Ogrus Domesticus?

Por Philippe Sartin

04 de Nov de 2018

Se o historiador é mesmo aquele ogro, que por toda parte fareja a carne humana, o seu impulso é moralmente cego: sem tomar conhecimento de suas vítimas, ele mata e come. Em outras palavras, não há limites para o que se possa historicizar. Seja o que for com que se depare o historiador – ideias, costumes, crenças, práticas – não há um motivo intrínseco ao seu ofício para ignorar eventuais processos, disputas, poderes, contextos, disrupções. Tudo o mais é ideologia ou autoritarismo.

 

Testemunho pessoal: durante um evento, há uns dois anos, eu defendia que o historiador tem a dianteira na abordagem da religião e, no caso do que então se discutia, que o professor de História tem a oportunidade de apresentar aos estudantes a formação histórica de cada uma das religiões, ainda que a sua exposição contradiga as respectivas “narrativas oficiais”. Isto é válido para o catolicismo, o protestantismo, o pentecostalismo, o espiritismo etc. (assim como é válido para qualquer coisa no mundo sub ou supralunar). A esperança deste argumento é que o terreno da História, permeado de conflitos religiosos – como é evidente – mas igualmente de diálogos, trocas e assimilações – ainda que muitos, sobretudo os líderes religiosos, se recusem a aceitá-lo – sirva de ponto de partida para o mútuo entendimento e a convivência pacífica.

 

Após a minha exposição utópica e, admito, um tanto ingênua, um elemento do auditório levantou a mão e colocou o problema em sua bruta simplicidade: “o que é que se ganha dizendo ao aluno que a sua religião não é o que parece? Que possui uma história pouco ou nada sagrada?”. Confesso que não esperava pelo questionamento e, no embaraço da ocasião, comecei a dizer que não era bem assim, que tudo é uma questão de tato, que não precisamos afirmar nada de um modo tão peremptório, nada que ofenda os “ouvidos pios”, como se dizia nos séculos anteriores. Ainda mais se o seu emprego depender disso (o que, no momento em que escrevo, é um espectro que assombra os professores no Brasil).

 

O problema, todavia, permanece – e o leitor compreenda, por favor, que não espero resolvê-lo. A pergunta é: mas por que não? Por que não apresentar uma história se a mesma se mostra plausível em termos documentais, conceituais e acadêmicos? Se é oriunda de pesquisa, se a sua racionalidade é explícita (aberta a críticas racionais), se não exige adesão a ideologias (um saber engajado) ou autoridades (um saber revelado, cultuado)? Não fazê-lo não seria um contrassenso? Onde a história convive em paz com o poder, ela já perdeu a sua dignidade. O historiador, como disse Marc Bloch, exerce um ofício. Mas, eu acrescentaria – com sua virtual aprovação – não pode ser jamais oficial.

 

O problema da suscetibilidade à verdade histórica – parcial, com efeito, probabilística e indiciária, mas nunca um mero capricho – tem, é claro, de ser pensado em conjunto com a alergia à ciência, à filosofia, ao saber de modo geral (e o brasileiro, bem sabemos, tem uma incurável intolerância ao conhecimento). Sobretudo quando em conflito com crenças arraigadas, como é o caso da religião. Ele é mais complexo do que se pensa e envolve muito mais do que eu saberia dizer.

 

Para muitos a História é dispensável e o mito é preferível. Cabe ao historiador viver em seu diálogo eterno com os poderes, as instituições, dizendo muitas vezes o que não se quer ouvir. Que é possível ser feliz na ignorância não há dúvidas. Mas nada mais ridículo que um ogro doméstico.

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