Artigo de Opinião

O Que Você Pensa Sobre os Muçulmanos?

ou

Para a Nossa Religião, a Água do Paraíso,
Para as Religiões dos Outros, o Fogo do Inferno

Por Thiago Damasceno Pinto Milhomem

20 de Ago de 2021

Como você entende as religiões dos outros? O seu tratamento para com os fiéis de outras religiões é um comportamento respeitoso e saudável? Este texto é sobre como cristãos ocidentais entendem os muçulmanos e a religião islâmica. O que me inspirou a escrevê-lo foram as reações à ascensão do Talibã no Afeganistão.

Como é sabido, esse grupo extremista tomou o poder em Cabul no último dia 15, vinte anos após sua derrota para os EUA e a Aliança do Norte. Com isso, as redes sociais foram tomadas por vídeos e imagens de afegãos fugindo desesperados do país (e morrendo por isso), de soldados do grupo violentando manifestantes contrários ao novo regime e, claro, imagens comparando muçulmanas antes e depois do Talibã. Afinal de contas, quando se fala em Islām é muito comum, infelizmente, associar e reduzir essa rica e diversa religião apenas a crentes colocadas sempre como oprimidas e violentadas. Não pretendo discutir aqui sobre muçulmanas, mas sim sobre a islamofobia (aversão e ódio ao Islām e aos muçulmanos) provocada pelo compartilhamento excessivo e irresponsável (muitas vezes sem o devido contexto) de conteúdos sobre o Talibã, o Afeganistão e sobre muçulmanos em geral.

Quando se entra em contato com os problemas que os afegãos vivem, rápida e diretamente se relaciona tudo isso ao Islām, de modo que se pensa e se fala que “Muçulmanos são opressores e violentos, vejam esses aí do Talibã!”, “Muçulmanos sofrem muito, que povo desgraçado!”, “Esses países muçulmanos são o fim do mundo!”, dentre outros pensamentos e discursos.  

Sem dúvida o Afeganistão é um país islâmico. Sem dúvida o Talibã se proclama como um grupo exemplar de virtude religiosa. Sem dúvida os países islâmicos passam por muitos problemas. Mas seriam apenas eles?

Quando se pensa e se fala dentro da ideia de Ocidente cristão e de Oriente muçulmano é comum se representar, enfim, se pintar todo um quadro onde o mundo islâmico aparece como um poço sem fundo de problemas, enquanto que, do lado de cá (Ocidente cristão), parece que não se tem problema nenhum! Diz-se facilmente que as muçulmanas são oprimidas pelo machismo, como se as mulheres cristãs ocidentais também não o fossem! Eu sei, acabei falando de muçulmanas, mas quis aproveitar o raciocínio didático.

Não estou falando aqui nenhuma novidade. O intelectual palestino Edward Said (1935-2003) já alertou sobre a construção que o Ocidente faz do Oriente. Nessa construção histórica e discursiva, o Oriente é colocado como uma região bárbara, essencialmente violenta, exótica e cheia dos estereótipos, preconceitos e clichês culturais. Dentro dessa discussão, quero chamar atenção para o seguinte ponto: quando o Ocidente cria uma imagem sobre o Oriente, também acaba criando uma imagem de si mesmo. Nesse processo de compreensão, representação e expressão desse Outro oriental e do nosso Ocidente, somos sempre vistos por nós mesmos como o ápice da civilização, como uma região sem problemas. São sempre apenas as mulheres de lá que são oprimidas, são sempre apenas o povo de lá que é violento, são sempre apenas os países de lá que são complicados. Nós aqui vamos muito bem, nem precisa perguntar!

Assim, é curioso notar que, para a nossa religião, consideramos válidos, geralmente, apenas os exemplos bem vistos. Um atirador estadunidense mentalmente doente que mata crianças a tiros em uma escola não é um terrorista cristão, é apenas um doido cruel isolado. Já um crime cometido por um cidadão árabe saudita mentalmente perturbado, por exemplo, é um crime cometido por um muçulmano. Do lado de cá, o crime é de um indivíduo em específico, do lado de lá, é de toda uma comunidade. Nós socializamos apenas os crimes dos Outros.

Perante isso, proponho questionamentos mais que necessários sobre como entendemos esse Outro muçulmano. Por que se acredita piamente que um criminoso que se proclama como muçulmano é de fato um crente que age de acordo com as orientações de sua religião? Do lado de cá, se um criminoso diz ser cristão, rapidamente poderá ser rechaçado, com cristãos dizendo que crimes não são coisas defendidas pelo Cristianismo. Por que não usamos o mesmo princípio para falar do Outro muçulmano? Por que se acredita piamente que o Talibã interpreta corretamente Alcorão? Por que os extremistas muçulmanos são considerados exemplos dentro da religião que eles dizem seguir?

Enfim, para a nossa religião, a condescendência, a compreensão e a tolerância. Para as religiões dos outros, o julgamento, a impiedade e a condenação. Para a nossa religião, a água do Paraíso, para as religiões dos outros, o fogo do Inferno.

Esse modo de pensar é influenciado por séculos de domínio violento de potências colonizadoras sobre diversas regiões do mundo, como Oriente Médio, África, Ásia e até aqui, na América Latina. Somos tão dominados por esse pensamento imperialista colonizador que reproduzimos os preconceitos vindos dos impérios. Com isso, consideramos essencialmente inferiores e problemáticos países que, tal como nosso Brasil varonil, foram explorados e violentados por projetos políticos colonizadores. A educação e a prática do pensamento crítico podem nos tirar desse ciclo vicioso.

Antes de sair falando mal da religião alheia, pense se você gostaria que falassem de igual modo da sua religião. Pense se realmente é correto acreditar em tudo que se diz sobre as religiões dos outros. Pense realmente se no sensacionalismo e na divulgação de imagens e vídeos sem contexto é possível construir um entendimento seguro sobre como são e como vivem os muçulmanos. Isso se chama empatia. Exercitar empatia não mata ninguém e colabora para um mundo melhor.

Falo desse caso em específico porque sou um historiador que pesquisa mundo árabe-islâmico. Contudo, os princípios de postura crítica e de pensamento que defendo podem ser aplicados para outras religiões e culturas. Reflita bem sobre o que você vai pensar e falar sobre o Outro. De fato, não estamos no mesmo barco, mas estamos no mesmo planeta e agora em contato praticamente constante, por conta das redes sociais, e com inúmeras possibilidades de existência e de compreensão.  

Também aproveito para ressaltar que o mundo islâmico, tal como o mundo cristão, é formado por diferentes países e comunidades, de modo que é praticamente impossível sintetizar todo em um único ente, ou seja, é impossível colocar todos os muçulmanos em um saco só. Mas reitero que os extremistas são anomalias, aberrações, pontos fora da curva e minorias dentro da Umma, a comunidade de muçulmanos. Não se deixe enganar por esses estereótipos sobre muçulmanos. Todos os muçulmanos que conheço (e não são poucos) são pessoas educadas e respeitosas. Muitos exercem uma espiritualidade realmente exemplar, mas que não aparece na mídia ou nas redes sociais, mas sim no pequeno cotidiano. E para ser bastante franco, os fiéis com quem mais vivi conflitos e agruras por questões de crença e de comportamento foram os meus correligionários cristãos, não os Outros muçulmanos. Curioso, não?

Ressalto que categorias como “Ocidente” e “Oriente” são reducionistas e não contemplam a diversidade e complexidade do planeta, mas as uso aqui com fins didáticos. Espero ter alcançado esse objetivo. Entretanto, também preciso mencionar que associar muçulmanos apenas a cidadãos de outros países é uma forma equivocada de compreender esses fiéis. Há séculos o Islām está em terras brasileiras e o número dos seus adeptos cresce aqui e no mundo. Há estudos que falam em cerca de 1,5 milhão de muçulmanos no nosso país, sejam imigrantes ou brasileiros nativos. Há muito tempo o Islām não é uma religião de Outro mundo, mas do nosso.

Também chamo a atenção para a associação entre Cristianismo e religiões ocidentais. Muito se diz “Religiões orientais como o Judaísmo e o Islām ...”. Acontece que Jesus Cristo não nasceu em Belém do Pará, Londres ou Paris, mas em Belém da Palestina. E foi por essa região que ele divulgou sua mensagem. Logo, não podemos nos esquecer que o Cristianismo, tal como os outros monoteísmos e outras religiões politeístas, nasceu no dito Oriente e se expandiu por todo o mundo. Falar em religiões daqui e de lá não resume a ópera.

Por fim, lembro que a religião islâmica não é só formada por regras e proibições, mas também por ensinamentos espirituais riquíssimos que podem contribuir para o desenvolvimento pessoal de qualquer pessoa, seja ela muçulmana ou não. As religiões vão muito além de dogmas e interditos. Quanto mais respeito e compreensão tivermos com as religiões dos outros, mais podemos contribuir para o desenvolvimento espiritual e humano nosso e dos demais habitantes deste planeta.

Fiquem na paz (salām)!

Por causa disso, prescrevemos aos filhos de Israel que quem mata uma pessoa, sem que esta haja matado outra ou semeado corrupção na terra, será como se matasse todos os homens. E quem lhe dá a vida será como se desse a vida a todos os homens” (Alcorão, capítulo 5, versículo 32).

Este conteúdo também está disponível formato de vídeo aqui, no canal História na Medina, projeto solo sobre história árabe-islâmica do ogro Thiago Damasceno, também presente no Instagram e no Facebook!

 

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