante do massacre, as autoridades nazistas encontraram respaldo para intensificar as leis antissemitas e a perseguição, confiscando bens, realizando prisões arbitrárias etc.

Outro elemento importante da perseguição aos judeus foram os guetos. Guetos foram regiões, geralmente cercadas, para as quais os judeus de cidades ocupadas pela Alemanha eram obrigados a migrar e viver, quase sempre, em condições miseráveis. O primeiro gueto foi instalado na Polônia em 1939 e pelo menos mil guetos puderam ser contados em regiões polonesas e territórios da União Soviética invadidos pela Alemanha. Esses guetos foram usados provisoriamente para controle e segregação da população judaica até que o alto escalão nazista decidisse a maneira mais eficaz de lidar com a “questão judaica”.

Um aspecto importante e não tão tratado do Holocausto foram os fuzilamentos em massa ocorridos entre 1941 e 1944. Os Einsatzgruppen foram grupos operacionais formados pela SS (espécie de tropa de elite do exército nazista) e forças policiais que contaram com o apoio de forças locais para fuzilar cerca de 2 milhões de judeus enquanto avançavam ocupando territórios da União Soviética, como a Ucrânia, Lituânia, Polônia, Romênia, etc. Os Einsatzgruppen seguiam o exército alemão com a única tarefa de exterminar os considerados “inimigos do Reich” ou racialmente inferiores, o que incluía, além dos judeus, funcionários do Estado soviético, membros do Partido Comunista Soviético, ciganos e deficientes físicos e mentais.

Após a identificação de quem seriam os judeus da região ocupada (muitas vezes com a ajuda da população local, os vizinhos dessas pessoas), eles eram obrigados a entregar seus bens e marchar até os locais de execução onde enormes valas comuns os esperavam ou, em alguns casos, onde os próprios condenados deveriam cavar suas valas. Os judeus eram ainda obrigados a se despir e eram enfileirados em pé na beira das valas ou deitados uns em cima dos outros e fuzilados. Inicialmente, os Einsatzgruppen matavam principalmente homens adultos, mas a partir de 1941 passaram a fuzilar todos sem distinção de sexo ou idade. Ainda hoje, restos mortais são encontrados nessas valas comuns em florestas das regiões citadas e diversas dessas ações foram fotografadas e até filmadas.

Enquanto os Einsatzgruppen realizavam sua tarefa de maneira nada discreta, os líderes nazistas estudavam as melhores opções para intensificar e tornar mais eficaz o extermínio, o que culminou na criação das câmaras de gás. Os campos de concentração foram construídos e desenvolvidos entre 1933 e 1945 e inicialmente serviriam para prender os inimigos do regime. Porém, a partir de 1935, além dos presos políticos, aqueles considerados racialmente inferiores começaram a ser presos. Logo, além de detenção, o sistema de campos se expandiu também para aproveitar o trabalho forçado e exterminar pessoas, surgindo os chamados campos de extermínio. Os campos de concentração se localizavam na Alemanha e Polônia ocupada e os campos de extermínio (Chelmno, Belzec, Sobibor, Treblinka II e Auschwitz-Birkenau) predominantemente na Polônia. Desses campos o mais conhecido foi Auschwitz, uma complexa estrutura que unia campo de trabalho escravo e câmaras de gás. Ele foi o maior campo de concentração/extermínio e diferente de diversos outros, como Treblinka, sua estrutura foi mantida, podendo hoje ser visitado.

Judeus de toda a Europa foram deportados para esses campos de concentração e morte e, para que chegassem até eles, o sistema de transporte ferroviário europeu foi mobilizado. A morte encontrou várias pessoas já durante o caminho, pois, amontoados em vagões de carga sem comida, água ou acesso a banheiros, as pessoas mais frágeis não eram capazes de resistir às longas viagens de trem até os muitas vezes distantes campos. Assim que os trens chegavam, começava o processo de seleção. Os relatos variam um pouco, mas geralmente os prisioneiros eram obrigados a entregar seus bens, despir-se e eram selecionados aqueles que serviriam para o trabalho forçado e os que iriam diretamente para as câmaras de gás. Idosos, mulheres e crianças geralmente eram imediatamente enviados para as câmaras (com a exceção de uma minoria de mulheres selecionadas para campos femininos), mas homens saudáveis não necessariamente teriam suas vidas poupadas, pois parte da lógica perversa dos campos era deixar claro que a vida de nenhuma daquelas pessoas tinha valor.

Além do extermínio nas câmaras de gás, muitos morreram pelo trabalho forçado e pelas condições inumanas a que eram submetidos. As peculiaridades do cotidiano nos campos de concentração encontram forma em relatos terríveis de sobreviventes submetidos a uma intensa rotina de trabalho forçado, humilhações, fome, frio e tortura. Um exemplo dessa crueldade pode ser ilustrado pela existência dos Sonderkommandos, grupos de judeus que eram obrigados a retirar os corpos de outros judeus das câmaras de gás e enterrá-los ou conduzi-los aos fornos crematórios. Periodicamente, esses membros dos Sonderkommandos eram substituídos e eles mesmos asfixiados e cremados. Outra questão notável foi a dos experimentos conduzidos por médicos nazistas em prisioneiros, quando diversos procedimentos desnecessários e dolorosos foram realizados com a justificativa de serem tratamentos.

O presente texto foi uma pequena síntese do que se costuma chamar de Holocausto, tema que é capaz de gerar importantes reflexões que vão muito além da simples curiosidade pela aparente falta de limites da crueldade humana.

Para quem entrou em contato com o tema agora e deseja saber mais, indico o documentário Einsatzgruppen: The Nazi Death Squads, que apresenta diversas imagens reais e depoimentos de testemunhas e está disponível na Netflix; a Holocaust Encyclopedia, do United States Holocaust Memorial Museum, que apresenta amplo conteúdo que pode ser acessado em português (https://encyclopedia.ushmm.org/en); e o livro do sobrevivente Primo Levi: É isto um homem?.

 

 

Referências

KERSHAW, Ian. Hitler, the Germans and the Final Solution. Jerusalém: Yad Vashem, 2008.

LEVI, Primo. É Isto um Homem? Rio de Janeiro: Rocco, 1988.

RABINOVITCH, Gérard. Schoá: Sepultos nas nuvens. São Paulo: Perspectiva, 2004.

SANZ, Juan Carlos. Um terço dos europeus mal ouviu falar do Holocausto. El País. Internacional. Jerusalém, 28 nov 2018.

SULENG, Kristin. ​Polêmica na Noruega pela exclusão do Holocausto do currículo escolar. El País. Cultura. Brasil, 04 dez 2018.

 

 

 

* Sabrina Costa Braga é mestra em História e doutoranda pela Universidade Federal de Goiás. Realiza estágio doutoral na Freie Universität Berlin.

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